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As senhoras, os senhores e o senhor árbitro

Pedro Candeias

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Artur Soares Dias é filho de Manuel Soares Dias, e os nomes importam porque Artur decidiu que seria árbitro no dia em que viu Manuel a apitar um jogo no Estádio da Luz. Ele tinha 16 anos e fez o que muitos adolescentes fazem — ignorou os conselhos do pai. Artur tirou o curso de Gestão de Recursos Humanos no ISLA e o MBA na Lusíada e ainda trabalhou na fábrica Faurecia, de São João da Madeira, e na Portucel, em Viana de Castelo, como mandavam as regras. Mas pelo caminho fez o que mais queria: meteu os papéis, estudou as leis, percorreu os escalões todos e tornou-se profissional do apito.

Hoje, Artur Soares Dias é um dos melhores árbitros portugueses, talvez mesmo o melhor, e já poucos veem o pai quando olham para o filho. Anteontem, Artur Soares Dias, que é pai de dois filhos, foi ameaçado de morte por elementos de uma claque, e a cena aconteceu no lugar oficial para os árbitros oficiais, na Maia. Os dois homens ter-lhe-ão dito para andar na linha e para se portar bem no próximo jogo; se não o fizesse, já sabia o que o esperava. Foi o momento mais estúpido e violento de uma semana que, pensando bem, não foi assim tão anormal, porque esta indústria já nos habituou à violência e à estupidez das palavras e dos atos.

A indústria chama-se futebol tuga e anda há anos embrulhada com uma palavra na sua psique: o árbitro. Consciente e/ou inconscientemente, todos os problemas dos nossos campeonatos começam, perduram e acabam na arbitragem. Ou seja, diz a teoria que a culpa é sempre do homem do apito, que é incompetente, permeável, corruptível ou apenas manipulável, dentro de um sistema montado por um determinado clube num determinado período de tempo. Tem de ser um poder finito, porque o controlo muda de mãos, a bem de uma estranha noção de democracia — toda a gente tem direito ao seu quinhão.

No entanto, e por mais rebuscado que isto soe, os teóricos da conspiração têm o seu quê de razão, sobretudo quando se deixam de conspirações e falam de incompetência. De alguma incompetência, que existe e foi evidente nos jogos Moreirense-FC Por to e Vitória de Setúbal-Sporting e que resultaram no afastamento dos dois clubes ‘grandes’ da Taça da Liga. Há um penálti não assinalado sobre André e ninguém entende a expulsão de Danilo, em Moreira de Cónegos; e há um penálti assinalado sobre Edinho que é discutível, em Setúbal. Luís Godinho e Rui Oliveira, os árbitros, tinham pouca ou nenhuma experiência em jogos disputados por FC Porto, Sporting ou Benfica, que são sempre diferentes dos outros, e isso terá feito a diferença. Porque toda a gente os vê e discute na televisão e nas redes sociais, mas também no café, no restaurante, no bar e no talho da esquina — o círculo em que os cidadãos normais se movem.

Apitar um ‘grande’ é uma enorme pressão, e Godinho e Oliveira não foram capazes de a suster, fizeram asneira e foram criticados e insultados dentro de campo; fora dele, as máquinas de comunicação de FC Porto e Sporting logo os responsabilizaram pelo afastamento de ambos da Taça da Liga. Luís Godinho e Rui Oliveira, para o FCP e o SCP, tinham-se tornado o último exemplo de como o Benfica controla a arbitragem. O que portistas e sportinguistas não fizeram foi assumir os erros táticos e técnicos de Nuno Espírito Santo e de Jorge Jesus, os falhanços no reforço dos plantéis e, fundamentalmente, o jogo vazio e frágil das suas equipas contra adversários mais fracos sob qualquer ponto de vista. Todo e qualquer ponto de vista.

Isto não é um defeito do Sporting ou do FC Porto, mas dos clubes portugueses. Aliás, isto faz parte do feitio português, que até tem expressões catitas para a desresponsabilização, como tirar o cavalinho da chuva ou sacudir a água do capote. É fácil culpar os árbitros porque são o elemento mais fraco da cadeia alimentar. É fácil culpar os árbitros porque há antecedentes, como o Calabote ou o ‘Apito Dourado’, que não trouxeram consequências sérias para ninguém e deixaram no ar a ideia de que tudo é possível e permitido no futebol português. E é fácil culpar os árbitros porque Portugal aceitou há muito que a corrupção, a chico-espertice e a intrujice fazem parte da nossa sociedade, fazendo delas uma banalidade — e, já que assim é, passa-se ao bode expiatório seguinte.

O difícil é ser racional e agir em conformidade com uma indústria que evoluiu dos caciques e da traulitada para estruturas formadas por gente especializada e profissional e que produziu a melhor seleção da Europa.

Partamos de dois princípios saudáveis: os árbitros profissionais não são corruptos porque são pagos para trabalhar; errar é humano, e por isso é impossível eliminar o erro mesmo com toda a parafernália tecnológica que por aí anda. É que o videoárbitro funcionará nos enganos mais estapafúrdios, mas aquele instante em que se mete a subjetividade da intenção e da intensidade será sempre insolúvel. Talvez — talvez — o problema esteja no próprio jogo.

Não façamos confusões: os árbitros também falham no râguebi, no basquetebol, no voleibol e no andebol, mas estes são desportos coletivos com elevadas pontuações: 23-19, 120-110, 21-18 ou 23-20. Ou seja, raramente um encontro destes se resolve num lance, porque houve muitos pontos marcados antes do último segundo. No futebol, não.

No futebol, há jogos — demasiados jogos até — que acabam a zero, porque é possível jogar desde o primeiro minuto para o empate, queimando tempo, simulando faltas, pondo o autocarro à frente da baliza. O tempo para atacar e defender é ilimitado e as substituições estão limitadas a três; e o golo é uma preciosidade e em certas ocasiões uma raridade. E assim se alimenta a frustração de quem perde, porque a génese do jogo aumenta a possibilidade de uma competição poder ser decidida num erro de cálculo — não nos podemos esquecer que um dos golos mais marcantes da história do futebol foi marcado com a mão, nos quartos de final de um Mundial e por um futebolista que se tornou um ícone pelo golo que marcou logo a seguir nesse mesmo jogo.

Isto é futebol.

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