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O que é que o Benfica tem?

Rui Cardoso, editor da secção Internacional do Expresso, escreve sobre o segredo do Benfica

Rui Cardoso

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Esta crónica começa como o velho samba de Carmen Miranda: “o que é que a baiana tem”? No caso do Benfica é mais o que é que o Benfica teve e, sobretudo, não teve. Não teve Jonas durante praticamente toda a primeira volta do campeonato. Nas primeiras jornadas deste e da Liga dos Campeões chegou a jogar sem nenhum avançado de raiz, fruto das lesões de Mitroglou, Jiménez e Jovic, obrigando a inventar uma linha dianteira com Gonçalo Guedes e o ainda mais novo José Gomes.

Mesmo neste regime de “hospital da Luz” a equipa resistiu ao embate. Começou por não se atrasar significativamente no campeonato (tirando o empate cedido em casa com o Setúbal à segunda jornada), recuperando a liderança à 5ª jornada, ao vencer o Braga. Daí em diante nunca mais a perdeu, empatando fora com o Porto e ganhando ao Sporting em casa. Conseguiu qualificar-se para os oitavos da “Champions” e manter-se nas restantes provas nacionais, ou seja na Taça da Liga e na Taça de Portugal.

Isto sem a dupla Jonas-Mitroglou que na época passada fora a chave do sucesso da equipa, com mais de metade dos golos marcados. E isso reflecte-se numa coisa curiosa: no campeonato nacional tendo de longe o Benfica o melhor ataque (e já agora, a segunda melhor defesa, o que está longe de ser despiciendo), ou seja 34 marcados e 8 sofridos, isso é conseguido à custa de uma grande dispersão de marcadores (Mitroglou, Pizzi, Gonçalo Guedes, Salvio, Cervi, etc, sem esquecer esse defesa goleador que é Lisandro López). Daqui resulta que, neste momento, o Bota de Ouro provisório seja Bas Dost, do Sporting, mas repare-se que o grau de dependência do holandês é grande: 11 golos em 27.

Como se explica que, mesmo privado de um jogador-chave, o Benfica tenha tido este desempenho? Nalguns casos com sorte, como no jogo com o Braga, onde a vitória por 3-1 é enganadora. Ou em Chaves, onde na mesma jogada os flavienses mandaram duas bolas à madeira. Noutros, com tremendo espírito de sacrifício, como no Dragão (onde o empate foi arrancado a ferros depois de um jogo dominado pelo adversário) ou entre os minutos 60 e 80 do jogo com o Sporting. Noutros, ainda, com brilhantismo e nota artística, caso do Beleneses-Benfica ou do Benfica-Paços de Ferreira. E, no único caso de que me lembro, jogando sofrivelmente e vencendo pela margem mínima, como em casa do Estoril. Pior só no jogo com o Marítimo, verdadeira ilustração da Lei de Murphy: tudo o que podia ter corrido mal correu ainda pior…

A isto chama-se consistência. Era aquilo que Niki Lauda fazia na Fórmula 1, rodando voltas sucessivas exactamente na mesma décima de segundo, a que sabia ser necessária e suficiente para vencer mas sem degradar a mecânica nem correr riscos insensatos. É o resultado de uma táctica e de um sistema de jogo (mérito de Rui Vitória). Mas também de alguns interpretes geniais: Ederson com um punhado de defesas do outro mundo; Lindelöf, o verdadeiro homem de gelo que nunca treme na defesa; Fejsa, frequentemente comparado a um polvo, tal a quantidade de terreno que consegue ocupar; Pizzi que às vezes me irrita por ser macio nos choques mas que compensa com lances de génio; Jiménez que nem sempre acerta mas marca golos decisivos. Sem esquecer a capacidade atacante dos dois laterais (Grimaldo e Semedo), o incrível poder de explosão de Guedes e de Rafa (que se acertassem mais vezes na baliza seriam jogadores de outro planeta), as fintas de Salvio ou a alma de Luisão.

Foi isto que o Benfica teve. E agora passou a ter Jonas e, mais que isso, a dupla Jonas-Mitroglou. Com estes dois em campo o futebol deixa de ser uma espécie de ciência oculta para se tornar na coisa mais simples e bonita do mundo: meter golos. Em tempos idos, boa parte da hegemonia do Porto resultava da jogada mais simples que há: Drulovic ia à linha, centrava alto para a área e Jardel, que parecia estar escondido no meio dos centrais, voava por cima destes e marcava. Era simples, bonito e eficaz. Tanto que até dá vontade de fazer de conta que o guarda Abel nunca existiu, que nunca houve “fruta” para os árbitros nem jagunços a invadir a delegação do Expresso na cidade do Porto. Ou que Olegário Benquerença nunca fez uma leitura criativa da geometria euclidiana no famoso golo invalidado a Petit.

Cardozo marcava e muito. Mas era quase sempre em força e às vezes no limite do sacrifício físico. Jonas é um felino que se move com leveza na área adversária, parece adivinhar onde vai cair a bola antes de esta ser chutada, desmarca os outros e, no momento da verdade, raramente perdoa.

O Benfica foi campeão de Natal, vai ser campeão de inverno e tem tudo para chegar a um inédito tetra. Os dirigentes e adeptos dos clubes rivais que nos últimos dias se desdobraram numa campanha frenética contra os árbitros, sem prejuízo de poderem ter razão na interpretação de um ou outro lance deveriam meditar no seguinte: cinco minutos antes do tão falado penalti, o Sporting tem em Setúbal dois lances de golo cantado e não foi por causa do árbitro que não os marcou; o FCP tem pleníssimo direito de questionar pelo menos uma das expulsões em Moreira de Cónegos mas no campeonato empatou quatro vezes a zero e no conjunto das provas desta época fê-lo por nove vezes.

O que é que o Benfica tem? Joga à bola…