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#Sporting. Para Bruno de Carvalho as verdades de hoje são as mentiras de amanhã

No futebol, a verdade depende sempre da cor com que é olhada. E isso explica muito da esquizofrenia com que a arbitragem é tratada

Nelson Marques

CRÍTICAS. A época do Sporting tem dado a Bruno de Carvalho poucas razões para sorrir. Quando os fracassos se sucederam, as atenções viraram-se para os árbitros

SUSANA VERA/REUTERS

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“Se apenas houvesse uma verdade, não poderiam pintar-se cem telas sobre um mesmo tema”

Pablo Picasso

A história seria quase anedótica se não fosse lamentável. Em outubro, o jornalista Rui Miguel Tovar lançou em Alvalade o “Almanaque do Leão”, que o Sporting lhe tinha encomendado. Bruno de Carvalho apresentou a obra, louvando “a paixão e o carinho” com que foi escrita e vaticinando que esta iria “cada vez engrossar mais, sem grandes necessidades de correções”. Mas o que parecia uma certeza foi afinal fogo fátuo. Respondendo a uma questão de um colega jornalista, Tovar assegurou que o Sporting tinha mesmo 18 títulos de campeão nacional e não os 22 que o presidente do clube vinha reclamando. Ao que parece, ninguém em Alvalade se dera ao trabalho de ler o livro. O que fazer então? Simples: Bruno de Carvalho, tão empenhado em reescrever a história dos “leões”, ordenou que a obra fosse emendada para incluir os 4 títulos. O jornalista recusou-se a alinhar nesta farsa e a notícia do lançamento foi até apagada do site do Sporting. Semanas depois, a Federação Portuguesa de Futebol arrumou a questão, incluindo as quatro conquistas do antigo Campeonato de Portugal (uma prova jogada a eliminatórias) no palmarés da Taça de Portugal.

Este episódio diz muito sobre Bruno de Carvalho. Para o presidente do Sporting só uma verdade interessa: a dele. Mesmo que ela seja uma grande mentira. Quando, na semana passada, o líder leonino anunciou que era a última vez que o Sporting iria ter “uma intervenção calma e ponderada” sobre a arbitragem, só um tolo poderia acreditar – há um mês que em Alvalade não se fala de outra coisa, sobretudo depois da derrota na Luz e, mais recentemente, do desaire em Setúbal, para a Taça da Liga.

As críticas do Sporting têm poupado apenas o presidente do Conselho de Arbitragem (CA), José Fontelas Gomes, que segundo os “leões” herdou uma tarefa “minada” pelo seu antecessor, Vítor Pereira. Fontelas Gomes é também o pai de um jovem que, no início da época, reforçou a equipa de sub-16 do Sporting. O rapaz não tem obviamente culpa de o pai ser o responsável da arbitragem em Portugal, nem este tem culpa de o filho ter jeito para a bola, mas o episódio faz lembrar um velho ditado: “À mulher de César...” O que se diria em Alvalade se, durante a presidência de Vítor Pereira, fosse um filho deste a reforçar o Benfica. Alguém acredita numa “intervenção calma e ponderada”?

Foi Pimenta Machado, antigo presidente do Vitória de Guimarães, quem celebrizou uma expressão que entrou na cartilha dos responsáveis leoninos: no futebol “o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira”. Jorge Sousa, que era o preferido de Bruno de Carvalho para apitar o jogo com o Benfica, é apontado agora como o responsável pela crise leonina. E alguém ainda se lembra da defesa que o Sporting fazia dos árbitros e dos seus responsáveis no início da época? Em setembro, era assim que Nuno Saraiva, o diretor de comunicação do clube, respondia ao que dizia serem pressões do Benfica e do FC Porto sobre os homens do apito. “Fica o aviso sério de que estamos atentos e não deixaremos vingar este modo de criar ruído para esconder debilidades e de fazer pressão sobre a arbitragem, seja na entidade que a tutela ou na sua associação ou diretamente nos árbitros que a exercem”. Quatro meses, e alguns desaires no terreno de jogo, bastaram para pôr fim a esta lua de mel.

Às vezes não são precisas mais do que algumas horas para pôr a nu a esquizofrenia leonina. Esta semana, no final da reunião que o CA promoveu com os clubes, Bruno Mascarenhas, representante do Sporting, louvou o “espírito” do órgão federativo e lembrou que este tem contado com o apoio do Sporting para pacificar e credibilizar a arbitragem. Alguém acreditou? Se dúvidas houvesse, ficaram desfeitas na manhã seguinte, quando Octávio Machado, diretor do clube para o futebol, manifestou “repúdio” pela análise que o CA fez nessa reunião, entre outros casos, dos dois lances onde os “leões” reclamaram penáltis na Luz por alegada mão na bola de jogadores do Benfica. Na primeira jogada, protagonizada por Pizzi, os responsáveis da arbitragem defenderam que esta resultou de uma "ação involuntária e acidental, pelo que a mesma não constitui infração". Já no caso que envolve Nélson Semedo consideraram tratar-se “de lance difícil e de dúvida”.

O problema do discurso de Bruno de Carvalho e do Sporting é que no futebol não há uma só verdade: esta depende sempre da cor com que é olhada. Um mesmo lance pode ser julgado como involuntário por um especialista e como intencional por outro. E isso não há videoárbitro que resolva.

PS: Já depois desta crónica estar escrita, o Sporting anunciou que não iria falar aos “media” durante uma semana “para além do que está regulamentarmente estipulado”, aquilo a que no futebol se chama ”blackout”. Menos de uma hora depois do primeiro comunicado, o clube enviou outro às redações, onde esclarece que a decisão não se trata de... um “blackout”. Na nova máxima de Bruno de Carvalho, o que é verdade hoje é mentira minutos depois.