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Crise no Sporting: #aculpaédetodos

Pedro Candeias

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É preciso comparar: o Sporting está no quarto lugar, tem 35 pontos e está a dez do líder, e soma 10 vitórias, cinco empates, três derrotas, 31 golos marcados e 18 sofridos; há um ano e com os mesmos jogos disputados, o Sporting estava em primeiro, tinha 44 pontos e quatro de avanço sobre o segundo classificado, e somava 14 vitórias, dois empates, uma derrota, 36 golos marcados e 16 sofridos.

Objetivamente, o Sporting deste ano é pior do que o Sporting do ano passado, e, obviamente, este Sporting está mergulhado numa crise que é grande porque grandes foram também as expectativas criadas no início da época. Não nos podemos esquecer que o contrato de Jorge Jesus foi renegociado, melhorado e estendido no tempo e que os reforços Campbell, Markovic, Bas Dost, Alan Ruiz ou Elias — Castaignos e André estão num plano inferior — chegaram para reforçar as ambições leoninas.

Seis meses depois, a verdade é que o Sporting está fora da Taça da Liga, da Taça de Portugal e das competições europeias quando tinha equipa e treinador para muito mais do que isto. E isto, que é pouco, poderá tornar-se nada se o clube não conseguir dar a volta a dois contextos: o primeiro, reduzir a distância para o Benfica e tentar um assalto improvável, mas possível; o segundo, começar a jogar à bola. Porque uma equipa que joga mais vezes melhor ganhará mais vezes, sobretudo num campeonato nivelado por baixo em que os três grandes, por decreto, lutam entre si e contra eles próprios pelos títulos.

O jogo do Sporting é sofrível, previsível e depende de dois jogadores, Bas Dost e Gelson, coisa que nunca se pensou dizer de uma equipa de Jorge Jesus. É por isso fácil e até natural culpar o treinador por não espremer os futebolistas disponíveis que foram escolhidos por ele — é um facto que quase todos os reforços estavam referenciados por ele no tempo do Benfica.

E é por isso, num segundo nível, fácil e natural culpar futebolistas que já não dão o proverbial “litro no campo”, que só pensam em sair do Sporting, e que, segundo o presidente da Fundação Sporting na SportingTV, “ainda têm disposição e energia para sair à noite” após os jogos.

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

Sendo a SportingTV do Sporting e sendo o Sporting presidido por Bruno de Carvalho, é normal que a comunicação do clube proteja o seu líder; se alguém tiver de cair, que sejam os atletas ou o treinador. É neste quadro que surgem as 111 medidas, as reuniões com Jesus para acertar agulhas e esvaziar-lhe o poder, e a lista de dispensas — só que muitas das medidas vinham do mandato anterior, Jesus gosta de reunir-se com os presidentes (se possível, fá-lo-ia diariamente), e os excedentários começaram a ser alinhavados logo que o Sporting saiu da UEFA.

Estamos em período pré-eleitoral, os resultados são péssimos, Pedro Madeira Rodrigues engrossa a voz e há no ar a ameaça de um terceiro candidato mais poderoso – o melhor é jogar pelo seguro.

Por outro lado, e em defesa dos que atacam William Carvalho, é um facto que as exibições do médio andam frouxas, mas também é factual que William pediu para sair de Alvalade em dois verões consecutivos; Adrien pediu neste. BdC foi intransigente e ficou com duas batatas que, inevitavelmente, queimar-lhe-iam as mãos se a coisa corresse mal. Foi por isso que o Benfica, por exemplo, vendeu David Luiz no último dia do mercado de inverno de 2011.

Há três formas de resolver estes problemas: uma delas é serenar e prometer uma transferência, talvez com um aumentozinho salarial; a segunda, não esperar e vender; a terceira é cair no disparate.

Foi o que Bruno de Carvalho fez em Chaves quando desceu aos balneários, não bateu à porta, e entrou no bate-boca com os futebolistas. À TSF, BdC disse que vê os atletas como filhos e que os filhos precisam de ser chamados à pedra, mas esquece-se o presidente que William, Adrien ou Bas Dost têm pais e do que eles realmente precisam é de um líder que lidere pelo exemplo. Um jogador frustrado e contrariado contagia outro jogador frustrado e contrariado e quando ambos são capitães o efeito pode ser epidémico; achincalhá-los só piora.

Versão atualizada do texto publicado na edição de 21 de janeiro de 2017 do Expresso