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Open de Austrália. E o vencedor é... a felicidade (Federer)

Ana Bispo Ramires

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Roger Federer acabou, na semana transacta, de concretizar 2 "feitos": ser vencedor do Open de Austrália e ser o 2º tenista mais veterano a alcançar este tipo de resultados, aos 35 anos de idade.

Quando questionado, apontou, como um dos fatores desencadeadores do seu sucesso, a "felicidade" ou, por outras palavras, disfrutar da sua atividade enquanto tenista em pleno.

A utilização de termos latos e abstratos como a palavra "felicidade" (que se traduz, iminentemente, numa experiência subjetiva), associados a uma performance de excelência é algo que, desde sempre, levanta alguma preocupação.

De facto, sempre que um atleta "a" associa ao seu desempenho de excelência, abre, sem querer, uma "via verde" a toda e qualquer "teoria da nova era" e/ou ao "nascimento" de mais uma série de "motivadores" (uma vez mais, e tal como referi num artigo passado, não me refiro a profissionais que se dedicam a um exercício ético e responsável da sua atividade mas, a todos os outros que aproveitam este tipo de "modas", sem qualquer especialização científica), que desencadeiam mais uma vaga de "propaganda" nesta matéria.

Na realidade, ainda que se tratando de uma experiência subjetiva e idiossincrática, a felicidade é, há algumas décadas, alvo de investigação (e intervenção) rigorosa na área da Psicologia, seja em contexto desportivo, empresarial ou de bem-estar.

Em contexto desportivo, encontra-se fortemente documentada como uma forma de suprir a preocupação e os sentimentos negativos, aumentando os níveis de ativação fisiológica dos atletas tornando-os, por esta razão, mais aptos a lidar com os desafios da competição.

Fisiologicamente, é como se existisse uma tal harmonia e fluidez no movimento, que se potenciam de igual forma, a execução técnica, tática e a própria coordenação motora, entre outro tipo de funcionalidades.

E qual o segredo para a alcançar?

GREG WOOD

De certo que, em primeira instância, será estarmos dispostos a investir nesta dimensão, aumentando o conhecimento que possuímos acerca do nosso funcionamento (ou disfuncionamento!), em profundidade.

Assumindo que este construto deriva de uma conjugação entre fatores situacionais e pessoais, podendo desmultipicar-se num infinito conjunto de possibilidades que resultam de poder tratar-se de um traço mais estável da nossa personalidade ou de um estado vivenciado momentaneamente... bom, há efetivamente que investir uma generosa quantidade de horas (que se vão traduzir em meses e anos) neste processo de auto-descoberta.

E é isto que os atletas de exceção fazem, muito frequentemente, assessorados por especialistas na área da Psicologia da Performance, no sentido de acelerar todo este processo de auto-conhecimento. Tradicionalmente, no ténis, os jogadores de top mundial integram este tipo de especialistas na sua equipa técnica ou, recebem este mesmo tipo de influencia/conhecimento, através de treinadores que tenham, eles próprios, efetuado este tipo de aprofundamento.

Será, por certo, isto que, voluntariamente ou não, sistematizadamente ou não, Roger Federer tem feito ao longo dos últimos anos.

O conhecimento aprofundado que este atleta revela acerca de si próprio só pode ser alcançado com maturidade... a maturidade que se espera de um atleta de 35 anos e/ou a maturidade de alguém que tomou este desafio para si próprio e buscou a melhor forma de otimizar a sua relação com o desporto que pratica - no caso deste atleta, acredito serem as duas.

De notar que estamos a falar de um trabalho de aprofundamento "gigante" que nem todos os atletas da mesma geração revelam (por exemplo, 15 anos de experiência, podem traduzir-se em 15 anos de aprendizagem ou um ano de aprendizagem e 14 de repetição!), que implica associar afeto positivo a todas as componentes associadas à performance no ténis... o que, como se pode imaginar, e iniciando-se por toda e qualquer tarefa associada ao treino desportivo, é um enorme desafio.

A Felicidade, na realidade, podendo estar (ou não) alavancada em traços de personalidade, é algo que, efetivamente, SE CONSTRÓI e que, já agora, necessita da nossa ATENÇÃO especificamente DIRECIONADA para SE MANTER.

Este é um processo de aprendizagem (entenda-se, de treino) que pode e deve ser otimizado ao longo de toda a nossa Vida e que, só pode ser realmente conduzido se nos decidirmos, como estes atletas decidem, FOCAR nos ASPETOS que CONTROLAMOS.

Once you find that peace, that place of peace and quiet, harmony and confidence, that's when you start playing your best. (Roger Federer)

Este local, a que Federer se refere, é onde nascem as melhores performances e se vivencia, aquilo que é, comunmente, chamado "estado de flow" - por outras palavras, o "local interno" onde se "fabrica" uma PERFORMANCE de EXCELÊNCIA.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).

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