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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Uma cirurgia facial, escoriações, costelas partidas, maxilares deslocados e múltiplos traumatismos. Mas quem está a contar?

Duarte Gomes alerta para o número de agressões feitas a árbitros em Portugal, alguns deles menores

Duarte Gomes

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Este é um universo desconhecido para a grande maioria dos caros leitores. Não porque não tenha importância (tem e muita), mas porque acontece, quase sempre, no futebol distrital, nos campeonatos regionais.

E sim. Nos nossos campeonatos distritais e regionais. De futebol e futsal.

Vamos a números?

Esta época – reparem, só esta época – já foram agredidos trinta e dois árbitros em doze distritos. Trinta e dois! Desses, oito eram menores. Eram meninos de treze ou catorze anos que, tal como os jovens jogadores que dirigem, estavam apenas a dar os primeiros passos na carreira.

Cinco dessas agressões foram cometidas por pais de miúdos que estavam a jogar.

As consequências factuais são evidentes: carros danificados, assistência médica nas urgências, internamento hospitalar e, num dos casos, cirurgia facial. Outras lesões? Escoriações, costelas partidas, maxilares deslocados e múltiplos traumatismos. Mas quem está a contar?

A pior das mazelas é invisível. Não se mede por agrafos nem por pensos ou ligaduras. A pior é o dano psicológico e emocional. Aquela que atira alguns desses jovens para o medo e para a vergonha. Para o pesadelo e para a desistência.

Tenho trazido este assunto a público vezes sem conta. Irei trazê-lo tantas vezes quanto necessário. Sabem porquê? Porque ele insiste em repetir-se, jogo após jogo, semana após semana.

Ironia à parte, a verdade é que o país que é o atual campeão europeu de futebol não pode permitir que atrocidades destas ainda aconteçam.

A verdade é que a culpa não é dos energúmenos que não controlam a sua frustração ou das aberrações mascaradas de humanos que atiram o primeiro soco, o primeiro empurrão ou o primeiro pontapé.

A culpa é de quem pode mudar tudo e não muda nada.
A culpa é de quem não assume o seu papel, criando mecanismos efetivos que travem este filme de terror, de uma vez por todas.
A culpa de verdade é de quem incendeia, de quem regulamenta e de quem tutela.

Posso deixar algumas dicas?

  1. Invistam mais na prevenção, nas ações de sensibilização, nas campanhas contra a violência no desporto;
  2. Criem regulamentação disciplinar que penalize, de forma exemplar, esses comportamentos. Quem bate, quem magoa, quem atira com um árbitro (ou jogador ou treinador) para a cama de um hospital não tem lugar no desporto;
  3. Levem os criminosos à justiça. Responsabilizem criminalmente o cidadão que agride outro cidadão e punam-o exemplarmente.
  4. Obriguem à presença de policiamento em todos os jogos, de todos os escalões. Não pode haver gestão de custos em algo tão importante como a segurança física dos agentes que tornam o jogo possível. Um polícia é muitas vezes suficiente para diluir a intenção de um potencial agressor;

E façam-nos um favor. Não se demitam das vossas obrigações.

Quando há pessoas que são seriamente ameaçadas ou que vão parar aos hospitais com lesões causadas por agressões, vir a público apelar ao Fair Play não é curto: é ridículo!

O futebol não começa no seu produto mais visível, no seu produto final.

O futebol a sério nasce todos os fins de semana, nos milhares de jogos que se disputam nos campeonatos distritais, dos benjamins aos seniores.

Esse é o futebol que tem que ser defendido, protegido e respeitado. E não está a ser.

Acordem antes que seja tarde!

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