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Maria João Xavier

Maria João Xavier

Ex-jogadora e ex-diretora de futebol

O primeiro de muitos grandes jogos de futebol feminino em Alvalade (e em Portugal)

Sábado, às 14h45 (transmissão TVI24 e Sporting TV), Alvalade recebe pela primeira vez um jogo de futebol feminino. Maria João Xavier, ex-internacional portuguesa, explica por que razão é que o Sporting-Sporting de Braga, duelo entre os dois líderes da Liga feminina Allianz, é um dos jogos mais importantes dos últimos anos

Maria João Xavier

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No próximo sábado far-se-á história, ou pelo menos assim se apregoa, com a realização da 18ª jornada da Liga Futebol Feminino Allianz entre o Sporting Clube de Portugal e o Sporting Clube Braga, os dois líderes da prova, com os 47 pontos em 17 jogos (classificação completa AQUI).

No entanto, este Sporting Clube de Portugal-Sporting Clube Braga não será o primeiro jogo disputado entre dois clubes com equipas da Liga NOS na versão feminina (aliás, este será o segundo da época e, curiosamente, o primeiro não causou o mesmo impacto que este está a gerar). Nos longínquos anos 90, realizaram-se os primeiros confrontos entre equipas representadas no Campeonato Nacional da 1ª Divisão, que deu lugar à atual Liga NOS. Talvez quem viveu nessa época se lembre dos jogos entre Sporting Clube de Portugal e Boavista Futebol Clube. Ainda foram uns quantos, sempre rasgadinhos, como é comum dizer-se no mundo do futebol.

É natural que o destaque da altura não tenha sido o mesmo. É verdade, também, que nenhum desses confrontos teve a atenção mediática que este jogo está a provocar. É, ainda, verdade que nem sequer passava na ideia, à data, a transmissão televisiva destes jogos (mal tinha arrancado a televisão privada em Portugal). Não havia redes sociais, a internet estava a dar os primeiros passos rumo à globalização que agora se assiste, os telemóveis começavam a ganhar espaço na sociedade portuguesa. É verdade, passaram-se mais de 25 anos sobre esses primeiros jogos.

Também é verdade que nenhum desses duelos foi disputado nos estádios de honra dos respetivos clubes. Relembrando esses anos, muitos disputaram-se em campos pelados, marcados com serradura ou, pior ainda, com cal. Se chovia, o cenário era assustador, as marcações do campo tendiam a desvanecer, em caso de queda, as queimaduras demoravam a sarar… Outros tempos que felizmente ficaram no passado, mas que foram o motor de arranque para a realidade a que agora assistimos.

Tive o enorme privilégio de jogar na primeira versão da equipa feminina do Sporting Clube de Portugal, que foi retomada esta época, depois de 21 anos de interregno. Eu, como todas as minhas companheiras da altura, vivemos esses momentos e recordá-los é recuar aos primórdios do futebol feminino nacional, quando este começou a ter algum espaço e a ouvir-se falar, ainda com desconfiança.

A seleção nacional feminina não existia no inico dos anos 90 (depois de um breve período competitivo nos anos 80) e as condições que eram colocadas à disposição das atletas relativamente aos restantes clubes (a quem tiro o chapéu por nunca terem desistido) eram abissais. Uma das grandes diferenças eram os jogos como visitado serem disputados em relva natural, no campo nº 2 (onde agora assenta o novo estádio de Alvalade). Outra era a maior facilidade de acesso a cuidados médicos em caso de lesão - as odisseias que se passavam em caso de lesão nos anos 90 eram indiscritíveis... É verdade que os treinos eram no campo pelado, mesmo em frente à famosa porta 10A, com luz artificial praticamente inexistente e onde mal se via de uma ponta do campo à outra.

Se há algo que não sou é saudosista. O caminho para se chegar aos dias de hoje foi longo, provavelmente demorou anos a mais do que era desejável, mas está a ser feito. Por isso, fico muito satisfeita quando vejo todas as movimentações à volta do futebol feminino, seja a nível de clube (se bem que o destaque se centre apenas nos dois que se vão defrontar no psábado), seja a nível das várias seleções femininas.

Não fui das pessoas que defenderam que os clubes visados tivessem acesso direto à Liga Allianz por via de convite da Federação Portuguesa de Futebol. Acredito que a verdade desportiva foi subvertida e o próximo campeão nacional teve o caminho muito facilitado em detrimento de todos os outros clubes que sempre cá andaram. No entanto, sou favorável ao aparecimento destas equipas (e de outras que apareçam) e a toda a máquina que com elas vem associada. Tenho para mim que é preciso clubes com poder de negociação juntos das instituições que gerem o futebol nacional, para que exigências possam ser feitas com o objetivo do crescimento do futebol feminino. É verdade que na edição atual da Liga Allianz apenas dois clubes têm tempo de antena, o que é pena, dado que este balanço podia ser aproveitado para projetar todos os outros clubes, mas do que tenho tido oportunidade de ir lendo, destes fala-se quando defrontam um dos outros dois. É pouco, muito pouco. Bem sei, regras editoriais e público-alvo assim o exigem.

Regressando ao tema - já chega de desvios -, com a realização do jogo (diz-se que será do título e discordo. Mas isso sou eu…), entre o Sporting Clube de Portugal e o Sporting Clube Braga, em Alvalade. Não será um estádio cheio, pois ainda não estamos nesse nível (ainda mais com a equipa sénior masculina do Sporting a jogar no Estoril, às 18h15), mas quero acreditar que a moldura humana poderá ser uma boa surpresa. A transmissão está assegurada (ainda que limitada a subscritores de canais por cabo), a festa está prometida…

É verdade, não será o primeiro jogo disputado entre dois clubes com equipas da Liga NOS na versão feminina mas será, sem qualquer dúvida, aquele que mais mediatismo terá, desejando-se que seja o primeiro de muitos.

Boa sorte a ambas as equipas!

Que role a bola!