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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Duarte Gomes explica o “outro jogo” do futebol: vale tudo contra os árbitros

Duarte Gomes

Alexander Hassenstein

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Acompanhem-me neste raciocínio. Asseguro-vos que é o mais o racional, distante e pragmático possível.

O futebol é apenas e só um jogo. Um jogo que os ingleses um dia inventaram com o objetivo de se divertirem e de entreter as pessoas. Certo?

Um jogo que, com o passar dos tempos, evoluiu. Adaptou-se. Modernizou-se. E porque cresceu, industrializou-se.

Por força disso, hoje é um dos mais excitantes espetáculos a que se pode assistir: tem competições regulares, talento, competitividade e muita emoção. Isso chega e sobra para fidelizar bilhões de adeptos em todo o mundo.

O jogo em si é disputado por duas equipas e arbitrado por uma terceira. No relvado. No terreno de jogo.

É depois orientado, de fora, por um conjunto de técnicos competentes.

Cada clube é dirigido pelos dirigentes que são eleitos pelos sócios. E a estrutura, a sua organização, é liderada por uma equipa de pessoas qualificadas, também elas eleitas e que são responsáveis por tudo o que se relaciona com as competições.

Depois há a imprensa, que é a voz de tudo o que acontece. E que transmite - através dos seus múltiplos canais - as emoções reais do antes, do durante e do pós-jogo.

Está por isso claro que cada um tem o seu papel bem definido à partida: os jogadores jogam, os árbitros arbitram, os treinadores treinam, os dirigentes dirigem, a imprensa informa e os adeptos deliciam-se.

Em tese, penso que estamos todos de acordo.

No entanto e como todos sabemos, o que se passa na realidade é diferente. Bem diferente.

Hoje não se joga um mas sim dois jogos em simultâneo.

O original, de que vos falava. O tal que se disputa no relvado.

E o outro, que se joga em várias frentes, longe, bem longe das quatro linhas.

No primeiro, treinadores, jogadores e árbitros fazem o que mais gostam, o melhor que sabem e podem. Uns acertam mais outros menos, uns têm mais talento outros menos, uns são mais competentes outros menos. Certo, certo é que no fim das contas, entre mérito e demérito, sorte e azar, benefício e prejuízo... o mais regular, o mais forte, o melhor, ganha. Ganha sempre.

Agora falemos do "outro jogo".

O outro jogo foi inventado quando o futebol começou a ser bem mais do que um mero desporto.

Aí não há estádios. Não há penáltis, não há golos nem há classificações. Há arenas. Há combate puro e duro. Há mentira, há má educação e há leviandade.

É um jogo pequenino, jogado por estrategas, por derrotados. É feio e mau. Muito mau.

Neste jogo, vale quase tudo: usar a imprensa para confundir as pessoas, manobrar a opinião pública, levantar suspeitas, inventar calúnias.

Com isso, alimentam-se ódios e instiga-se, ainda que indiretamente, à violência.

O resultado final é perfeito: cidadãos são atacados e famílias são ameaçadas, incomodadas e ofendidas.

Partem-se vidros, rasgam-se pneus, vandalizam-se paredes, amedrontam-se idosos.

Cometem-se crimes.

Objetivo: pressionar de tal forma os árbitros para que eles cedam no momento próprio. Não conscientemente, mas no subconsciente. Porque a raiva e o medo toldam a lucidez e afetam o discernimento.

A resposta a todo este cenário dantesco tem sido discreta e curta. Demasiado discreta e demasiado curta.

Sabemos que os homens que são árbitros não estão sós e que a sua estrutura está com eles, mas fica a sensação que estão desprotegidos. Porque se não estivessem isto não acontecia.

Foi criada uma linha telefónica de emergência, sim, mas essa é apenas uma solução à posteriori. Para casos pontuais.

Mas e medidas de fundo?

Medidas preventivas, estruturais, que evitem que tudo isto aconteça, de uma vez por todas?

Será que não está na altura de dar um murro na mesa e dizer, de uma vez por todas: "Chega!"?

Será que não chegou o momento de todas as partes com responsabilidade no futebol - todas sem exceção - sentarem-se à mesa e discutirem este problema com a seriedade que ele merece?

Será que é preciso que um árbitro seja agredido ou esfaqueado por um tresloucado qualquer, para que finalmente se páre tudo?

Já vi e vivi muitos momentos difíceis no futebol.

Sei que as coisas aquecem quando a incerteza pontual aumenta. Sei que manobras de distração e pressão são consideras aceitáveis num contexto meramente desportivo.

Mas quando a situação derrapa, de forma reiterada e tão clara, para a vida pessoal e privada de agentes diretos do jogo, afetando o seu bem estar e das suas famílias... algo está mal. Muito mal.

O futebol português tem que se demarcar desta imagem de criminalidade gratuita.

Tem agora a sua oportunidade.

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