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Medalhite viral? Sempre tudo na mesma...

Ana Bispo Ramires

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No passado fim de semana, Nelson Évora e Patrícia Mamona fizeram, através das medalhas alcançadas no Campeonato da Europa de Atletismo (pista coberta), "explodir" o que podíamos chamar de "Orgulho Português" e, uma vez mais, as redes sociais, os jornais e os media de uma forma genérica, foram inundados com uma série de apontamentos associados a estes atletas.

A comitiva, contudo, integrava quase mais uma dezena de atletas, de quem praticamente não se ouviu falar.

De facto, o movimento global de nos congratularmos quando os nossos atletas vêem o seu esforço reconhecido quando alcançam um dado resultado, não é nenhum fenómeno novo... De igual forma, atletas e treinadores vivenciam longos períodos de indiferença (na melhor das hipóteses) ou até algum criticismo que se mantém, independentemente do esforço e dedicação que, de forma sistemática e com uma determinação tremenda, investem a otimizar o seu processo de treino e, muitas vezes, longos e demorados processos de recuperação de lesão, quando não se observam os "ditos resultados".

Esta é, na realidade, a nossa cultura: uma cultura de resultado.

Por esta razão, e muitas vezes em fases muito precoces, a preocupação de clubes, treinadores ou encarregados de educação, centra-se no "resultado" (número de golos, vitórias, etc.) que se alcança desde tenra idade (em boa verdade, nada diferente dos "famosos" quadros de honra, em contexto académico), ao invés de se focar o processo desportivo na aprendizagem e no desenvolvimento de prazer pelo processo de treino e otimização como um fim... e não como um meio para atingir um resultado, mais ou menos imediato.

Ganhamos, com isso, atletas que obtém vitórias em fases muito precoces... mas que muito rapidamente desinvestem, desmotivam-se e desmobilizam da modalidade em questão.

Perdemos Atletas. Perdemos Talento.

Aliás, muitos são os estudos que nos referem a gigantesca percentagem de jovens que se perdem no decorrer do processo formativo.

Este tema foi abordado, por exemplo, no artigo da BBC (AQUI) - sobre o talento que se perde e os atletas que, não tendo tido visibilidade em fases precoces, acabam por confirmar o seu talento mais tarde.

Este efeito acontece, muito frequentemente, fruto de uma marcada motivação intrínseca, acrescida de capacidade de transformar erro em aprendizagem e de resistência à frustração... face ao erro, à dor, à fadiga, à lesão e à continua falta de suporte social, quando o "resultado", teima em não aparecer.

Atletas com "A" (maiúsculo), são pessoas que, com uma admirável determinação e foco, colocam a sua otimização em primeiro plano... à frente de tudo e de todos... muitas vezes, à frente da sua própria vida pessoal e familiar.

São especificamente direcionados para processos de superação, procurando tornar cada vez mais eficiente, cada gesto, cada ação... com o intuito de se aproximar, ao máximo, da ação técnica "perfeita"... trabalham horas infindáveis e, como se refere na gíria, assumem a "personagem do Atleta, até debaixo de água" ou, por outras palavras, para além do processo desportivo são muito focados em todos os outros aspetos que potenciam a sua performance (descanso e alimentação, por exemplo).

São, na realidade, a expressão máxima da fórmula de sucesso: Talento e Trabalho.

Questiono-me, muitas vezes, quantos de nós somos capazes de, com a mesma seriedade e dedicação, desempenhar os nossos papéis profissionais?

Questiono-me frequentemente, qual seria a "performance" do nosso país, no que respeita aos indicadores económicos associados à nossa performance profissional, se conseguíssemos espelhar, mais aproximadamente, o mesmo tipo de foco e vontade de superação?

Questiono-me, enfim... quando é que transformaremos no nosso "Same, Same...", num "Same, same... but different!", aprendendo a considerar o esforço, entrega e dedicação como o único "resultado" a valorizar... o qual, sustentado incondicionalmente pelo apoio de todos, nos empurrará a VALORIZAR o PROCESSO e a ACREDITAR que, indubitavelmente, este será o único que nos levará, de forma consolidada, a patamares de performance superior.

Precisamos MUDAR para uma "CULTURA DE PROCESSO" (aprendizagem)... Precisamos de MODELOS... PRECISAMOS "MEDALHAR", não apenas e quem "alcança" mas, muito em particular, QUEM SE ESFORÇA E NÃO DESISTE DE SE RE-INVENTAR, mesmo permanecendo no ANONIMATO.

Até que sejamos, globalmente (indivíduos, organizações, media e afins) capazes de o fazer, talvez o melhor conselho para os atletas, seja mesmo o que Nelson Évora referiu na entrevista que deu logo a seguir à sua performance, no que respeita ao criticismo a que muitas vezes são sujeitos:

"Temos que ser um pouco surdos e fazer aquilo que achamos que está realmente certo e aquilo em que acreditamos".

Este é, na realidade, um conselho para a Vida.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).

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