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Expectativas? É melhor não ter!

Ana Bispo Ramires

O Deportivo da Corunha derrotou o Barcelona por 2-1

Octavio Passos/Getty

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No passado fim de semana, e poucos dias após um gigantesca reviravolta num jogo de Liga dos Campeões (contra o Paris Saint-Germain), o Barcelona foi derrotado no terreno do Deportivo (2-1), deixando-se surpreender por uma equipa que luta pela manutenção - com este resultado, sofreu a primeira derrota no campeonato, desde outubro do ano passado, após ter garantido 19 vitórias ininterruptas.

Em simultâneo, mas agora na prova da Maratona de Barcelona, Jonah Kipkemoi, atleta paraolímpico queniano contratado para fazer de "lebre" até ao quilómetro 35 (ou seja, para acelerar o ritmo da mesma, garantindo um bom andamento), acabou por cortar a meta em primeiro lugar, naquela que foi a sua estreia em maratonas.

A inesperada vitória ocorreu depois deste atleta constatar, a sete quilómetros da meta, e para surpresa do próprio (como teve oportunidade de referir à imprensa, após terminá-la), que se encontrava praticamente sozinho, decidindo, por isso, percorrer a prova até ao final.

O que estes dois eventos têm em comum? Certamente que muitas variáveis, mas a mais óbvia, que se pretende explorar nesta reflexão, será o impacto que as expectativas podem ter na nossa performance.

De facto, e apesar de ser sobejamente explorado na literatura científica que as "expectativas negativas" podem desencadear fenómenos de ansiedade que, por sua vez, comprometem a performance dos atletas (ou a nossa própria, no exercício das nossas profissões), assistimos frequentemente, e de igual forma, a situações em que expectativas positivas (ex: considerar o Deportivo um adversário "demasiado acessível", por hipótese) conduzem também ao insucesso. Na realidade, perante um contexto percebido como "fácil" (ou, aparentemente fácil), tendemos a ter um compromisso menor, no que respeita a manter os níveis de ativação desejáveis ao exercício das ações facilitadoras do sucesso e, por esta razão, comprometermos de igual forma o nosso desempenho.

No passado fim de semana, o foco de Kipkemoi terá sido, possivelmente, cumprir o acordo que fizera com os organizadores da prova, no sentido de garantir um bom andamento na mesma até ao quilómetro 35 - por outras palavras, não havia qualquer propósito (entenda-se, expectativa) de resultado, mas antes de cumprir esta tarefa.

Efetivamente, numa grande maioria de situações, o foco na tarefa (logo, sem expectativas) garante o exercício das competências necessárias a uma performance de nível superior, sem o "peso" da expectativa, do desejo em alcançar um dado resultado. Também por esta razão, quase sempre, o consumo energético é inferior e os sinais de fadiga também.

Por razões desta natureza, se chega ao quilómetro trinta e cinco "fresco" o suficiente para considerar: "Hummm... só faltam mais 7.."

Em suma, o domínio da nossa capacidade de "não desejar" e, simplesmente, viver o momento disfrutando de todas as sensações que o nosso corpo nos comunica à medida que se supera, ação após ação (como se de um exercício de "mindfulness" se tratasse), tem sido efetivamente, um dos principais predecessores do sucesso encontrados na literatura científica, no que respeita aos denominadores comuns associados a desempenhos de excelência e, por esta razão, continua e continuará sempre a ser um dos "culpados" de resultados "insólitos" de sucesso.

Expectativas? De facto, é melhor não ter!

"First of all, I really never imagined myself being a professional athlete."

- Bo Jackson, um dos poucos atletas profissionais considerados "all-star", em dois desportos: beisebol e futebol americano)

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).