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Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Um diretor do Expresso foi correr a sua primeira meia maratona (foi uma prova de superação e de humildade)

Martim Silva, diretor-executivo do Expresso, percorreu os 21 quilómetros cheio de vontade - e acabou com sede

Martim Silva

manuel de almeida/lusa

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Aos 43 anos, decidi correr a minha primeira meia-maratona. Completei a prova em duas horas e dezassete minutos e mais qualquer coisa. Um tempo espetacular, desde que não se fale com ninguém que alguma vez tenha feito corrida semelhante.

Vou regressar, mas custou mais do que pensava. Muito mais. Foram oito quilómetros divertidos, mais oito que se fizeram bem e finalmente cinco, os finais, de puro esforço, sofrimento e um camadão de pensamentos cruzados, que foram do desistir à vontade de ir a andar ou até à auto-flagelação de me perguntar de vinte em vinte segundos 'que raio de ideia a tua de de meteres aqui, pára mas é agora e vai para a casa'.

Nos primeiros quilómetros, esforcei-me por manter o ritmo, lento, e evitar tentar acompanhar quem manifestamente não tinha pernas para acompanhar (e foram mais de sete mil e oitocentos, de acordo com a classificação final oficial). Nos últimos quilómetros, esforcei-me, sem sucesso, por aumentar o ritmo à medida que ia sentindo o meu rabo ficar maior que o da Oprah Winfrey e as pernas mais pesadas que as de um mamute em fim de vida.

Cheguei ao Pragal, em Almada, no comboio da Fertagus, num clima que mistura romaria à Festa do Avante com o Rock in Rio: grupos e grupos, famílias, cromos de carrinho de supermercado com grelhador e febras em cima, mascarados de tudo e mais alguma coisa...
O caminho até ao garrafão da Ponte 25 de Abril, feito a pé, não é muito diferente do caminho que se costuma fazer quando se chega à ponte de carro: tudo engarrafado. Meto pela berma e lá vou passando o pessoal das selfies.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Tinha chegado ao Pragal, em Almada, no comboio da Fertagus, num clima que mistura romaria à Festa do Avante com o Rock in Rio: grupos e grupos, famílias, cromos de carrinho de supermercado com grelhador e febras em cima, mascarados de tudo e mais alguma coisa...

O caminho até ao garrafão da Ponte 25 de Abril, feito a pé, não é muito diferente do caminho que se costuma fazer quando se chega à ponte de carro: tudo engarrafado. Meto pela berma e lá vou passando o pessoal das selfies.

Por momentos, pensamos estar numa qualquer feira de Carcavelos, tal a quantidade de roupa estendida nos muros, estendais e mesmo em pleno asfalto. O sol eleva-se, o calor chega e o pessoal livra-se de tudo o que rapidamente vá passar de agasalho a empecilho.

O arranque, pelas 10.30, é feito cheio de contacto humano. Vamos ali apertadinhos como se estivéssemos no metro em hora de ponta e nas primeiras centenas de metros as constantes cotoveladas e empurrões só não se tornam insuportáveis porque a vista do tabuleiro da ponte é de cortar a respiração.

A passagem da ponte faz-se lindamente. A descida para Alcântara é isso mesmo, uma descida, ainda por cima marcada pela primeira presença de populares a apoiarem e incentivarem como se fossemos uns Gebreselassie ou uns Kipkoech.

Quilómetro 8, 49 minutos

Depois de virar para trás no Cais do Sodré, tenho a primeira visão dos concorrentes que estão atrás de mim (aqueles que ainda fazem o percurso de Alcântara até ao Cais do Sodré). Percebo pela primeira vez que não estou, nem de perto nem de longe, sequer a meio do pelotão. É que antes de chegar ao Cais do Sodré via magotes já do outro lado, rumando a Alcântara. Mas agora já via muito menos pessoas do lado inverso. Não é bom, pensei.

Nem tudo era negro. Sentia-me bem. Ao contrário de treinos que fizera nas últimas semanas (de 13 e 16 quilómetros, um por semana), as pernas não me começavam a doer. Talvez conseguisse mesmo chegar ao fim. Até já passara a leve 'dor de burro' sentida uns quilómetros antes e que me assustara levemente.

Pela primeira vez, começo a ter uma sensação consolidada de ir ultrapassando concorrentes. Já não era o mais lento dos lentos, o mais pausado dos pausados. Gozo supremo, verificar que ultrapassamos alguém que nos tinha ultrapassado quilómetros antes. E sentirmos que de alguma formasomos melhores do que alguém que não conhecemos de lado nenhum. Isto faz-se.

Uma corrida de duas horas acaba por ter condensada em si muito da nossa vida. É o tempo de um jogo de futebol, de uma jantarada valente ou de um filme. Podemos teorizar sobre geoestratégia. Podemos pensar na vida e na família e no que fazemos neste planeta e no significado da vida.

Exemplos? Ao chegar ao abastecimento de água, constato a fúria de dezenas em luta pela mesma garrafa de água e penso em como a luta pelos recursos hídricos é um dos grandes temas do século XXI. Miro a frente ribeirinha e penso no muito que já foi feito de requalificação da capital nos últimos anos mas no muito que ainda falta fazer. Passo a ponte e imagino a incrível obra de engenharia que é uma construção daquelas. Os pensamentos vão do mundo em geral à mais pequena das moléculas. Tenho de treinar mais. Tenho de fumar menos. Se calhar devia ter uns ténis melhores. Os phones novos sem fios que me permitem ouvir música na lista 'run' do ipod fazem um figuraço.

Quilómetro 14, 1 hora e 30

Já me tinham dito que, indo sozinho para uma prova destas, era bom encontrar alguém que fosse mais ou menos ao meu ritmo, colar-me a ela, e ir fazendo a minha prova. Praticamente até meio da corrida isso revelou-se impraticável por uma razão tão simples quanto forte: é que toda a gente, toda aquela mole humana ia a correr mais rápido que eu. Não falo das lebres e dos que correm verdadeiramente rápido e que só vislumbramos quando passam por nós no sentido inverso ou quando olhamos do meio do tabuleiro da ponte e já os vemos em Alcântara. Falo da generalidade dos participantes. Resisti a aumentar do meu ritmo pachorrento (entre os 5.47 e os 6.15 por quilómetro), com receio de não aguentar até ao fim. Devo ter feito bem, porque aguentei.

Mas por esta altura, algures entre o quilómetro 12 e o 14, quando ainda me sentia francamente bem, lá encontrei um parceiro. A dada altura reparei que à minha frente ia um participante a um ritmo muito semelhante ao meu e colei-me na sua esteira. Por vários quilómetros. Em benefício do detalhe da história, acrescento que o referido participante era uma participante, que pelas inscrições na camisola me pareceu ser de um clube de corrida qualquer da Dinamarca. Que pela indumentária me pareceu alguém habituado a correr aquelas distâncias. E que pelo aspeto geral me pareceu uma respeitável senhora que andaria algures entre os 65 e os 75 anos. Pelo menos.

Quando finalmente a ultrapassei ainda dei de caras com um grupo de comandos, de boina vermelha e fardados e com botas e tudo, que estavam a fazer a prova. Escusado dizer que quando os ultrapassei senti-me um Carlos Lopes. Embrulha!

Mas a alegria não dura sempre. E neste caso durou mesmo muito pouco. Por esta altura as pernas já não respondiam e o ritmo ressentia-se e eu começava a pensar que era capaz de não ser má ideia encostar-me à berma, parar e ligar para casa e pedir para me irem buscar, com o argumento muito racional de 'isto é tudo um disparate, não tenho idade para estas merdas, vou deixar de me armar em parvo, quero ir almoçar a uma esplanada e aproveitar o sol'.

Ao quilómetro 16, ultrapasso um marco psicológico. Daí em diante, cada passada dada, cada metro galgado, cada quilómetro percorrido era um recorde per si. Nunca tinha corrido mais do que 16 mil metros seguidos. Recorde ao 16 mil e um metros, ao 16 mil e dois metros, ao 16 mil e três metros... Estou a desbravar território desconhecido.

Quilómetro 17, 1 hora e 49 minutos

Já passou o prazer, já passou a alegria, já passou a passada minimamente confiante. Ao chegar ao Dafundo estico o pescoço, olho sem cessar para diante em busca de perceber qual o exato momento em que damos a volta e voltamos para trás (Algés e finalmente Belém), para a meta. A espera parece interminável, nunca mais chega o ponto de viragem. O meu cabo ainda não passara das Tormentas para a Boa Esperança.

Ainda como uma banana oferecida pela organização. Nesta altura, cada vez me aparecem à frente mais pessoas a andar. Vou passando por elas, mas mais do que pensar em como estou a subir lugares na classificação, já só penso em como também não faz mal se deixar de correr, uns metros que sejam, e for a andar um bocadinho para recuperar o fôlego. Ainda por cima, ninguém vai reparar. O que me resta de lucidez (ou de parvoíce) diz-me 'não faças isso Martim, é a morte do artista, se páras agora já não voltas a correr'. Afasto o pensamento da cabeça mas ele volta, e volta, e volta, praticamente ao ritmo dos corredores-andadores que vou ultrapassando.

Quando não penso nisto, faço proclamações mais ou menos definitivas. Quero fazer mais meias maratonas! JAMAIS me meterei numa maratona, cujo grau de sofrimento deve ser exponencialmente maior! Vou comer um bifão!

Quilómetro 20, 2 horas e 10

Nesta altura convenço-me que das duas uma, ou a organização se enganou e deixou de colocar as habituais placas junto ao percurso indicando o quilómetro atingido (é que a partir do 18 elas nunca mais apareciam) ou então faz de propósito e não coloca as placas de forma a não desanimar quem já vai num estado lamentável. Não tenho razão em nenhuma das hipóteses. As placas indicando os quilómetros lá vão surgindo, estes é que parecem ser cada vez maiores.

Já com o Centro Cultural de Belém à vista (a meta é logo a seguir, junto aos Jerónimos), ainda me passa pela cabeça travar a marcha e ir a andar no que resta do percurso. Se for a andar umas centenas de metros não faz diferença nenhuma, penso. Resisto, e continuo a correr. Ao ver a meta, já não me passa pela cabeça a emoção toda que ao longo do percurso fui imaginando que sentiria. Já não penso em como vou acenar com ar vitorioso para a mulher e filha que me foram esperar à meta. Já não penso em glórias, presentes ou futuras. Só quero que aquilo acabe depressa.

E não é que acaba mesmo

Ao parar de correr, finalmente após 2 horas, dezassete minutos e 42 segundos, as pernas começam imediatamente a tremer e fico cheio de dores. Músculos, joelhos, tornozelos, até os mamilos (sim, devia ter escutado os conselhos e pôr vaselina antes da prova).

Ainda peço a vários colegas de tormento um resto da água que lhes resta. Perguntam-se se estou bem. Sorrio e digo que sim. Estou aqui, logo devo estar bem. Quero é água. Somos encaminhados, aos magotes, ordeiramente, para os jardins de Belém onde daí a uns minutos nos dão banana, leite com chocolate, gelado, água e, sobretudo, a medalha que mostra como consegui chegar à meta (relativamente) são e salvo. Medalha que, aliás, me acompanha no dia seguinte de regresso ao trabalho e ajuda a atenuar as dores e vergonha pelo andar estranho que não me larga.

No pós-corrida, mais um erro básico (só mais um a somar a uma lista já longa). Queria ir comer um daqueles bifes grelhados de 500 gramas para repor tudo o que tinha perdido. Duche tomado, restaurante here we go. Resultado? Qual bife, qual quê. Ficou (quase) tudo no prato. Não, o que eu precisava não era de um bife. Era mesmo de umas boas horas de sono.

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