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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Os dias do clássico

Duarte Gomes

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Para o adepto e para o universo do futebol em geral, o jogo começa apenas à hora marcada. Aí, sim, a ansiedade acumulada durante dias dá finalmente lugar ao extravasar de emoções. Naturalmente. Obviamente. Mas, para a equipa de arbitragem, a partida começa antes. Bem antes disso. Começa, mais concretamente, no momento em que recebe a nomeação oficial, uns dias antes.

A partir daí, iniciam-se desde logo um sem-número de diligências no sentido de garantir que tudo será feito para que o jogo possa ser bem planeado e mais bem arbitrado.

Após a receção dessa indicação oficial (habitualmente via e-mail), o árbitro contacta logo os seus colegas, no sentido de partilhar a satisfação pela escolha. Mas esse primeiro contacto serve, sobretudo, para iniciar a preparação do jogo.

Pormenores como a hora de partida para o estágio (se a distância justificar ida na véspera), a indumentária a usar nessa altura e no próprio dia do jogo, os equipamentos a utilizar, o tipo de refeições a fazer antes e depois e os assuntos a debater na reunião preparatória são ali discutidos e alinhavados.

Regra geral, o árbitro — enquanto chefe de equipa — envia à sua equipa um plano onde tudo isso é definido ao pormenor. Ao mais ínfimo pormenor.

Para os árbitros, questões como o rigor na pontualidade são fundamentais, e há até quem aplique multas por pequenas falhas, que revertem depois para a almoçarada de final de época.

Os árbitros são a terceira equipa de um jogo e têm de parecer como tal. Até na forma como se apresentam. Por isso, têm de ter uma imagem digna e coerente: se um fosse de fato de treino e outro de calças de ganga, isso descredibilizaria toda a equipa. Estes podem parecer pequenos pormenores, mas são fundamentais e refletem-se diretamente na forma como os jogadores aceitam as decisões do árbitro.

Mas um dos pontos fortes da preparação é o de procurar antecipar tudo o que, em tese, se pode esperar de um grande jogo: qual a melhor forma de comunicar com os colegas, analisar a classificação das equipas e entender as suas motivações, olhar para a rivalidade e histórico de incidentes.

É também crucial avaliar o comportamento expectável do público, o estado da relva, a predisposição emocional de jogadores e técnicos, a previsão do tempo, o tipo de luminosidade artificial naquele estádio, a eventual pressão criada pela imprensa, etc.

Tudo isso é feito com tempo e profissionalismo, para que nada escape. Mas há também a abordagem mais técnica: com o apoio de imagens e com o registo da opinião de outros colegas, importa saber em que esquema tático jogam as equipas, como se comportam fora ou em casa, a vencer ou a perder. Qual a estratégia atacante em jogo corrido ou nas bolas paradas e qual a opção defensiva, nas mesmas circunstâncias. Estuda-se ainda o tipo de marcação habitual que é feita, como se desenham as saídas para contra-ataque e um sem-número de outras ações coletivas.

Mas procura-se igualmente analisar o comportamento individual dos jogadores: saber qual o mais rápido, o mais tecnicista, o mais duro ou o mais estratego. Qual o mais difícil e complicado para o árbitro, qual o que sofre e qual o que faz mais faltas. Qual o que lida melhor com a pressão e qual o que, regra geral, sucumbe mais facilmente a ela. Tudo isto é pensado e planeado ao pormenor.

Em teoria, o árbitro conhece tudo o que o rodeia e sabe bem o que esperar quando apita para o início do jogo. A partir daí, está entregue à sua competência técnica, à gestão das suas próprias emoções e às circunstâncias, tantas vezes inesperadas, do próprio jogo. E tantas vezes é esse jogo que se encarrega de deitar todo aquele trabalho de preparação por terra, quando no primeiro minuto uma equipa marca um golo mais discutível ou outra vê um jogador expulso em lance que deixe dúvidas.

Ninguém disse que era fácil, mas se fosse não seria a mesma coisa.

A beleza do futebol é esta. Imprevisibilidade prática mesmo quando teoricamente essa possa ser tão previsível.

Ex-árbitro