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Talento natural vs talento “treinado”?

Ana Bispo Ramires

"Ganhar não é tudo, mas fazer todos os esforços para ganhar, sim", disse o tenista Rafael Nadal

Julian Finney/Getty

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A determinação biológica, traduzida em características ditas "inatas", associada à predisposição para o sucesso numa série de áreas de performance, vem, desde há muito, sendo discutida.

De facto, desde características antropométricas até a traços de personalidade específicos, várias têm sido as variáveis que a investigação tem estudado, no sentido de aferir um DENOMINADOR COMUM que possa ajudar a PREDIZER O SUCESSO.

A teoria do "inatismo" tem uma diversidade de defensores que vai desde o laboratório do cientista ao outrora "atleta de elite" que, quando muda a carreira para treinador, tende a acreditar que "para se ser atleta é preciso nascer-se com um conjunto de características" (exemplo: este tipo de expressão, já foi por mim ouvida em muitos contextos onde tive a oportunidade de ministrar formação).

Contudo, quando observamos a realidade, são inúmeras as histórias de indiscutíveis talentos que tarde ou nunca vieram a validar as expectativas que sobre si foram criadas quando foram jovens.

No livro "Outliers", de Malcolm Gladwell, o autor discute de forma fundamentada, como a PRÁTICA CONTINUADA E SISTEMATIZADA DE UMA QUALQUER COMPETÊNCIA (ex: violino, ténis, xadrez,...), PODE CONDUZIR À MANIFESTAÇÃO DE TALENTO ACIMA DA MÉDIA.

Na realidade, este autor defende que o PRINCIPAL INDICADOR DE EXCELÊNCIA, não é aquilo que é comummente reconhecido como talento inato mas antes, o que RESULTA DE ESFORÇO CONTINUADO (no caso, o autor refere 10.000h de prática).

Por esta razão, alguns jovens, aparentemente com menos "brilho" que outros, através do esforço, dedicação e prática continuada, acabam por se vir a transformar em atleta de topo.

E, pelo mesmo motivo, os "PERFORMERS" EXCECIONAIS são, na sua maioria, aqueles que CONSEGUEM COMBINAR TALENTO E TRABALHO.

Esta parece ser, a "FÓRMULA MÁGICA".

Colocam-se, então, dois desafios, a qualquer performer/atleta que pretenda atingir níveis de Excelência de forma consolidada:

1) IDENTIFICAR A SUA ÁREA DE TALENTO NATURAL

Nem sempre este é um processo simples e, também aqui, muitas vezes a resposta só surge por experenciação continuada - depois de nos dedicarmos algum tempo à prática desta mesma modalidade/área.

Isto implicará, tempo, dedicação e capacidade de resistência à frustração, no sentido de manter o esforço apesar de não saber qual será o "resultado final"... sendo que, tendencialmente, a capacidade do ser humano passar a "gostar" de algo onde começa a experimentar níveis superiores de desempenho (resultantes do treino) é elevadíssima.

2) SABER COMO POSSO TREINAR a minha área de talento, de FORMA AFINCADA E SISTEMATIZADA e... com uma grande questão associada:

- COMO TREINAR SEM PERDER O PRAZER?

Escolher o "melhor clube" (ex: que tenha uma boa formação, que aposte em equipas técnicas diferenciadas), dedicar-se a 100% em cada treino, ser curioso(a) acerca da modalidade que escolher procurando reunir toda a informação pertinente acerca da mesma (ser ativo na procura de conhecimento e não apenas "passivo", recebendo apenas a informação que o meio fornece..), ser disciplinado no "treino invisível" (descanso e alimentação, evitando excessos), enfim, ESTAR FOCADO EM SE SUPERAR A CADA OPORTUNIDADE É, CLARAMENTE, UM EXCELENTE PERCURSOR DE SUCESSO.

Afinal, tomando como exemplo o que um dos nossos atletas de topo referiu, no contexto de uma conferência que tive oportunidade de assistir:

"Ser-se Atleta de Alta Competição é uma profissão a 24h/dia".

Traduzindo, para além de (algum) Talento, É NECESSÁRIO TREINO DEDICADO e muita DISCIPLINA.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).