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Serei o Caleb do hexa

Henrique Raposo, colunista do Expresso e assumido benfiquista, escreve sobre este final de campeonato, projetando o futuro que aí vem

Henrique Raposo

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A caminho da terra prometida, Moisés envia batedores até Canaã. Estes doze batedores ou espiões são uma espécie de novas pombas da nova arca; têm o dever de trazer no bico ramos de oliveira mergulhados em mel e leite. Quando voltam, a maioria não quer assumir a verdade maravilhosa: a terra prometida está mesmo lá à espera; a maioria dos batedores deixa-se contaminar pelo azedume pessimista, pela inércia do deixa-andar, pela cobardia do cínico que não tem coragem para ser feliz; dizem que é impossível lá chegar, que há tribos poderosas e muralhas inexpugnáveis. É uma parábola poderosa do pessimismo. Quando nele estamos mergulhados, não queremos aceitar boas notícias, porque a nova luz desinstala a narrativa que usamos para ver o mundo. O pessimista pode ser tão irrealista como o optimista, a distopia é tão míope como a utopia. Querem um exemplo? Submersos no baixo queirosianismo, a maioria dos portugueses é assim: não sabe lidar com histórias de sucesso de Portugal; quando algum facto positivo põe em causa a narrativa da “choldra”, ficam irritados; não querem acreditar que Portugal também pode ser uma terra de mel e leite. Ora, o meu benfiquismo é desta patética estirpe. Ainda hoje tenho dificuldade em lidar com esta normalidade da conquista, com este bocejo de felicidade que é vencer ano após ano. O tetra ainda me parece inverosímil, já aconteceu mas a minha cabeça recusa-o como uma impossibilidade física e metafísica. Quem é da minha geração perceberá esta predisposição.

Os mais novos e os mais velhos terão dificuldade em compreender. É normal. Os mais velhos têm memórias dos anos gloriosos do Eusébio e, portanto, vêem esta nova era como um regresso à normalidade do povo escolhido que veste de encarnado. E os mais novos só têm memórias pós-2010. Sucede que eu tenho 37 anos, vivi a adolescência e primeira fase adulta durante o jugo da agremiação norte coreana que veste aqueles pijaminhas azuis e brancos. Este Moloch azul mortificou duas décadas inteiras do meu benfiquismo. Reparem: nos anos 90, quando o campeonato começava em Agosto, eu assumia que tínhamos 6 pontos negativos, ou seja, assumia que começávamos abaixo de zero, no gélido menos 6. É uma conta fácil de explicar: os dois jogos com o Moloch azul estavam perdidos à partida. Todos os anos rezava ao Santo César Brito, mas o destino estava traçado: éramos empalados, eles faziam connosco aquilo que Vlad fez aos turcos. Não, não me venham com a história dos árbitros. Eles ganhavam porque eram melhores, porque nós tivemos duas décadas de uma incompetência incompreensível, porque tínhamos medo. Ir às Antas era como voltar ao Egipto ou, pior ainda, era como ser deportado para a Babilónia ou para uma Gomorra qualquer onde a nossa equipa era ciclicamente abusada sem só nem piedade ao estilo do Pulp Fiction. Não indico o Pulp Fiction por acaso. O filme de Tarantino é uma dos separadores que a minha memória usa para dividir as águas entre um passado ainda alegre e o futuro negro na Gomorra azul. O filme é do ano mágico de 1994, o ano do 6-3 e do 4-4, o último ano de uma equipa gloriosa, a equipa de Paneira, João Pinto, Kulkov e do profeta zarolho, Isaías, o homem da fórmula 12-1; se chutasse 24 vezes, marcava 2 golos. Depois de 94, entrámos na noite. Entre 94 e 2010 (o campeonato do Trap não conta), passámos mal. Foram os anos da Babilónia do Nabucodonosor da Cedofeita, foram os anos em que tivemos pensionistas ingleses no meio campo, ferroviários galeses na ala esquerda, suecos com nome de batata frita na frente, foram anos em que tivemos no banco um escocês de garrafão e um egípcio chamado Manuel José, foi a altura em que desperdiçámos José Mourinho em nome da tal mística que se escondia no bigode de Toni, como se fosse uma farripa de couve do caldo verde. Não, não se riam, porque a estupidez era grande.

Durante estes longos dezasseis anos, o meu cérebro habituou-se ao pessimismo, aprendeu a desconfiar dos (curtos) momentos de alegria. E o momento Kevin, há uns anos, foi uma recordação dolorosa desse tempo. Parecia que já estávamos emancipados, parecia que já tínhamos dado o nosso Grito do Ipiranga contra o jugo azul, parecia que as pernas já não tremiam quando se passava para lá do Douro, mas afinal ainda havia aquele minuto 92 no alforge do Nabucodonosor da Cedofeita. É por tudo isto que ainda não sei o que pensar ou fazer com esta boda de títulos que brota da terrena prometida de Vieira.

Na caminhada de Moisés, só dois batedores têm fé e coragem para abraçar a felicidade: Josué e Caleb. Calam a multidão pessimista que cerca Moisés, e gritam: “não temais”. É preciso não temer a glória, que tem uma luz que pode acobardar. Eu, confesso, ainda temo. Mas, com jeitinho e devagarinho, como canta o Salvador Sobral, eu prometo que chego lá. Prometo aliás que serei o o Caleb do Hexa e o Josué do Hepta. O penta é pra meninos.

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