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Rui Lança

Rui Lança

Professor

Mas, afinal, o que faz um “Coach” numa equipa técnica?

Rui Lança é 'coach', trabalha com uma equipa da Liga portuguesa de futebol e explica em que é que isso consiste

Rui Lança

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É provavelmente a pergunta que mais me fazem. Ou formulada de outro modo: “O que poderá fazer um 'coach' numa equipa técnica ou numa equipa desportiva? E com o atleta?”

A presente época desportiva foi bastante rica. Já com a época a decorrer (outubro), desafiei-me e desafiei um treinador de uma equipa da Primeira Liga de Futebol a realizar um processo de 'coaching' com o mesmo e organizado em três fases distintas, em que a passagem da primeira para a segunda fase e consecutivamente, dependeriam da avaliação constante que as partes envolvidas realizam regularmente.

Essas três fases ajudam a explicar um pouco o que um 'coach' pode realizar numa equipa desportiva (que neste caso específico, passei a fazer parte da equipa técnica por decisão do treinador em questão após as primeiras sessões). A primeira fase seria (e foi) propor e realizar um processo de 'coaching' individual ao treinador principal da equipa. Numa análise à realidade da sua comunicação, liderança, motivação, gestão de equipa, relacionamento e PNL. Numa perspetiva intra e interpessoal.

Mas que raio quer isto dizer?! Bem, de modo simples, passou por analisar o que o treinador faz, pensa e sente, e depois perceber o que chega ao recetor, que nestes casos, são os jogadores, bem como à sua equipa técnica. Avaliamos o que é emitido na perceção do treinador principal e o que é compreendido. Podemos fazer isto observando gestos, palavras, comunicações, palestras, treinos, ações e reações. E para isso, opto por filmar, gravar, escrever, perguntar. E acima de tudo, observar e dialogar. Escusado dizer que a confiança pessoal e técnica é (também) a base para que algo deste género possa ser realizado. E que quando desafiei o treinador, não nos conhecíamos pessoalmente.

Adiante. E o que se faz com isto? O ‘isto’ refere-se a informação. Informação sobre hábitos, crenças, ações, diálogos, gestos, interações, posturas, abordagens e muitas intervenções. Para além disso, de modo regular, falei com o 'coachee' (o treinador). Falo para o informar acerca do que vi, para dialogarmos, para ouvir a sua versão, todas as versões. Seja quando estou a tomar café com ele, quando estou a assistir ao treino da bancada ou no próprio campo, que nos primeiros tempos, ocorreu sempre de um modo muito discreto.

No jogo, o acompanhamento faz-se ao lado dos outros membros da equipa técnica que não vão para o banco. Nesta altura, convém situar que, por decisão do treinador, já tinha sido apresentado aos jogadores como alguém que fazia parte da equipa técnica do clube e estava ali para fazer 'coaching' - o que quer que isso significasse para cada uma das cabeças de cada ser humano que estava no balneário naquele momento.

Mais mês menos mês, numa segunda fase, realizaria o mesmo processo com os outros seis treinadores-adjuntos. Observação das suas intervenções, trocas de impressões, relatórios, questionários, perguntas e reunião. Isto repetido várias vezes. Até ao final da época desportiva que agora finda, elaboraram-se relatórios de diagnósticos, sugestões e ferramentas para desenvolver as competências que se consideraram prioritárias para desenvolver por parte dos adjuntos (e aceites, com um processo de explicação).

Ainda sem ter terminado a segunda fase, e devido à aceitação de todos, iniciou-se a terceira fase, a interação com os jogadores. Nesta altura já frequentava todos os espaços: balneário, palestras nos estágios, jogo, treino, espaços onde pudesse retirar a informação necessária e respeitando sempre aquilo que é de mais sagrado que pode existir numa equipa: o seu espaço e as suas regras de coabitar.

Voltando às dinâmicas, dinamizaram-se dinâmicas coletivas no treino, para trabalhar competências específicas: comunicação, confiança, foco, só para dar alguns exemplos. Através de conversas e observações a atletas previamente identificados e autorizados, antes, durante e pós-treino.

Reconheço que a intervenção durante o treino pode ferir suscetibilidades a alguns, pelo que passo a explicar com exemplos. Sabemos que para o atleta é fundamental comunicar durante o jogo. Chamar à atenção do colega, gritar, ajudar ou avisar. Sabemos que os atletas muitas vezes chegam a seniores com estes handicaps. Algo que não foi trabalhado na formação. Estou atento a isto. Falo com o treinador. Sintonia nesta área. “Força” encoraja o treinador. Aguardo os momentos que sejam necessários. Dirijo-me ao atleta numa pausa ou naqueles momentos em que, durante o exercício, o atleta está junto a mim, e digo-lhe: “(nome do atleta, sempre!) falar é importante, fala contigo, fala com os teus colegas, tu e eles precisam! Irá ajudar-te a seres melhor, acredita.” Durante vários treinos existe um enfoque nesta área. Não se força, não se desgasta a relação por causa do assunto, mas acompanha-se. Damos feedback, demonstramos que estamos atentos, que o acompanhamos, que o atleta é alvo da nossa atenção e preocupação.

Outro atleta – também ele promissor – tinha por hábito dar feedback aos colegas mais sobre aquilo que não era para fazer ou acontecer, do que aquilo que esse atleta queria que acontecesse. “Não percas a bola, não vás para a esquerda, não subas, nas percas a concentração, etc”. Um conjunto de “nãos” ou de castrações. “Mister, posso falar ao (nome do atleta) sobre a importância de intervirmos com o que queremos que aconteça e não com o que não queremos que façam. Porque uma fomenta a proatividade e a solução, outra leva ao medo de errar e à negação.” Explico ao atleta, acompanho, e passados uns treinos, falo com ele e chegamos à conclusão que está a falar menos, mas melhor. Mais um objetivo.

Isto faz ganhar jogos? Não, provavelmente não fará. Os que ganham mais vezes fazem mais vezes umas coisas do que outras ao nível comportamental? Claramente. O 'coaching' não é simplesmente sobre causa – efeito. Mas o efeito que procuramos tem algumas causas e uma delas é um acompanhamento a vários níveis do que fazemos, dizemos, pensamos, sentimos, etc.

Claro que existe muita coisa que não está aqui descrita. Momentos melhores e outros mais difíceis. Relembro que o futebol é jogado por pessoas, lideradas por pessoas. Que existe uma base enorme de conhecimento da área do comportamento que nos rege diariamente. Como intervimos, para quem, quando, o que dizemos, como reagimos, como antecipamos, onde o realizamos. Tantas, mas tantas ações, algumas variáveis, muitos cenários. A liderança, apesar de ser uma das áreas mais estudadas, ainda é bastante apaixonante. E contribui muito para o sucesso (seja quais forem os objetivos) da sua equipa e dos atletas.

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