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Tributo a Carlos Matos... e a todos os “Rui Patrício”

Ana Bispo Ramires

A estátua de Rui Patrício, junto ao Estádio de Leiria

Paulo Cunha

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Carlos Matos, empresário português emigrado em França há quase 50 anos, saiu do anonimato quando, em julho de 2016, prometeu uma estátua a Rui Patrício, caso Portugal fosse campeão da Europa, face à França.

Quis o destino que Portugal fosse campeão e que a promessa de Carlos Matos fosse cumprida - e assim aconteceu na passada segunda-feira.

Do Rui pouco há a dizer, ou, por outra, pouco mais do que o grande público já sabe, uma vez que, sendo já do domínio do público que tive o privilégio de trabalhar com ele até final de 2016, toda a informação tem, da minha parte, carácter de confidencialidade.

Gostaria, ainda assim, e não para elevar as caraterísticas do Rui (por certo, não necessita desse tipo de "ajuda"), já sobejamente do domínio público, mas sim, para as SINTETIZAR para que "futuros Ruis" do futebol ou outras modalidades possam ver, neste texto, alguma LINHA DE ORIENTAÇÃO.

De facto, e colocando de lado as suas características antropométricas (que, não sendo da minha área, já por diversas vezes vi atletas a sobrecompensarem aquilo que, à partida, poderia ser um entrave, transformando a dificuldade em superação), as suas competências técnico-táticas (também fora do meu âmbito de análise) ou as competências psicológicas (que, por razões óbvias, não serão por mim abordadas), este atleta evidencia duas características frequentemente observadas em atletas de alto rendimento:

- uma NATURAL CURIOSIDADE EM CONHECER todas as FERRAMENTAS que possam AJUDAR À SUPERAÇÃO constante dos seus NÍVEIS DE EXCELÊNCIA (seja, por exemplo, através da elevação do seu conhecimento técnico tático, das suas "mental skills" ou até da sua gestão energética - nutrição, sono, etc.)

- uma ENORME CAPACIDADE DE TRABALHO E SACRIFÍCIO, alimentadas por uma VONTADE incansável de superar os seus níveis de performance.

Por esta razão, o Rui é, à semelhança de muitos outros grandes atletas (cores clubísticas à parte) um EXEMPLO VIVO de que a FÓRMULA DE SUCESSO se traduz, invariavelmente em TRABALHO E TALENTO, respetivamente (e considerando o alto rendimento).

Voltemos a Carlos Matos.

"Estátuas" à parte (porque há muitas formas de promover "reconhecimento"), Carlos Matos vem, com esta ação, dar uma "chapada de luva branca" ao contexto desportivo português (e à sociedade, em geral) onde, tradicionalmente, alguns praticantes e/ou modalidades são, aparentemente "invisíveis"... aliás, como o próprio indicou em entrevista, quis homenagear o homem, os guarda-redes e os portugueses emigrados... tantas vezes, igualmente "invisíveis" em Portugal.

De fato, mesmo o próprio Rui, e até ao momento em que recebeu o prémio de melhor guarda-redes do campeonato da Europa, viu o seu mérito muito mais reconhecido pela imprensa (e adeptos de futebol) estrangeira(os) do que em território nacional (felizmente, havia um Carlos Matos em França!).

Os guarda-redes, muito em particular, "sofrem" duma espécie de "invisibilidade" de onde só tendem a sair para serem responsabilizados pelo "frango" que levou "àquela" derrota e, infelizmente, existem ainda muito poucos treinadores que atuem um verdadeiro "11" em campo e, muito mais frequentemente, um "10+1".

Em boa verdade, Portugal precisa de mais "Carlos Matos" e de se comportar mais como o "Carlos Matos".

É preciso que haja mais reconhecimento daqueles atletas que, seja qual for a sua modalidade, e defendendo as cores de Portugal, às vezes com condições adversas, ainda assim defendem imagem de cada um de nós (como, e a título de mero exemplo, tivemos neste fim de semana, entre muitos casos, os de: Ana Cabecinha, na marcha, Simão Almeida, na Ginástica Desportiva Masculina ou da equipa de remo).

São precisas mais iniciativas que possibilitem a evolução, seja em termos técnico-táticos, fisiológicos, psicológicos ou nutricionais, (afinal, algumas das principais disciplinas associadas ao sucesso desportivo) das modalidades, seja na otimização das suas equipas técnicas (como, por acaso, irá acontecer este fim de semana com a realização do 4º Congresso Internacional de Treino de Guarda Redes, no Porto), ou dos seus diferentes "players" (dirigentes, atletas, árbitros, pais, entre outros).

E, acima de tudo, precisa-se APRENDER a PREMIAR o ESFORÇO e não apenas o RESULTADO pois, este último, pode ser "obra do mero acaso", logo pontual, enquanto que o primeiro, é a ÚNICA GARANTIA de SUCESSO CONSOLIDADO a médio-longo prazo.

E, o ESFORÇO, PREMEIA-SE com APOIO, RECONHECIMENTO e MELHORIA das CONDIÇÕES de quem, DIARIAMENTE, se ENTREGA a REPRESENTAR PORTUGAL, para que, de forma SUSTENTADA a EXCELÊNCIA possa EMERGIR.

Este verão, eventos não faltarão para que, tal qual Carlos Matos, a imprensa e todos nós possamos, de forma inequívoca, apoiar os atletas que irão estar em palco nas diferentes competições - Mundiais de Natação, Campeonato da Europa Futebol Feminino, Mundiais de Atletismo, Mundiais de Ginástica Artística, entre tantos, tantos outros - e, não... não serão necessárias "estátuas de bronze"... apenas APOIO INCONDICIONAL.

Performances de Excelência PRECISAM-SE... mas, da parte de TODOS NÓS.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).