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Maria João Xavier

Maria João Xavier

Ex-jogadora de futebol

O jogo em que não houve hino para tocar (e outras recordações sobre a seleção feminina)

A seleção feminina de futebol estreia-se esta tarde (17h, RTP1) no Europeu, frente à Espanha, e a ex-internacional portuguesa Maria João Xavier explica o que se deve esperar desta participação inédita, recordando jogos antigos em que não faltaram peripécias - como a falta de hino para tocar

Maria João Xavier

Maria João Xavier (à direita) foi internacional portuguesa 76 vezes

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Portugal vai marcar presença, pela primeira vez, numa fase final de uma grande competição sénior feminina, a exemplo de outras seleções: Áustria, Bélgica, Escócia e Suíça (estreante apenas em Europeus).

Não se pode dizer que tenha sido um sorteio desfavorável à seleção - bem pelo contrário. Ao escapar aos tubarões mais temíveis (Alemanha e França), é bem possível que as contas do apuramento para a fase seguinte possam compor-se.

Calhou-nos em sorte as seleções de Espanha, Inglaterra e Escócia e o historial da seleção feminina contra estas seleções é tudo menos positivo - mas nem sempre assim foi. No período de 1994-2003, foram 12 os jogos em que defrontei estas seleções, tendo ganho três (um contra Espanha, dois contra Escócia), empatado dois (Inglaterra) e perdido os sete restantes (um contra Espanha, quatro contra Inglaterra e dois contra Escócia). Ou seja, o saldo é negativo, como foi em grande parte dos jogos que a seleção nacional disputou neste período, sendo esperado que o cenário comece a mudar a curto prazo.

Os dois jogos com Espanha foram muito diferentes, sendo ambos de carácter particular. O primeiro, no longínquo ano de 1994, disputado em Chaves, num dia de muito frio, representou o meu primeiro jogo em representação da seleção nacional. É verdade, não comecei muito bem: perdemos 0-1, resultado muito injusto e que não reflete o que sucedeu durante os 90 minutos. Portugal atacou muito mas nem sempre bem, não concretizando as inúmeras situações de golo que criou.

Espanha, numa das suas poucas incursões à baliza nacional marcou o golo solitário com que terminou o jogo. O segundo jogo (1997), uma vitória robusta e sem qualquer contestação (3-0), disputado em Castelo Branco. Diga-se em abono da verdade que neste período a diferença de qualidade e capacidade física entre as duas seleções era inexistente. Com o passar dos anos, Espanha deu um enorme salto qualitativo e tem marcado presença nas fases finais de Wuropeus e, em 2015, alcançou o apuramento inédito para o Mundial, disputado no Canadá 2015.

Ou seja, Espanha foi crescendo e nós fomos marcando passo. Nos mais recentes confrontos contra as espanholas, Portugal perdeu os dois jogos realizados durante o apuramento para o Euro 2017, mas acredito que a diferença observada vai sendo esbatida com o passar dos anos. Estamos a recuperar o tempo perdido…

Jornal "O Jogo" de 5 de fevereiro de 1994

Jornal "O Jogo" de 5 de fevereiro de 1994

Inglaterra sempre se apresentou como o adversário mais complicado. A diferença na capacidade física era visível até para o mais leigo em assuntos futebolísticos. A qualidade técnica, essa, nunca faltou, mas faltava-nos o combustível para a desenvolver. Enquanto as pernas tinham energia para queimar, a coisa mantinha-se controlada... o problema era depois. E isso estendia-se, em grande parte das vezes, em 45 minutos de muita luta, determinação e querer... mas já se sabe, não chegava.

Ainda assim, em dois jogos, a nossa seleção conseguiu "enganar" as inglesas e, em determinados momentos dos jogos, "metê-las nos bolsos", como é comum dizer-se. O empate alcançado em abril de 2000, num jogo disputado em Sacavém, foi inglório para as cores nacionais. O jogo esteve sempre controlado mas, no fim... empate, amargo.

Em novembro de 2001, outro empate. O jogo, disputado na Gafanha da Nazaré, com o estádio completamente cheio, onde não cabia mais uma agulha, foi transmitido pela TVI, em direto. A Inglaterra, pelos vistos não tinha aprendido com o jogo anterior e encarou o jogo a pensar que tinha sido um percalço... pois deparou-se com outro e durante a primeira parte andou a correr atrás do prejuízo! É verdade que não conseguimos ganhar, mais uma vez (sina a nossa) mas perceber que a equipa adversária teve de "descer à terra" para não perder, à data, era importante para reforçar o ânimo.

Os restantes jogos contra as inglesas - quatro derrotas - não tiveram história digna de registo no que diz respeito a resultados, uma vez que a superioridade inglesa foi sempre visível. Como é conhecido, a FA (federação inglesa) em boa altura decidiu implementar um programa de desenvolvimento do futebol feminino e os resultados estão à vista (3º classificado no último Campeonato do Mundo - Canadá 2015).

Finalmente, a seleção da Escócia. O jogo disputado em abril de 1994 (Sterling) representou a primeira vitória alcançada em jogos oficiais após o reinício da atividade da seleção feminina. Os objetivos, naquela altura, eram fixados jogo a jogo. Recordo-me que o primeiro objetivo era marcar o primeiro golo (alcançado em março 1994, contra a Itália, em Fiães).

Parece insuficiente, mas quando se retoma uma atividade após 10 anos de interregno, enquanto pela Europa fora as seleções foram crescendo, por cá o caminho tinha que ser, novamente, iniciado do zero.

Mas esse jogo na Escócia foi repleto de peripécias completamente alheias à seleção ou à própria FPF. Depois de uma aterragem assustadora em Glasgow dado o tempo horrível que se fazia sentir, alguém hoje imagina que seria possível não existir "A Portuguesa" para tocar na cerimónia inicial? Nos tempos atuais rapidamente se acedia ao hino, através da internet. Naquele tempo, o hino fazia parte da nossa bagagem, ainda em versão cassete.

No dia do jogo (naquele tempo não havia reuniões técnicas em que todos os detalhes eram discutidos e afinados, as questões eram resolvidas de forma mais informal), poucos minutos antes deste começar, constatou-se que não existia o hino nacional... mas também não existia leitor para a cassete que tinha sido levada pelos elementos da FPF.

Toca só o escocês e depois começa o jogo...? Não, resposta em uníssono de todos quantos integravam a comitiva. Sem hino, não começa! Várias soluções foram propostas e, no final, prevaleceu que o hino seria cantado pelas atletas e restante comitiva em pleno relvado, com recurso à distribuição de microfones.

Saiu bem afinado e no final soube ainda melhor: vitória por 2-1 fora!

O jogo de volta, em maio do mesmo ano (em Almeirim), correu ainda melhor, no que diz respeito a resultado... uma goleada das antigas: 8-2, com casa cheia também. Por questões clínicas decorrentes do estágio prévio vi este jogo da bancada, mas está contabilizado nos 12 disputados.

Jornal “Record” de 30 de maio de 1994

Jornal “Record” de 30 de maio de 1994

Os restantes jogos com a Escócia é o que já se sabe... derrotas, por número mínimos, mas derrotas. A evolução da seleção escocesa ia-se notando ainda que não fosse tão acentuada como outras seleções nacionais. No entanto, aquele que teria sido o meu último jogo ao serviço da seleção nacional, por opção própria, em junho de 2003, em Nelas, não fosse uma situação de saúde imprevista, representou a “vingança” dos 8-2... derrota pesada por 8-1. Casa cheia em Nelas que não merecia tamanha goleada!

Por tudo isto, não podemos dizer que o sorteio do Euro 2017 tenha sido mau. O histórico com a campeã europeia Alemanha (e grande favorita a nova vitória na competição) seria bem pior e muito mais avassalador (41! golos sofridos e nenhum marcado, uma média de 10 golos/jogo).

É verdade que o último jogo remonta a 2005 mas o desnível (ainda) é assustador. Talvez tenham sido as únicas vezes que percebi o que era querer e não poder! A impotência é algo assustador e esses quatro jogos assim o demonstraram.

Mas isso é passado e o futuro espera-se e deseja-se que seja risonho. Começando já hoje.

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