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Nicolau Santos

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Diretor-Adjunto

Carta aberta a Nuno Saraiva

Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso, responde ao texto de Nuno Saraiva, diretor de comunicação do Sporting

Nicolau Santos

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Meu caro Nuno Saraiva,

Conhecemo-nos há alguns anos e chegámos mesmo a trabalhar juntos no Expresso. Sempre mostraste ser um grande profissional e uma excelente pessoa. Hoje vi o que escreveste na tua página oficial do Facebook sobre a crónica que ontem publiquei na Tribuna Expresso. E compreendo-te. Trabalhas para o Sporting, tens de defender o clube. É normal: ninguém que trabalha para uma empresa ou instituição critica publicamente o patrão ou o presidente. E se é paga para as defender, tem de vir a terreiro fazê-lo.

O Sporting, contudo, é uma instituição de utilidade pública. Tem milhares de sócios, já teve muitos presidentes e muitos mais treinadores, terá mais presidentes e treinadores. Vivemos num país livre, logo num universo tão alargado de associados haverá sempre quem não concorde com o presidente de plantão ou com as opções do treinador que está de momento aos comandos.

Vamos então por partes. Bruno de Carvalho devolveu aos sócios do Sporting o orgulho de pertencerem ao clube e a fé de voltarem a acreditar em novas conquistas em todas as modalidades. Construiu o pavilhão, uma falha inadmissível num clube com a dimensão do Sporting. Renegociou com os bancos, ganhou folga financeira para não asfixiar a possibilidade de serem comprados novos jogadores que, a nível do futebol, nos dêem a possibilidade de ganhar a I Liga. Fez propostas para tornar muito mais transparente o futebol nacional. Relançou modalidades que estavam abandonadas e onde o clube tinha pergaminhos. Deixando de lado as suas afirmações truculentas e atitudes completamente desnecessárias, Bruno de Carvalho tem sido um grande presidente, que resgatou o Sporting daquele declínio irreversível em que parecia ter entrado.

Contratou dois grandes treinadores, Leonardo Jardim e Marco Silva, que infelizmente entendeu dispensar. Mal, claro, como se tem visto. Mas quando conseguiu trazer Jorge Jesus para o Sporting, fez algo de extraordinário: encontrou a peça que fez o click para galvanizar os sócios e os jogadores, ao mesmo tempo que traumatizava profundamente os nossos rivais da segunda circular. Foi um dois em um, que só não resultou logo na conquista do campeonato porque nessa altura não havia videoárbitro.

Tudo isso, contudo, não me faz esquecer outras coisas. Jesus está há duas épocas no Sporting e a começar a terceira. O que ganhou com os jogadores que herdou (e que tinham ganho uma Taça de Portugal) e com os muitos outros entretanto adquiridos? Uma Supertaça. É pouco, lamentavelmente pouco para a sua apregoada genialidade. E o pior é que os resultados tem vindo a descer.

Lusa

Na sua primeira época à frente do Sporting, a equipa principal ficou em segundo lugar, marcou 79 golos e sofreu 21. Na época passada, o clube ficou em terceiro, marcou 68 golos (menos 11) e sofreu 36 (mais 15). Ora o guarda-redes foi sempre o mesmo (Rui Patrício), o meio-campo também (William e Adrien). Logo, o problema só pode ter estado na defesa.

E Jesus tem um manifesta esquizofrenia com as defesas dos clubes que treina. Já tinha no Benfica, onde os defesas esquerdos se sucederam com tanta regularidade que nem o mais acérrimo dos prosélitos do clube da Luz se consegue lembrar dos respetivos nomes. Inventou num célebre jogo no Dragão, onde colocou David Luiz, um defesa central, a jogar à esquerda. O Benfica perdeu por 5-0.

No Sporting, depois de termos feito uma monumental exibição em Madrid, fomos jogar com o Rio Ave. Perdemos 3-1, com Bruno César a defesa esquerdo. Os avançados passavam por ele como se fossem de mota e ele estivesse de bicicleta. Jesus só corrigiu o erro depois de termos o jogo perdido. Durante muitos jogos no ano passado resolveu apostar em Zeegelaar, embirrando claramente com Jefferson, que defende menos mal que Zeegellar mas é muito melhor a marcar livres, a centrar e a apoiar o ataque.

Também não deu quase oportunidades a Paulo Oliveira e não desistiu enquanto não o correu do clube. A dupla central de defesas mudou tanto que os sócios eram surpreendidos a cada jogo. Depois ficou-se por Ruben Semedo e Coates. Agora indicou a porta de saída a Semedo para contratar um tal Mathieu, que não tem, pela sua morfologia, nenhumas características de ser um defesa rápido e de ter rins flexíveis. E Coates precisa de um parceiro rápido ao seu lado, como eram Semedo ou Paulo Oliveira. Sem eles, a vida também lhe vai correr pior. E que dizer da dispensa de Schelotto para ser substituído por Piccini, que por sua vez ficou (descobriu-se agora em Alvalade!) sem nenhum concorrente para a sua posição?

Aliás, leio hoje no Record: “Urgente – Jesus quer lateral e central – Técnico procura alternativa válida a Piccini e Coates”. Pergunto: agora é que descobriram isso? A 15 dias de começar o campeonato? É que o problema não foi termos perdido com o Guimarães por 3-0. O problema é que não se vê como vamos solucionar o problema para o campeonato. E as grandes equipas constroem-se a partir da defesa, porque são aquelas que sofrem poucos golos.

Sim, eu sei que o André Pinto está lesionado. Mas o Tobias alguma vez é melhor que o Paulo Oliveira? E porque é que dispensámos o Schelotto? É pior que o Piccini? E agora o Coates também já não serve? Mais: o Mattheus Oliveira é melhor que o Francisco Geraldes? Não, não e não.

Carlos Rodrigues

E vamos jogar com três centrais, em 3-4-3? Temos jogadores para isso? Até quando vamos experimentar o sistema? Vejam-se os resultados em sete jogos de preparação: 1 golo sofrido com o Belenenses, dois com o Marselha, 1 com o Fenerbahce, 3 com o Basileia, 3 com o Valência, 1 com o Mónaco, 3 com o Guimarães. 14 golos sofridos, média de dois por jogo. É assim que nos vamos candidatar a campeões? Isto não faz acender inúmeras campainhas de alarme nos comandos técnicos do Sporting e na direcção? E não será que, mais que por causa dos jogadores, é o sistema que está errado?

Por outro lado, Jesus está a reproduzir no Sporting o que fez no Benfica: a contratação de uma avalanche de jogadores sul-americanos em detrimento de oportunidades para os jovens da formação ou para jogadores portugueses que não foi ele que contratou. Não é o modelo do Sporting Clube de Portugal e é um enorme erro, que nos vai custar caro quando ele deixar o clube.

Meu caro Nuno, recebi o ano passado o meu emblema de sócio do Sporting Clube de Portugal há 25 anos. Mas na verdade deveria ter recebido outro emblema, porque desde os seis anos fui sócio do Sporting Clube de Luanda, um tempo que infelizmente não conta para a contabilidade do SCP.

Há 13 anos que pago a Gamebox. Tenho as quotas em dia. As maiores alegrias que tive foram a conquista dos dois últimos campeonatos pelo Sporting. No primeiro não estava em Portugal, mas no segundo andei a buzinar pelas ruas de Lisboa, bebi champanhe, pintei a cara de verde e branco e festejei exuberantemente com os meus filhos desde o Marquês, passando pela Avenida da Liberdade, até ao Largo do Pelourinho. Para sportinguista híbrido não está mal de todo.

Sabes, meu caro Nuno, quando fui do Conselho Leonino e tinha assento na parte da bancada principal destinada aos corpos sociais (coisa que pouco fiz porque prefiro de longe o meu lugar cativo), havia um senhor que se sentava ao meu lado e que passava o tempo a dizer que o Sporting não ganhava porque toda a comunicação social estava contra o clube.

E eu a olhar para o campo e a ver os nossos avançados a falhar golos de baliza aberta ou a nossa defesa a abrir alas para os adversários marcarem. O que é que a comunicação social tem a ver com a inépcia de jogadores e treinadores? O que é que a comunicação social tem a ver com contratações falhadas, programações de temporada erradas, escolhas de sistemas desadequados? Nada. Zero.

Mas eu acredito. Acredito sempre que o Sporting vai ultrapassar todos os obstáculos, todas as dificuldades, todas as barreiras. Acredito que os jogadores suarão e honrarão aquela camisola. Acredito que os sócios encherão de novo Alvalade esta época, com uma média de espectadores acima dos 40 mil (muito por causa do Presidente e do bom futebol que a equipa, apesar da falta de resultados, tem jogado) e que empurrarão o Sporting para muitas vitórias. E sei, como tu também sabes, meu caro Nuno, que se esta época for tão paupérrima de títulos como foi até agora, o reinado de Jesus termina em Alvalade. Ah, também sei que não há sócios de primeira e outros de segunda. Todos tem direito a dizer o que pensam, mesmo se não pensam o mesmo que o Presidente ou o treinador. E não será seguramente por causa de um artigo na Tribuna Expresso que o Sporting não ganhará a Liga 2017/2018. Estamos de acordo, meu caro Nuno?