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Época nova, vida nova: a relação treinador-atleta

Ana Bispo Ramires

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Enquanto arrancam os diferentes campeonatos, a azáfama que ocupa os clubes é, maioritariamente, a constituição dos plantéis para a época que se avizinha.

Terminada esta etapa, iniciar-se-á uma "longa travessia", que se prende com a estruturação dos pilares fundamentais da relação dos Treinadores com os seus Atletas.

A relação Treinador-Atleta é, desde há muito (ex: Serpa, 1999), um dos grandes focos da investigação em Psicologia do Desporto, dado o reconhecimento inequívoco da sua associação ao Sucesso Desportivo.

Sem entrarmos na discussão dos "estilos de liderança", terreno igualmente fértil na produção de estudos, a especificidade da relação entre treinadores e atletas aponta ser um fator inquestionavelmente associado ao sucesso (ex: estudo realizado com a equipa olímpica Canadiana, em 2008 - Wurther, P.).

De facto, apesar da relação se estabelecer pela existência de um propósito comum (desenvolvimento das capacidades técnicas, tácticas e físicas, com a missão de sucesso) e de uma "paixão" igualmente partilhada (o desporto), a relação estabelecida vai muito para além do ensino e treino destas competências.

E ainda bem.

Em boa verdade, um Treinador (tal como, por exemplo, um professor), assume-se igualmente como o principal propulsor das características de base do atleta e da sua capacidade em "pensar" (e lidar com) a competição.

Por outras palavras, o Treinador acaba por ser o principal ator no cenário da transformação das competências psico-emocionais dos seus atletas/equipa (consideremos o exemplo claríssimo de Scolari, nos primeiros anos em Portugal).

Luiz Felipe Scolari liderou Portugal entre 2003 e 2008

Luiz Felipe Scolari liderou Portugal entre 2003 e 2008

FABRICE COFFRINI/GETTY

Do lado do Atleta, mesmo que a atuar de uma forma quase indelével e subliminar, a EXPECTATIVA do mesmo é que o seu Treinador se transforme numa espécie de "cuidador primário", que DEVERÁ FORNECER SEGURANÇA E APOIO EMOCIONAL - de facto, enquanto seres humanos, estamos todos condicionados a expectar este tipo de comportamento de quem nos "dirige", em virtude das experiências que se foram acumulando durante a infância (onde a figura de "autoridade" - o adulto - deveria prover estas mesmas necessidades)

O PROBLEMA SURGE - seja no desporto ou em outro contexto de realização - QUANDO TAL NÃO SUCEDE.

Demasiadas vezes, assistimos a este tipo de situação que nada tem a ver com as competências técnico-táticas do treinador em causa.

Na realidade, não são os seus skills técnico-tácticos que são valorizados pelos Atletas (como elementos diferenciadores), mas a qualidade e nível de compreensão, respeito, confiança e previsibilidade, em termos de comportamento, que existe entre duas pessoas - e, por esta razão, segundo dados mais recentes, os atletas capazes de formar um vínculo próximo com seus treinadores são mais propensos a sentirem-se seguros, desafiando seus limites e assumindo riscos para melhorar sua performance.

A demonstração de cuidado, a comunicação efetiva, bem como um comportamento consistente e transparente tem surgido, assim, como pilares para a construção de relacionamento. A criação de oportunidades para os atletas, tem surgido igualmente, como uma pedra angular da liderança efetiva.

Os Atletas esperam igualdade de oportunidades, atenção direcionada e comprometimento com o seu sucesso pessoal e da equipa.

O lado "ingrato" de tudo isto é que, o Treinador, precisa estar muito centrado em si próprio e na sua missão para, em simultâneo, gerir todo o seu processo emocional... e o do seu plantel, com todas as especificidades únicas de cada sujeito que transporta.

Parece, de facto, uma "missão impossível"...

Quase que poderíamos considerar que sim, contudo (e felizmente), algum Treinadores "teimam" em mostrar-nos que é possível, pelas relações únicas que estabelecem com os seus atletas/equipas e pelos resultados que estas mesmas alavancam.

Por onde começar?

Leonardo Jardim e Kylian Mbappé

Leonardo Jardim e Kylian Mbappé

VALERY HACHE/GETTY

Boa pergunta.

O processo inicia-se, inevitavelmente, pela ATIVAÇÃO DA CURIOSIDADE dos TREINADORES que, não obtendo informação suficiente nos cursos que frequentam (onde recebem pouquíssimas horas no que respeita a Ciências do Comportamento Humano - Psicologia), devem procurar outras fontes de formação/informação (como, por exemplo, um artigo redigido há largos meses neste mesmo espaço).

A literatura científica abunda nesta área e as obras biográficas também (por vezes, transportam conhecimento relevante). Existem já cursos de aprofundamento e, em alguns casos, acompanhamento individualizado (que deverá ser efetuado por um especialista - e não por um "curioso").

Acima de tudo, o "caminho faz-se caminhando", pelo que, o principal acelerador deste processo será, integrar no seu dia-a-dia que, também da SUA RESPONSABILIDADE, é a criação de RELAÇÕES DE CONFIANÇA e de IGUALDADE DE OPORTUNIDADES, no que respeita AO DESENVOLVIMENTO E OTIMIZAÇÃO DAS CAPACIDADES DOS ATLETAS.

Garantidamente que, os níveis de satisfação e commitment irão elevar-se e, com isto, uma maior probabilidade de atingir o "potencial real" da sua equipa.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)