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Maria João Xavier

Maria João Xavier

Ex-jogadora de futebol

A estreia do Sporting na Liga dos Campeões... feminina

Maria João Xavier

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Terça-feira, 22 de agosto, o Sporting Clube de Portugal tornar-se-á o quinto clube português a disputar a Liga dos Campeões feminina (UEFA Women's Champions League - UWCL), quando entrar em campo, em Budapeste, Hungria, pelas 17h locais (16h em Portugal continental).

Antes, Portugal esteve representado, desde a primeira edição - 2001/2002, ainda designada Taça UEFA feminina e cuja denominação só mudou para a atual na época 2009/2010 - por quatro clubes.

Primeiro, em 2001/02, pelo Gatões Futebol Clube. Das épocas 2002/03 até 2012/13, foi a SU 1º Dezembro a representar as cores portuguesas, tendo até a oportunidade de realizar dois mini-torneios de qualificação na zona de Sintra (2004/2005 e 2011/2012).

Seguiu-se o Clube Atlético Ouriense, nas épocas 2013/2014 e 2014/2015, tendo na última participação a equipa de Ourém alcançado o apuramento inédito para a fase a eliminar (16 avos de final), ao conquistar o primeiro lugar do mini-torneio realizado em Portugal.

Nas últimas duas épocas (2015/2016 e 2016/2017), Portugal esteve representado pelo Clube Futebol Benfica, apenas na fase de qualificação.

É chegada a vez do Sporting Clube de Portugal ser o representante português nesta competição, que não tem comparação em termos dos milhões de euros da vertente masculina, mas cujos proveitos ao longo das várias eliminatórias não são de desprezar e muito podem contribuir para reforçar os orçamentos das equipas, permitindo outros sonhos e aventuras - por cada eliminatória, a UEFA atribui aos clubes €20 mil; para o finalista €200 mil e para o vencedor €250 mil.

A equipa feminina do Sporting para 2017/18

A equipa feminina do Sporting para 2017/18

DR

O Sporting está inserido no grupo 8 e terá como adversários:

- BIIK-Kazygurt, do Cazaquistão, 2º cabeça de série do pote 1, das equipas com melhor ranking;
- MTK FC, da Hungria, 2º cabeça de série do pote 2 e anfitrião do mini-torneio de qualificação;
- Hajvalia, do Kosovo, 1º cabeça de série do pote 4, equipas com menor ranking.

O Sporting foi sorteado a partir do pote 3. Não se pode dizer que tenha sido um sorteio que permita esperar facilidades. Pior só se tivessem saído os primeiros cabeça de série dos potes 1 e 2.

Também é verdade que isto de rankings por vezes não traduz a real capacidade das equipas, mas a realidade é que o Sporting Clube de Portugal vai ter que se aplicar a fundo para escrever mais uma história de sucesso do futebol feminino nacional e que deseja que se concretize: o apuramento para os 16 avos de final num mini-torneio jogado fora de Portugal.

A equipa do Cazaquistão na temporada passada alcançou os oitavos de final, tendo sido eliminada pelo finalista vencido da final de 2017, o Paris Saint-Germain. Não deixa de ser um dado a reter. Antes, eliminou o Verona nos 16 avos de final. Será esta a equipa que irá apadrinhar a estreia do Sporting na UWCL, a partir das 17h (hora húngara, mais uma que em Portugal continental).

O MTK, a equipa húngara que regressa este ano a esta competição depois da ausência na época passada, tem um registo de algumas passagens aos 16 avos de final em várias edições anteriores. Esta equipa esteve presente em Portugal, na edição 2011/2012, no mini-torneio organizado pela SU 1º Dezembro, mas poucas semelhanças deverá ter com a equipa de então.

Sem desprezar a equipa do Kosovo, acredito que estas serão as duas equipas a que o Sporting Clube de Portugal terá que ter mais atenção. A sequência dos jogos pode favorecer a equipa portuguesa, uma vez que começa pelo (teoricamente) adversário mais difícil, mas onde a capacidade física, a concentração e a motivação estarão no seu auge.

Estes mini-torneios são sempre de um enorme desgaste físico, dada a intensidade a que os jogos são disputados, grande parte das vezes debaixo de um sol abrasador e com pouco tempo de pausa entre os jogos seguintes. Ainda assim, pela primeira vez, o intervalo entre os jogos é de três dias, o que vai permitir mais tempo de recuperação e preparação para o jogo seguinte.

As francesas do Lyon venceram a Liga dos Campeões feminina em 2016/17

As francesas do Lyon venceram a Liga dos Campeões feminina em 2016/17

JAVIER SORIANO/GETTY

Terá o Sporting Clube de Portugal capacidade e argumentos para fazer história? Acredito que sim, mas bem mais relevantes que a minha crença são as contratações efetuadas no defeso. Não tenhamos dúvidas que o reforço da equipa visou fundamentalmente a competição externa e a possibilidade de ir construindo uma equipa virada para o crescimento a nível europeu.

Naturalmente que as competições internas serão sempre prioridades a reconquistar mas não tenhamos ilusões: as próprias palavras do Prof. Nuno Cristóvão, treinador do Sporting, quando deixou a SU 1º Dezembro, foram elucidativas: “Para regressar ao futebol feminino só se for para uma equipa que possa lutar por estar entre as 8 melhores da Europa”. A construção deste plantel vira-se nitidamente para este objetivo. Não será esta e provavelmente a próxima época que lá chegará, mas o caminho é este.

Do atual plantel do Sporting Clube de Portugal várias jogadoras têm experiância do que é jogar um mini-torneio de qualificação e até mesmo os dois jogos da fase a eliminar (Joana Marchão e Diana Silva, no Ouriense, e Ana Borges, no Chelsea). Além destas, o Sporting Clube de Portugal conta ainda com a experiância nestas andanças de Patrícia Morais, Matilde Fidalgo, Fátima Pinto, Solange Carvalhas, Patrícia Gouveia e Ana Capeta (ainda muito jovem quando ingressou no Clube Atlético Ouriense).

Com as contratações da Ana Leite, Carlyn Baldwin (internacional sub-20 pelos EUA), Carole Costa, Carolina Venegas (internacional AA pela Costa Rica), a permanência da Ana Borges (a títulodefinitivo), a manutenção da quase totalidade do plantel que tão boa conta de si deu na época deregresso ao futebol feminino nacional, a integração de atletas da equipa sub-19 (que também conquistou todas as competições femininas do respetivo escalão) e outros ingressos (aparentemente menos sonantes mas que garantidamente são uma mais valia para a equipa), pode-se dizer que o Sporting tem todas as condições para poder sonhar e poder seguir em frente, apresentando-se com uma panóplia de alternativas para várias posições, permitindo soluções para os problemas que lhes possam surgir, interna e externamente.

Adicionalmente, foram várias as jogadoras do Sporting que estiveram presentes no último Euro-2017 com a seleção portuguesa e que puderam desfrutar do que é jogarem ao mais alto nível. Toda a experiência adquirida e acumulada individualmente terá o seu reflexo no contexto da estratégia de equipa.

Não haverá melhor altura que esta que se vive atualmente no nosso país para manter o futebol feminino na agenda diária da comunicação social. Ainda estão bem frescas as memórias da nossa presença no Euro-2017.

Por tudo isto, terá o Sporting Clube de Portugal capacidade e argumentos para fazer história? Eu digo que sim! Que role a bola e que mais uma história de sucesso do futebol feminino nacional possa ser escrita. Boa sorte, porque qualidade não falta!

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