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O ténis é complexo, frustrante, justo, livre - e é lindo

O editor de desporto do Expresso escreve sobre um desporto que dá tempo aos atletas para que estes se regenerem e reciclem, e sobre um mundo sem cláusulas, fiteiros, feito de silêncios e de recomeços. E em que o melhor é de facto o melhor

Pedro Candeias

Scott Barbour

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O ténis pode ser um jogo particularmente frustrante, como o são todos os desportos individuais, mas este tem as peculiaridades extra de uma modalidade de um contra um que é pouco amiga da execução. Vejamos: duas almas fazem de algo semelhante a uma pá de padeiro (daí a prosaica padeirada) uma extensão dos seus próprios braços, batem numa bola que tem o peso de uma pilha por cima de uma rede, fazem-na cair dentro de um espaço rectangular com o controlo, precisão, potência e o engenho necessários para antecipar ou enganar o adversário.

É neste encontro entre a física e a biomecânica que se somam os pontos para progredir no encontro, no torneio, no ranking – e, consequentemente, na vida.

Por outro lado, o ténis desgasta e mói a cabeça, e a bem da taxa de sucesso convém jogá-lo isoladamente, cada ponto como se fosse o primeiro ponto do primeiro jogo alguma vez disputado, relativizando a euforia do ás ou a melancolia da pancada falhada segundos atrás.

Mas – e aqui está o truque – tudo isto se faz sem esquecer os outros jogos e os outros pontos disputados no passado. Porque a isso se chama ter experiência.

Negociar constantemente com as memórias é um exercício matreiro, e partir do zero após cada winner ou erro não forçado deve ser ainda mais complicado do que parece. Recomeçar é sempre difícil em qualquer contexto ou circunstância, e o ténis também é uma história de recomeços.

De muitos recomeço. Como estes:

Jennifer Capriati foi uma menina prodígio que ganhou os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 com 16 anos e depois se perdeu na depressão e nas drogas para mais tarde, bem mais tarde, voltar e vencer o Australian Open (2001 e 2002), Roland Garros (2001) e chegar a número 1 do ranking.

Bob Martin

Andre Agassi conquistou Wimbledon (1992), o US Open (1994) e o Australian Open (1995), lesionou-se, experimentou cristais de metanfetaminas, caiu para o fosso e subiu novamente a hierarquia entre 1998 e 2003, com outros três Australian Open, um Roland Garros e o segundo US Open.

Kim Clijsters retirou-se em 2007, foi mãe, voltou aos courts para torneios de exibição, convocou uma conferência de imprensa para anunciar o regresso à competição, recebeu um Wild Card para o US Open de 2009 – e ganhou-o.

Juan Martin Del Potro venceu o US Open em 2009, tinha ele vinte anos, e a partir daí a coisa correu mal: uma lesão no punho e depois no outro punho, consecutivas cirurgias para o reparar, regressos deprimentes até que, em 2016, chegou à final dos JO do Rio de Janeiro. Perdeu para Andy Murray, mas estava de volta ao jogo e posteriormente conquistou a inédita Taça Davis pela Argentina.

É verdade que Björn Borg ensaiou o mesmo quando decidiu sair do pousio e nada lhe correu bem, mas por cada Borg há um Goran Ivanisevic. Ou um Rafa Nadal. Ou um Roger Federer. Ou uma Maria Sharapova.

Por três múltiplas razões diferentes mas com um elemento comum – lesões, lesões e velhice, e doping e lesões – Nadal, Federer e Sharapova foram dados como acabados. E, no entanto, ei-los de volta.

Elsa

O espanhol é o número um do mundo outra vez, três anos depois da última vez.

O suíço joga melhor agora do que antes, quando já era o melhor de sempre, o que o torna inqualificável – pode dizer-se de um homem que ele é o melhor da história em dois tempos diferentes?

A russa derrotou no outro dia a candidata a número 1 (Simona Halep) no US Open, após uma paragem prolongada por castigo. E fê-lo à maneira dela, um cisne negro vestindo um gracioso equipamento incrustado de diamantes Swarovski.

Clive Brunskill

A diferença do ténis para o futebol é que dá tempo aos atletas para se reciclarem e se regenerarem, porque o desporto não vai a lado nenhum sem eles ou quando eles não estão. Não há compras. Não há vendas. Não há empréstimos. A idade é um posto e joga-se para lá dos trinta. Não sendo perfeito, o ténis é a única modalidade em que uma mulher (Serena Williams) está no top 50 dos atletas que mais recebem. Aqui também ninguém vai pagar uma cláusula de rescisão ou abortar um negócio por capricho ou por ganância. Há silêncio, a tecnologia limita os erros ao máximo, os fiteiros são raros tal como são os que insultam o árbitro. O fair play está cristalizado nos hábitos dos jogadores, quando pedem desculpa por uma bola que bateu caprichosamente na rede. E é um contra um, sem clubes nem agentes, tudo mais justo e tudo possível.

Graham Denholm

Um tipo pode sair quando quiser e voltar quando quiser e qualquer um é livre de tentar a sua sorte - Redfoo, o ex-namorado de Azarenka e parte excêntrica banda LMFAO, chegou a participar em torneios, muito cabelo e pouco jeitinho, por achar ter capacidades para ser profissional. Fê-lo por amor a um jogo incrível.

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