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Expatriação e futebol: quando a capacidade de adaptação se transforma no elemento de sucesso

Ana Bispo Ramires

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A poucas horas de terminar a janela de transferências entre clubes, as equipas começam a ficar com os seus plantéis fechados... pelo menos, até à nova abertura de mercado, em janeiro.

Clubes investem as suas reservas (poucas ou muitas) na contratação “daquele” atleta que irá fazer a diferença na época que se inicia... e o “jogo das expectativas” começa.

De fato, de parte a parte, atletas e clubes/treinadores, na data da assinatura do contrato criam uma “ilusão” acerca do que irá acontecer nos meses (dias!) que se seguem... ilusão essa que, muitas vezes, depressa cai por terra.

Em boa verdade, o que se encontra “em jogo” são as expectativas que o atleta cria e a vida que se idealizou versus o que, de fato, começa a acontecer e, QUANTO MAIS DEPRESSA SE FIZER o AJUSTAMENTO ENTRE EXPECTATIVA e REALIDADE, mais rapidamente se poderão aproximar de uma “nova realidade”, agora já construída sobre uma base mais sólida - que, mais não é do que o tempo de adaptação que o atleta necessita.

Muito frequentemente, compram-se atletas que marcam 30 golos num campeonato e, de parte a parte (atletas e treinadores/clubes), cria-se a expectativa de que, quase de imediato, o atleta irá demonstrar todo o seu valor, justificando o investimento realizado.

Contudo, nem sempre acontece.

Adaptação a um novo treinador, um novo balneário, um novo estatuto (ou falta dele..) no balneário, um novo estilo de vida (com mais ou menos liberdade ou mais ou menos mobilidade), à ausência física (pelo menos inicial) das suas figuras de referência e da sua rede de suporte social, a necessária adaptação ao clima (calor, humidade, frio...), à alimentação e às nuances (por vezes, fraturantes) entre culturas... tudo isto ocorre, em simultâneo, com uma necessidade cada vez mais manifesta de "validação" e desejo de não deixar escapar uma única oportunidade.

Trata-se, por assim dizer, de um GIGANTE DESAFIO de ADAPTAÇÃO (para alguns, vivido como se da própria ‘sobrevivência’ se tratasse) que, muito frequentemente se transforma num ‘pequeno cocktail Molotov’... o qual, uma minoria (porque de quem desiste não se fala..) consegue superar.

A expatriação, enquanto fenómeno social e desportivo tem sido, já há alguns anos, bastante discutida e, sem surpresa, tem-se revelado um fenómeno complexo, influenciado por muitos eventos, expectativas, condições e pressões que afetam a rede de suporte e capacidade do individuo em se ajustar à nova realidade.

Manter níveis de performance ótima, em contexto de expatriação, principalmente quando se trata de jogadores jovens (rever "Quando os golden boys se transformam em shadow boys") torna-se, por isso, uma tarefa desafiante.

Renato Sanches está no Bayern de Munique desde o início da época 2016/17

Renato Sanches está no Bayern de Munique desde o início da época 2016/17

Thananuwat Srirasant/Getty

A questão subjacente não está, de fato, associada aos "créditos desportivos" dos atletas que, invariavelmente, foram sobejamente reconhecidos no passado mas sim, às suas COMPETÊNCIAS DE ADAPTAÇÃO e de VIDA que, não tendo sido "testadas" e/ou treinadas em contexto "interno", acabam por se revelar uma espécie de "jogo de roleta russa", cuja taxa de ÊXITO RESULTA da CONFLUÊNCIA ALEATÓRIA de um CONJUNTO DE CARACTERÍSTICAS DE PERSONALIDADE do atleta e da CAPACIDADE DE RECECIONAR O ATLETA, por parte do clube, reconhecendo a sua condição de expatriado.

A CAPACIDADE DE MANTER A CONFIANÇA, LIDAR COM ANSIEDADE ou RAIVA e MANTER SEU FOCO, quando tudo muda à sua volta e a capacidade de prever o que quer que seja (o comportamento de outros, do clube, a reação do corpo ao treino, ao frio, ao calor... entre tantas outras) é francamente diminuta, revelam-se fundamentais para que a qualidade desportiva do atleta se possa manifestar.

Precisa-se, por isso, que CLUBES E TREINADORES apostem fortemente na criação de PROGRAMAS DE APOIO E OTIMIZAÇÃO DE ATLETAS EXPATRIADOS, garantindo-lhes o máximo equilíbrio e estabilidade possíveis para que, de forma muito rápida, o atleta se possa concentrar apenas no aspecto desportivo e, ainda, que os ATLETAS evoluam na sua ambição e compreendam que o fenómeno do (seu) sucesso resulta, para além dos aspetos desportivos, de um conjunto de COMPETÊNCIAS de ADAPTAÇÃO e de VIDA, não menos importante.

Atletas, Clubes e Treinadores devem, por isso, considerar esta condição, por forma a fazer o devido PLANEAMENTO da mesma, GARANTINDO com isso, MAIORES CONDIÇÕES DE SUCESSO.

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