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Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Meu caro Augusto Inácio

Nicolau Santos

LUCILIA MONTEIRO

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Estando eu de férias chegou-me a informação de que no programa televisivo de desporto em que colabora afirmou que eu era anti-Sporting e anti-Bruno de Carvalho. Não sei de onde lhe veio a justificação para tais afirmações, mas deixe-me lembrar-lhe desde já que quando você foi despedido de treinador de Sporting, depois de nos ter dado um título que nos fugia há 18 anos, eu escrevi um texto defendendo-o e dizendo que só pelo que tinha feito merecia continuar à frente da equipa em toda a época seguinte.

Mais. Para mim, o Sporting não pode ser só Esforço, Dedicação, Devoção e Glória. Tem de ser também Gratidão. Gratidão para os que melhor o servem. Gratidão para os o engrandecem. Gratidão para os que dão alegrias aos milhões de sportinguistas espalhados por todo o mundo. Gratidão para os que tem orgulho em vestir uma camisola com o símbolo do leão. Gratidão para os que estão dispostos a, com sangue, suor e lágrimas, elevar mais e mais o nome do clube.

Ora você é uma dessas pessoas. Está inscrito a letras de ouro na história do Sporting e no coração dos sportinguistas. E todos lhe devemos o que fez, numa época que começou com um tal de Materazzi a treinador e que ia levar a equipa principal de futebol a caminho de um novo colapso até que foi despedido e você surgiu como solução de recurso. Uma equipa que tinha o fabuloso Schmeichel na baliza e que se reforçou a partir de janeiro de 2000 com César Prates, um veloz defesa direito, com André Cruz, um defesa central que marcava belos golos de livre, e com Mpenza, um extremo direito vibrante – que se vieram juntar ao virtuosismo de Pedro Barbosa, a Rui Jorge, Delfim, Vidigal, Duscher, De Franceschi, Ayew, Yordanov, Toñito e o inesquecível Beto Acosta, o matador que arrumou com o FC Porto em Alvalade, na sequência de um passe fatal do defesa portista Secretário.

Vibrei, vibrámos todos, a nação sportinguista com esse inesquecível triunfo que acabou com um doloroso jejum de dezoito anos sem o título principal do futebol português. E você, meu caro Augusto Inácio, foi quem conseguiu a proeza, liderando esse grupo magnífico de jogadores. Mas só um grupo magnífico de jogadores não chega, como todos sabemos. É preciso um comandante que faça de um grupo magnífico de jogadores uma equipa temível. Foi isso que você fez. E todos os encómios não são de mais para lembrar esse feito e para lhe agradecer do fundo do coração.

Ora 17 anos depois está você na posição de comentador desportivo, depois de ter sido afastado do cargo de director desportivo do Sporting para onde tinha sido convidado por Bruno de Carvalho e continuo eu como jornalista e ocasional comentador da seleção ou do “meu” Sporting – e vem você dizer-me que eu sou anti-Sporting e anti-Bruno de Carvalho.

Lucília Monteiro

Pois em verdade lhe digo que não sou uma coisa nem outra. Desejando que o Sporting volte a ganhar o campeonato estou eu há muitos anos. Tenho essa dívida para com o meu filho, que em 31 anos de vida só viu o Sporting ganhar o título por duas vezes – e o último já foi há bastantes anos. Não sei se você entende que quem critica o presidente do Sporting é anti-Sporting. É uma ideia um bocadinho redutora porque o Sporting tem mais de um século de idade e por lá passaram presidentes que foram muito criticados por distintos sportinguistas. Suponho que não preciso de lhe lembrar o que disse Bruno de Carvalho de Godinho Lopes. Espero, por isso, que não confunda o Sporting Clube de Portugal com os seus presidentes. A instituição está acima de quem ocasionalmente a lidera, por mais que exerçam uma brilhante presidência. O FC Porto não é Pinto da Costa, apesar dos anos que leva à frente do clube. Nem Luis Filipe Vieira é o Benfica.

Acresce que ao contrário dos epítetos que me dirigiu – anti-Sporting e anti-Bruno de Carvalho – não estou seguramente na primeira categoria e também não me enquadro na segunda. Estou farto de realçar o sentimento de orgulho e crença que o presidente trouxe de novo aos sportinguistas: o estádio com assistências sucessivas acima dos 40 mil espectadores; a expansão internacional do clube; a construção do pavilhão João Rocha; a melhoria da situação financeira e as boas negociações com os bancos; a contratação de bons treinadores; e o notável crescimento das modalidades amadoras, com múltiplos títulos conquistados.

Dito isto, não assino por baixo tudo o que Bruno de Carvalho faz: a instabilidade relativamente às equipas técnicas (vamos no quarto treinador nesta presidência); a abertura de processos a antigos dirigentes; a linguagem excessiva que, não raro, utiliza; e o facto de apesar disto tudo, durante os seus mandatos Bruno de Carvalho ter conquistado apenas uma Taça de Portugal com Marco Silva (que despediu logo a seguir) como treinador: e uma Supertaça, por Jorge Jesus, logo no primeiro ano em que chegou a Alvalade. Convirá que é pouco. Acho que estamos no bom caminho. Mas é pouco.

Portanto, meu caro Inácio, não sou anti-Bruno de Carvalho e obviamente não sou de todo anti-Sporting. Nasci e vou morrer do Sporting, uma tradição que vai na quarta geração na minha família. Fui sócio do Sporting de Luanda desde os seis anos e atleta de ginástica e de atletismo; e cá sou o sócio nº 18865 com lugar cativo o Estádio de Alvalade. Convirá que face a estes dados é incongruente eu ser apelidado de anti-Sporting.

Uma última nota: foi o João Gobern que disse que eu me tinha pronunciado sobre a contratação do Acuña. E foi a partir daí que você elaborou a sua diatribe contra mim. Ora o que é mais curioso é que eu, tanto quanto me lembro, não escrevi uma única linha sobre a contratação do Acuña ou o que ele custou. O que ainda tornam mais incongruentes as acusações que me faz.

Dito isto, eu continuo-lhe muito grato pelo título de campeão de futebol 1999-2000. É isso que fica para a história do Sporting Clube de Portugal. E espero no final desta época comemorar consigo a conquista de um novo título.