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A parábola de santo André (Almeida)

De como o caminho mais curto para a baliza pode não ser a linha recta ainda que bola seja redonda

Rui Cardoso

André Almeida, lateral direto do Benfica

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

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Naquele tempo, andando Jesus com seus discípulos pela Galileia, chamou-os e disse-lhes:

- “Irmãos, em verdade vos digo, y=ax2+bx+c, sendo a menor que zero e b diferente de zero.”
- “Senhor, que é isto”, perguntou Pedro.
- “É uma parábola”, respondeu Cristo.

Foi exactamente esta edificante história bíblica que me veio à cabeça quando o grande André Almeida fez a bola descrever uma parábola com a concavidade voltada para baixo que terminou no fundo da baliza do Portimonense ao minuto 79. A Luz veio abaixo, com a mesma força com que gelou sete minutos depois, quando os algarvios fizeram o golo do empate, ainda que, conforme confirmaria o videoárbitro, em fora de jogo.

Raio de jogo o de sexta-feira à noite! Vai um cristão à bola à espera de uma vitória tranquila e dilatada, e sai-nos aquilo… Uma primeira parte soporífera e uma segunda parte imprópria para cardíacos. Dizem-me os meus amigos sentados junto à baliza norte que houve pelo menos um adepto já não muito novo que teve de ser levado de maca pelos bombeiros.

Já tinha visto desafios em que se perde por causa do guarda-redes. Outros que correm mal por a defesa ser um furo. Há ainda aqueles em que o meio-campo não constrói jogo ou os avançados acertam em todas as partes da linha de fundo menos na baliza. Desta vez não havia uma alminha vestida de vermelho que desse ideia de ter pelo menos uma ideia sumária do que estava a fazer dentro do campo.

Saí desesperado da Luz, só me lembrando da canção de Sérgio Godinho que fala em “afogar as dúvidas num mar de cerveja”. Mas sábado voltei a sentir-me invadido pelo optimismo. É impossível jogar pior do que aquilo, pelo que só há margem para melhorar, nomeadamente terça-feira com o CSKA na abertura da Liga dos Campeões.

Recomendo ao nosso estimado treinador algumas pequenas alterações. Se Grimaldo continuar preso por arames não será preferível adaptar Cervi a defesa esquerdo que, pelo menos, é rápido e móvel, qualidades que o estimável e esforçado Eliseu à evidência não tem? Não seria altura de começar a experimentar Krovinovic no meio-campo? É que se ele fizer o que fazia no Rio Ave o ano passado é capaz de dar jeito.

Convém arranjar alguém que faça dupla com Pizzi no meio campo e comece a construir jogo lá atrás, já que não se foi repescar Gaitán ao mercado. E, no que respeita à defesa, ou se aposta em alguém da Equipa B (de onde, afinal, vieram Ederson, Lindelof e Nelson Semedo) ou talvez valha a pena repensar se foi sensato não ter ido buscar novamente Ezequiel Garay, por muito caro que ele fosse. Duas ou três derrotas seguidas – que o diabo seja surdo além de cornudo – e as bancadas da Luz a esvaziarem é capaz de sair muito mais caro…

Mas haja calma. O vizinho da Segunda Circular que não tem lições a dar em matéria de interferência dos videoárbitros passou a jogar uma modalidade em que o jogo só termina quando eles marcam. Mais a norte Sérgio Conceição tem feito um trabalho irrepreensível mas a manta de que dispõe parece curta e, sobretudo, ainda não foi verdadeiramente posta à prova. Sê-lo-á esta semana com a recepção ao Besiktas e a deslocação a Vila do Conde.

Para o jogo de sábado no Bessa façamos nosso o lema do grande Fernando Cabrita: “Vamos a eles que nem Tarzões!” E já agora voltemos à essência do futebol: marcar golos! Não têm que ser precedidos da jogada mais bonita do mundo nem de quatro tabelinhas, uma simulação e um túnel. Biqueiros na bola na direcção da baliza que alguma há-de entrar. E daqui por dois meses estaremos a rir-nos das aflições actuais.