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Da banalidade do jogo e do discurso

A derrota histórica em Basileia (5-0) pôs a nu os maiores problemas do Benfica 2017-18, que perdeu muitos jogadores, é verdade, mas isso não justifica as exibições e as palavras fracas

Pedro Candeias

ARND WIEGMANN/REUTERS

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O Benfica é tetracampeão porque foi objetivamente mais forte que FC Porto e Sporting em quatro épocas seguidas: em 2013-14 e 2014-15 com Jorge Jesus, e em 2015-16 e 2016-17 com Rui Vitória, e venceu os títulos com sete, três, dois e oito pontos de vantagem sobre os adversários. Ou seja, só no primeiro e no último anos do tetra é que o Benfica acabou com uma margem confortável que duas vitórias podem dar; ainda que, na última temporada, esse descanso só tenha chegado nas três derradeiras jornadas, quando o Porto empatou com o Marítimo (1-1) e perdeu com o Moreirense (1-3).

Outra vez: o Benfica é tetracampeão porque foi objetivamente melhor que FC Porto e Sporting em quatro épocas seguidas - mas nunca os dominou. Em comparação, o Porto foi campeão com sete, onze, treze, oito e oito pontos à frente dos rivais nos anos do ‘penta’, entre 1994 - com a vitória a valer ainda dois pontos - e 1999.

Isto quer dizer que o Benfica superou os adversários nos detalhes, que na maior parte dos casos são os jogadores. Ou seja, o Benfica teve consecutivamente melhores equipas do que o FC Porto e do que o Sporting, tal como o FC Porto já teve consecutivamente melhores equipas do que o Benfica e do que o Sporting.

E isto é poder e o poder inebria e alucina, faz-nos acreditar na infalibilidade e na intocabilidade, coisas como “se ganhámos antes, vamos ganhar outra vez”. O poder também relativiza a sorte, ou melhor, reclama-a porque a sorte protege proverbialmente os audazes e o azar castiga os incapazes. Sobretudo, e concluíndo, o poder parece uma certeza assim que se começa a prolongar no tempo.

Só que nada é eterno, poder ou sorte ou dinheiro, e quando se arrisca e se vendem os melhores futebolistas e não se encontram soluções semelhantes, é provável que a história corra mal. E culpa é de quem? Da Benfica SAD, que gere as contas, da prospeção, que não descobre novos talentos de rendimento imediato, ou de Rui Vitória, que se dá por satisfeito e não refila com o que lhe passam para a mão?

Quando Luís Filipe Vieira diz que Vitória está alinhado com os princípios do clube, o que ele também está a dizer é que Vitória é um bom empregado, que faz o que lhe pedem. Mas um bom empregado não é necessariamente um bom treinador, porque um bom treinador deve desconfiar do empregador, espernear para sacar mais alguns cobres e tentar contratar aquele futebolista para manter o status quo. Já agora, Domingos Soares Oliveira, o homem dos cifrões do Benfica, confessou haver margem para reforços, pelo que se não apareceram, foi porque se acordou entre técnico e dirigentes que o plantel chegava para as encomendas.

Pois, pelo que se tem visto, não chega.

Outra leitura é que algo vai mal na Luz. Há alguns indícios: as sucessivas lesões e a reformulação no departamento médico que não as resolve; a despromoção de Nuno Gomes no departamento da formação e a posterior saída do clube por sentir-se desconsiderado por Domingos Soares de Oliveira; os contínuos milhões em vendas que não têm um reflexo simétrico no abate da dívida; as críticas de Rui Gomes da Silva a Rui Costa e a outros vice-presidentes; e a qualidade do treinador, que antes já foi antes posta em causa pelos dirigentes.

De modos que é assim.

Rui Vitória prometeu um upgrade tático para 2017-18, algo que se parecesse mais com ele do que com Jorge Jesus, porque, convenhamos, o 4x4x2 do Benfica de Vitória é demasiado parecido com o 4x4x2 do Benfica de Jesus para ser uma mera coincidência.

Só que esse upgrade não aparece e o Benfica lá continua com os quatro defesas, os dois médios, os dois extremos, e os dois avançados. O problema é que alguns jogadores são piores do que os de 2016-17, e os outros estão piores do que em 2016-17.

Esta forma de jogar à bola é arriscada, porque expõe a defesa e o meio-campo, proporcionando buracos variados em vários lugares, buracos que têm de ser tapados com movimentos coletivos que dependem da inteligência e da qualidade do jogador - e do treino.

O que se viu em Basileia foi deprimente, porque a exibição medíocre dos encarnados fez de jogadores como Oberlin, por exemplo, um craque como Cristiano Ronaldo a cortar uma bola na defesa, a correr furiosamente por ali fora até pôr a bola por baixo do corpo do caído Júlio César.

E perante este resultado desastroso, montado metodicamente sobre erros individuais e coletivos, Rui Vitória nada fez a não ser trocar este por aquele, à espera que um imprevisto qualquer desse uma linha de vida à equipa comatosa.

E, depois, na flash interview e na conferência de imprensa, não falou de futebol, nem de tática, que não era ali que se falava “dessas coisas”, nunca é, aliás, e resumiu outra vez este jogo simples no objetivo, mas complexo no processo, a um chorrilho de banalidades e de frases de auto-ajuda.

O.k., vamos trabalhar.
O sol que vai voltar a brilhar.
A vida que põe obstáculos que têm de ser ultrapassados.
Os campeões que têm de mostrar a fibra de que são feitos.
A cabeça que não se mete na areia.
A luta pela vida até à exaustão.

Rui Vitória, cheio de fleuma e exímio na gestão dos egos e das peculiaridades de um balneário onde milionários convivem com novos ricos e miúdos a querer subir na vida, banaliza sistematicamente o discurso futebolístico e isso fá-lo parecer alheado da realidade - e, pior do que isso, dá a sensação de estar num lugar que não é o dele e que está ultrapassado pelas circunstâncias.

O que não é inteiramente verdade, porque um treinador que conquista dois campeonatos tem, mais do que não seja, o mérito de ter conquistado dois campeonatos.