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Adversidade e frustração: uma oportunidade de transformação

Ana Bispo Ramires

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Uma das mais famosas expressões de Einstein diz-nos que a ADVERSIDADE permite ao Homem CONHECER-SE A SI PRÓPRIO e, na realidade, a nossa resposta (ou conjunto das nossas respostas) a algo que nos frustra, acaba por ir definindo a nossa” essência”.

Em boa verdade, a existência de um contratempo/adversidade na direção de algo que desejamos, cumpre dois objetivos:

· testar a nossa convicção, por outras palavras, se queremos efetivamente atingir algo ou se ainda estamos na fase do "queríamos querer", logo, incapazes de operar as mudanças necessárias para o atingir;

· confrontarmo-nos com uma emoção base (e poderosíssima) que, hoje em dia, por razões diversas, nos é muito difícil lidar com: a FRUSTRAÇÃO.

A diferenciação que tendemos fazer, na nossa cabeça, entre "emoções boas" (ex: alegria) e "emoções más" (ex: tristeza, raiva, frustração...), em nada ajuda à nossa vontade em aceitar a (necessidade da) sua existência na nossa Vida.

Este facto, naturalmente, encontrou terreno fértil numa imensidão de literatura relacionada com o tema da "felicidade" (ver artigo AQUI) que, por esta razão, ganhou uma gigantesca lista de adeptos... potenciando, exponencialmente, uma imensa multidão de pessoas "adictas" à dita "experiência de felicidade"... de preferência, de forma rápida e indolor.

Cientificamente falando, e usando uma analogia, na realidade, é como se estivéssemos a criar "uma crosta falsa" porque, ao escolhermos não lidar com as nossas emoções negativas, perdemos toda e qualquer possibilidade de reconhecer a sua origem, corrigir processos e, com algum trabalho, anular o poder que irão ter sempre em nós - através de um sem número de pequenos boicotes que vamos atuando no nosso dia-a-dia que nos afastam, inevitavelmente, do nosso "projeto ideal de Vida" (seja lá o que isto for...).

Por esta razão, no contexto do desporto, muitas vezes se refere que “muitos querem ser campeões mas poucos conseguem desenvolver o esforço (continuado) para o ser”.

“Julgo que faz parte da minha personalidade superar coisas, aprender com elas e tornar-me mais forte, seja em termos pessoais ou profissionais. Para ser honesta, agradeço sempre essas dificuldades”, confessa Hope Solo, guarda-redes da seleção feminina de futebol dos EUA, duas vezes campeã Olímpica e campeã do Mundo

“Julgo que faz parte da minha personalidade superar coisas, aprender com elas e tornar-me mais forte, seja em termos pessoais ou profissionais. Para ser honesta, agradeço sempre essas dificuldades”, confessa Hope Solo, guarda-redes da seleção feminina de futebol dos EUA, duas vezes campeã Olímpica e campeã do Mundo

Doug Pensinger/Getty

Como resultado, estamos a “treinar” as gerações futuras numa espécie de “malabarismo” para saltitar de objetivo em objetivo (sempre com ótimos argumentos!), uma vez que a MANUTENÇÃO DE UM OBJETIVO A MÉDIO-LONGO PRAZO, implica necessariamente a MANUTENÇÃO DO ESFORÇO DE FORMA DURADOURA, no “terreno da frustração” o que não é (à primeira vista) uma experiência que se “deseje”.

Em suma, qualquer processo de especialização/otimização/crescimento, implica necessariamente o reconhecimento e integração das emoções ditas “negativas" na nossa existência, pelo que, o CONFRONTO com um CONTRATEMPO, e a FRUSTRAÇÂO daí resultante pode TRANSFORMAR-SE numa INEVITAVEL OPORTUNIDADE.

Este “treino de resistência à frustração”, quanto mais precocemente for iniciado, mais cedo favorecerá o desenvolvimento do que poderíamos chamar de MOTIVAÇÃO INTRINSECA que, comprovadamente, se encontra associada a percursos/carreiras de SUCESSO mais consistentes e duradouras.

Por esta razão, PARTICIPAÇÃO EM ATIVIDADES QUE NECESSITEM de um GRAU DE ESPECIALIZAÇÃO DIFERENCIADO (como sejam o desporto, a dança ou a música, por exemplo) revela ser uma das ALAVANCAS mais favoráveis AO EXERCÍCIO e TREINO desta importantíssima competência que é a RESISTÊNCIA à FRUSTRAÇÃO ou a CAPACIDADE em MANTER o ESFORÇO em contexto “hostil” (hostil, apenas porque estaremos fora da nossa “zona de conforto”).