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No entanto, não obstante, porém, contudo e apesar de tudo, Eliseu é um tipo fiável

O jornal "A Bola" escreve esta terça-feira que Eliseu está de saída do Benfica. Aqui ficam algumas notas sobre a carreira do defesa que ninguém gosta, mas que esteve sempre lá quando foi preciso

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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No entanto, não obstante, porém, contudo e apesar de todos os adversativos aqui expostos e outros que se seguirão, ainda assim, Eliseu é um tipo fiável se fiável é aquele a quem “entregamos alguma coisa sem receio de a perder ou de sofrer dano” - li esta última parte num dicionário. Estranhamente, acho que fiável é o adjetivo certo para esta figura peculiar e aparentemente deslocada do contexto competitivo.

Eliseu tem um generoso e pouco recomendável perímetro abdominal, usa calções envergonhados abaixo do joelho, e sua como quem já correu uma ultra-maratona trail quando na verdade acabou de fazer 10 metros de footing.

Mas o sempre-cansado Eliseu tem 9158 minutos pelo Benfica, 108 jogos pelo Benfica (105 a titular, com 74 vitórias, 16 empates e 18 derrotas), disputou 20 jogos na Liga dos Campeões (18 a titular) pelo Benfica e nunca levou um vermelho pelo Benfica; e Eliseu tem três ligas portuguesas, duas taças da Liga, duas supertaças e uma Taça de Portugal, títulos conquistados pelo Benfica.

Jonas, por exemplo, chegou na mesma altura de Eliseu e tem 10.178 minutos e 114 jogos a titular pelo Benfica, e embora a importância do segundo melhor marcador estrangeiro da história do clube não se possa medir com a do defesa-esquerdo de ocasião, o facto é que os números são próximos.

Mais ainda, e comparando o comparável, Eliseu jogou 31 vezes a titular em 2015/16 na Liga contra as duas de Grimaldo, 12 vezes em 2016/17 contra as 14 de Grimaldo, e esta época só leva menos dois jogos do que Grimaldo no campeonato - seis contra oito. São números muito próximos.

E, como bónus, Eliseu ganhou o Euro2016 onde foi titular contra a Hungria e contra a Polónia, e jogou os quatro jogos da Taça das Confederações - Raphäel Guerreiro ou Coentrão não estavam, mas não se tira o mérito a um tipo de 34 anos, serenamente consciente e em paz com os limites do seu físico, de ter menos lesões do que um puto de 23 na pujança da vida.

Eliseu resistiu a contratações e à concorrência, e a isto se chama fiabilidade e também experiência - todas as equipas precisam disto, sobretudo as grandes equipas.

De alguém que proteja a bola com o corpo e provoque a falta quando não há uma saída airosa que envolva fintar um-dois depois de rodar elegantemente sobre o próprio centro de gravidade e prosseguir em tabelas até à baliza contrária.

De alguém que saiba picar o adversário mais frustrado perante a impossibilidade de ultrapassar uma massa inerte de chuteiras.

De alguém que perceba o conceito de congelar o jogo, mesmo que isso signifique expôr-se ao ridículo.

De alguém que seja exatamente aquilo que se espera dele, sem truques, azias, más ou boas surpresas - apenas o Eliseu que toda a gente conhece, nem mais, nem menos.

De alguém que seja realmente adepto do clube em que joga, porque é importante explicar a história e a responsabilidade a quem chega.

E de alguém que saiba fazer piões com uma Vespa dentro de um espaço apertado como o balneário, porque isso é marketing e o futebol de hoje não vive sem isto.

Talvez por isso, Eliseu disse que tinha “vontade em continuar no Benfica” em novembro. Um mês depois, parece que não vai continuar no Benfica porque o Benfica não lhe renova o contrato que caduca no próximo verão. Ele dirá que não está caduco e provavelmente tentará a sua sorte noutro lado qualquer.