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Resgate Emocional de Portugal? Impacto(s) de um Presidente

Ana Bispo Ramires

Marcelo Rebelo de Sousa nas celebrações da conquista do Europeu

Carlos Rodrigues/Getty

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Portugal encontra-se, atualmente, num dos momentos mais notórios de elevação dos seus níveis de confiança e, um pouco por todo lado, surgem indicadores claros desta mesma realidade (como é o caso dos indicadores de confiança das famílias portuguesas, aferidos com regularidade).

A um Portugal “sombrio” (em plena crise), onde o discurso evidente se centrava na incerteza do presente e na pouca confiança na capacidade de superar tal adversidade sócio-económica (seja do ponto de vista do individuo, das organizações ou do próprio governo), sucedeu-se “este” Portugal, repleto de oportunidades e altamente “apetecível” para o investimento, nomeadamente, o estrangeiro (o que, em boa verdade, já se sabe que não transporta apenas “vantagens”... tal como a “Crise” também espelhou muitas oportunidades).

De facto, a instalação da crise abalou a confiança individual de cada português na sua capacidade de dar respostas às gigantescas exigências, para fazer face às necessidades que a superação da mesma implicava mas, também, e de forma igualmente avassaladora, minou a confiança no “outro”, nas instituições e no próprio governo, no sentido de resgatar o país.

Assistiu-se, acima de tudo, a uma crise de valores, no caso, da Confiança.

Naturalmente, a superação de todos os desafios decorreu do esforço conjunto que, mesmo sem a necessária confiança instalada, todos fizemos para que tudo fosse ultrapassado. Contudo, no meio da crise vivenciada, algumas pessoas foram-se diferenciando com uma mensagem clara de otimismo e confiança nos Portugueses e na sua capacidade de superação – Marcelo foi uma delas.

E, na realidade, quem (genuinamente) passa confiança, RECEBE CONFIANÇA.

Talvez por isso, se tenha destacado (entre uma série de outras nomeações, como foi o caso da personalidade do ano, pelos jornalistas da Lusa) como a personalidade política em quem mais os portugueses confiam, recolhendo 44% dos votos e deixando o “2º classificado” a mais de 30 pontos percentuais.

Estes dados, de um ponto de vista sócio-politico, são merecedores de uma análise aprofundada, uma vez que estamos, possivelmente, a assistir a um movimento social bastante peculiar – como se, afinal fosse possível uma nação acordar de um “estado de decepção crónica” com a classe política (não será a abstenção uma mera tradução da capacidade de cada um em acreditar na credibilidade desta última?), reconstruindo a confiança dos cidadãos face às instituições que os dirigem.

Sabemos de antemão (alguns estudos assim o evidenciam), que a própria transparência, no que respeita à comunicação dos resultados da performance dos políticos, não traduz, por si só, um aumento de confiança, mas antes a manutenção dos níveis pré-existentes, ancorados nas percepções prévias dos cidadãos.

Então o que poderá justificar este aumento e distanciamento dos demais?

Inúmeras causas certamente e, inclusive, alguma possível “boleia” da melhoria da conjetura interna e externa, contudo, há que realçar algumas das características que viriam a ser o mote para a sua designação como o “Presidente dos Afetos”.

A facilidade nos afetos desde sempre caracterizou a atuação do Presidente, contudo, lamentavelmente, 2017 trouxe demasiadas tragédias que acabaram por trazer uma maior (e até internacional) visibilidade ao comportamento do mesmo, no que respeita à sua expressão de afetos.

E, uma vez mais, a “crise” trouxe uma oportunidade (várias, na realidade) que se traduziram num claro romper com uma imagem “fria e desapegada” da classe política face à tragédia “alheia”, que se espelhou num Presidente junto do seu povo onde, num primeiro momento, se SOLIDARIZOU com a DOR e, num segundo, RESPONSABILIZOU as ENTIDADES COMPETENTES na busca de SOLUÇÕES de SUPORTE IMEDIATO.

De facto, a sua atuação parecia saída de um “manual” de gestão de crise onde, em primeira instância é necessário dar o devido suporte emocional às pessoas, para depois nos virarmos para as soluções.

E sim, a parte do “suporte emocional” é completamente diferenciadora neste tipo de eventos e, em boa verdade, só compreende a verdadeira extensão desta afirmação quem, em alguma fase da sua vida tenha enfrentado algo verdadeiramente avassalador do ponto de vista emocional, que se traduza numa vivência real de risco de vida.

Curiosamente, enquanto que internamente houve quem o criticasse considerando que “com abraços e beijinhos” não se resolve nada (o que, por si só, revela uma capacidade de empatia nula, com igual défice em termos de inteligência emocional – o que é revelador do estado de anestesia geral em que muitas pessoas – dirigentes incluídos - andam), em contexto internacional, as suas ações foram evidenciadas como um claríssimo contraponto à atuação “desapegada” e coartada de Trump, face a um conjunto de tragédias que igualmente assolavam o seu país.

2017 deu expressão a um Presidente com uma CONSCIÊNCIA EMOCIONAL e CAPACIDADE EMPÁTICA acima da média, mas em paralelo, deu também expressão à INFINITA CAPACIDADE HUMANA em VOLTAR a CONFIAR, assim hajam indicadores externos que sejam, inequivocamente, claros e consistentes, espelhando um GENUÍNO INTERESSE no e com o Outro.

2017 também evidenciou que os Portugueses são capazes de se unir em movimentos alargados de solidariedade, onde milhares de anónimos se juntaram para minorar as perdas das vítimas, num esforço conjunto para lhes devolver a esperança perdida.

2017 foi, enfim, o ano de Marcelo e dos Portugueses (de muitos deles, pelo menos), onde o Resgate da Confiança foi um dos principais marcos:

Confiança na capacidade individual em superar os constantes desafios do dia-a-dia ou até de uma tragédia, confiança no vizinho ou no estranho que apareceu para ajudar a resolver um assunto quotidiano ou para limpar o que restou da propriedade ardida, confiança na ajuda local e na preocupação global.

Confiar que, afinal, é também um exercício de responsabilização, que gera comprometimento e solidariedade.

Um exercício que, em boa verdade, “veio de cima”, mas precisa ser ATIVADO no QUOTIDIANO de cada CIDADÃO, envolvendo-se e exigindo envolvimento... Pois, só assim se CONSTRÓI CONFIANÇA.

A mudança não virá se esperarmos por outra pessoa ou por algum outro momento. Nós somos os que esperamos. Nós somos a mudança que procuramos.” – Barack Obama