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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Seria uma loucura punir com penálti todas as mãos dentro da área. Sabem porquê?

Uma lição de Duarte Gomes depois das polémicas dos lances dentro da área no Benfica-Sporting

Duarte Gomes

lusa

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O Diabo desceu à Terra

Não acontece sempre, felizmente. Mas aconteceu quarta-feira, no jogo entre os rivais de Lisboa.

O Diabo desceu à Terra, que é como quem diz à relva. E para assinalar, com estrondo, a sua presença, brindou-nos não com um nem com dois… mas com cinco lances de possível/alegada mão na bola e todos bem dentro das áreas!

Já se sabia que o dérbi tinha todos os condimentos para ser vibrante. O que não se sabia é que seria tão fértil em situações tão subjetivas como aquelas.

Esta quarta-feira, em pouco mais de noventa minutos, aconteceu de tudo: dedos, braços, mãos, punhos, antebraços, cotovelos e afins. Como alguém disse meio a brincar, meio a sério, não há quem resista a tanta chuva de meteorito.

Levando agora a coisa para a reflexão que se impõe – menos humorada, mais séria – a verdade é que as situações de “mão na bola/bola na mão” são uma valente dor de cabeça para qualquer equipa de arbitragem.

Recordo o caro leitor que, em dezembro último, discutimos esta questão noutro artigo de opinião aqui plasmado. Na altura, partilhámos convosco o que diz a letra da lei e o que dizem todas as recomendações sobre este tipo de jogadas. Para quem não se recorda, fica a garantia: são vários parágrafos de sugestões sobre como bem punir estas situações.

Mas há algo que a boa vontade do legislador não conseguiu nem consegue contrariar: a enorme subjetividade de análise que decorre de cada uma.

É que, ao contrário de outras infrações (como empurrar, carregar, saltar sobre ou rasteirar), o uso de mãos e braços na bola só é punível quando, no entender do árbitro, o jogador fizer um movimento deliberado. Ou seja, tem de haver um ato voluntário daquele para que se assinale falta.

Mas, bolas, como se mede isso? Como se consegue aferir o que se passa na cabeça de um defesa quando este joga a bola com a ponta dos dedosi?

Será que o movimento que ele fez foi deliberado? Ou o contacto na bola foi apenas fortuito? Será que ele levou o braço deliberadamente em direção à bola? Ou será que foi esta que foi direitinha à mão dele? Será que a posição dos seus braços era a normal para o seu movimento defensivo? Ou será que aqueles ocupavam uma área que não era suposto ocuparem naquele contexto? Será que ele teve tempo de tirar a mão dali? Ou será que não teve?

São perguntas a mais e tempo a menos.

Se, por alguns segundos, conseguirem distanciar-se das emoções e olhar para esta questão com pragmatismo e abertura de espírito, perceberão que estamos perante uma grande chatice. Sabem qual é a maior prova? É que a maioria destes lances não se conseguem decifrar, nem depois de rever o enésimo ângulo, da enésima repetição, do enésimo slow motion.

E se isso é verdade para os adeptos, confortavelmente instalados em suas casas, sem suor, sem adrenalina nem pressão… imaginem para o homem do apito, plantado à flor da relva, com transpiração a escorrer e holofotes na cara? E imaginem como se sentirá o outro árbitro, agora aprendiz de VAR, rodeado de écrãs, pressionado pelo cronómetro, pelo seu colega de campo e pela obrigação ética de ver tudo bem e tudo rápido?

Não é coisa fácil. Acreditem.

Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Bem, mas diagnosticado o problema, há que olhar para as soluções.

De que modo poderia a lei resolver este problema? Que ferramentas poderiam ser encontradas para trazer mais justiça e eficácia a esta questão?
Há quem diga que uma boa ideia seria passar a punir todas as mãos/braços seria uma solução perfeita. Assunto arrumado.

Eu digo que seria uma loucura. Sabem porquê? Porque íamos estar a ser brutalmente injustos para todos os jogadores que estivessem de frente, de lado ou de costas e que vissem a bola bater-lhe nos braços ou nas mãos, sem terem feito qualquer gesto ou movimento nesse sentido. Sem terem culpa. E isso sim, seria injusto. Muito injusto.

Mas pior. Se isso fosse assim, seria bar aberto à batota. Iam crescer as tentativas de “tiro ao alvo”. E vários jogadores perceberiam que picar a bola direitinha para os braços de um defesa seria uma forma bem engraçada de sacar uns penáltis e, quem sabe, uns quantos cartões também. Seria um fartote. E o mais certo era que os jogos passassem a ter 20 penáltis e 50 faltas.

Obrigado, mas não, obrigado.

Querem outra solução mais extremista? Cortar os braços dos jogadores.

Podemos passar à frente?

Não. A verdade é que não há magia nem ilusão que resolva esta questão. E não há, aparentemente, forma exequível de acabar com essa coisa horrível da subjetividade, da interpretação, da leitura que é feita no momento, por quem apita.

Dizem que, se não tem solução, solucionado está.

Ainda assim, não desisto. Por isso, permitam-me as seguintes dicas a quem de direito:

1. Senhores árbitros: estejam particularmente atentos a este tipo de lances, sobretudo aos que ocorrem no interior das áreas (devido às potenciais consequências para o jogo). Antecipem, esperem o inesperado. Estejam particularmente concentrados no um para um ou nos cruzamentos com vários jogadores pela frente. Não receiem em recorrer ao VAR (ou às imagens em campo) sempre que protocolarmente o lance vos ofereça essa solução. As armas são para se utilizar. E fora do campo… vejam e revejam imagens com situações destas. Lances vossos e dos vossos colegas. Analisem-nos em conjunto, procurem sintonias, uniformizem critérios, discutam-nos. Aperfeiçoem o olho, o sentir e todos os outros sentidos em prol da melhor decisão. The more I train… the luckier I get.

2. Senhores jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas e adeptos: a única coisa que podem fazer é conhecer a lei. Saber o que diz sobre isto. Estudem-na. Informem-se. Evitem os carimbos (é, não é… foi, não foi) porque há lances que não os têm. O futebol não é uma ciência exata e raramente permite unanimidades.

Confiem em quem toma as decisões dentro do campo. Os mesmos que por vezes erram contra a vossa equipa são os que seguramente já a beneficiaram. Involuntariamente. Compreendam a dinâmica do jogo jogado, de cada jogada, de cada disputa. O futebol tem fisicalidade e contacto. Aprendam a vê-lo sem se tornarem reféns da realidade ilusória das imagens.

O futebol continua a investir milhões em muitas áreas, mas jamais arranjará dinheiro para resolver coisas tão simples… como os lances de bola na mão e mão na bola.

Dá que pensar, não dá?