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Rui Santos

Rui Santos

Comentador desportivo

A máquina do dói-dói diz ao criador: “ou nos poupas ou chamas o INEM. Está bem, Jorge ‘Frankenstein’ Jesus?”

Rui Santos escreve para a Tribuna Expresso sobre o dérbi que acabou empatado pela mais variada ordem de razões que o analista aqui enuncia

Rui Santos

MIGUEL A. LOPES

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O Benfica faz, frente ao Sporting, um jogo muito superior è média das exibições até então realizadas no campeonato e empata; o Sporting faz, frente ao Benfica, um jogo muito inferior à média das exibições até então patenteadas na Liga, e empata.

No final do dérbi — um dérbi intenso, embora nem sempre bem jogado, com o visitado a mostrar uma atitude de conquista e o visitante quase sempre numa postura conservadora e de expectativa —, instalou-se uma ideia de ‘missão cumprida’ de ambos os lados.

A verdade é que esse grau de satisfação não confere com aquilo que estava em jogo, num momento importante do campeonato.

Em termos práticos, a expectação saiu lograda.

O Benfica precisava mesmo de vencer para apanhar o rival e não deixar fugir o FC Porto; o Sporting tinha a oportunidade de fazer colapsar o seu adversário e atirá-lo para as masmorras de um certo estado de depressão, acentuando o debate sobre as causas da sua improdutividade, expressa numa campanha europeia desastrosa e num registo doméstico muito aquém daquilo que vem sendo habitual, principalmente nas últimas temporadas.

Tudo isto sem esquecer os efeitos decorrentes da investigação que está a ser efectuada no âmbito do ‘mailingate’, que deixou a ‘águia’ num estado verdadeiramente catatónico.

Fala-se, agora, ou dá-se a ideia, no pós-dérbi, de ressurreição da ‘águia’ e debate-se, do outro lado da Segunda Circular, as razões de uma súbita anemia do ‘leão’.

Vamos por partes.

Foto Miguel A. Lopes/Lusa

O que ficou de mais positivo na (boa) exibição do Benfica foi a verificação de que a mensagem de Rui Vitória ou, se se quiser, o apelo dos responsáveis benfiquistas, num momento crítico que era importante contrariar, passou para os jogadores. Esta época temos visto uma equipa pouco atrevida, pouco ligada e até pouco dinâmica, e isso tem sido associado, em parte, à perda de jogadores muito importantes na conquista do tetra (Ederson, Nélson Semedo, Lindelof e Mitroglou), nenhum dos quais verdadeiramente substituído; e, frente ao Sporting, observámos uma equipa determinada na conquista do seu objectivo e concentrada na vital importância deste jogo, fundindo os dois sistemas até agora utilizados na hora-e-meia (4.3.3 e 4.4.2), mas com imensas variantes, todas elas decorrentes das incidências do próprio dérbi, acabando o jogo com 7 (repito, 7!) jogadores de inspiração ofensiva.

Apesar de ser uma obrigação, não se pode dizer que Rui Vitória e o Benfica não fizeram tudo, estratégica e tacticamente, para vencer o Sporting. Isso é indiscutível, como é indiscutível que o Benfica não teve a ‘sorte do jogo’ nem o ‘empurrãozinho’ da arbitragem. Já sabemos — e o futebol também tem esta extraordinária vertente ligada ao humor —, se fosse António Rola a arbitrar o dérbi, teriam sido assinalados cinco pontapés de penálti (4+1) a favor do Benfica, um ‘rolamento’ que é a cereja no topo do bolo da propaganda e dos seus verdugos…

(Como o futebol português seria tão bem melhor se não existissem propagandistas, pagos ou não, direcções de comunicação a substituir direcções e presidentes, a anulá-los ou a representá-los, estações de televisão de clubes a transmitir os seus próprios jogos da Liga, com comentários em que parece só existir uma equipa em campo, ou duas, dadas as constantes referências à equipa de arbitragem - as toscas singularidades do futebol cá do burgo).

MIGUEL A. LOPES/LUSA

O Sporting, ao invés, saiu inteiro da Luz (e o Bruninho, também), mas teve uma atitude estratégica e táctica, no mínimo, estranha — e esse ângulo de análise até talvez seja o mais premente.

A minha tese é que o Sporting foi surpreendido e assustou-se. Entrou na Luz com uma certa altivez (talvez decorrente do facto de ter entrado na Luz à frente na classificação), conseguir até marcar (antes do minuto 20), numa altura em que já estava a emergir no relvado a ideia de que havia uma equipa com uma rotação alta — a de Rui Vitória — e outra, de Jorge Jesus, a ver se não estragava a sua imagem de equipa arrumadinha e equilibrada nos seus movimentos de transição (defensiva e ofensiva).

E, neste particular, gera-se uma nova surpresa.

Este ‘Sporting de Jesus’, construído através das ideias e das apostas do seu treinador (jogadores com dimensão técnica mas sobretudo física), está a constituir-se como uma espécie de anti-Cristo, qualquer coisa muito próxima de um fenómeno em que a criatura se rebela contra o seu criador. Quer dizer: o criador empenha-se tanto na construção da sua criatura, injectando-lhe tudo aquilo que considera ser vital para a construção de uma máquina poderosíssima, que ela — a máquina — adquire uma vontade própria superior à do seu mestre e criador.

A máquina do dói-dói (não é, Coentrão?) diz ao criador: “ou nos poupas ou chamas o INEM. Está bem, Jorge ‘Frankenstein’ Jesus?”

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Este Sporting, de facto, não revela a impressão digital que estava subjacente às equipas conduzidas por Jorge Jesus, mais concretamente durante as suas passagens pelo Benfica e nos dois primeiros anos em Alvalade. O futebol vertiginoso, muito forte nas transições (mais poderoso nas transições ofensivas, assinale-se), deu lugar a um futebol mais calculado, em que o mais importante já não é o assalto (sanguinário) às linhas inimigas, como se a ‘guerra’ fosse ganha em cada uma das batalhas a travar, mas a poupança de unidades já muito massacradas em outras pelejas e noutros exércitos, para que estejam em condições de lutar, hoje e amanhã, para poderem ser considerados, no final, menos estropiados e mais… ‘heróis de guerra’.

Pode ter havido um condicionamento físico (a equipa parecia colada ao relvado), mas acima de tudo o Sporting apanhou um grande susto com o futebol de alta rotação do Benfica e ficou mais ou menos paralisado. Uma equipa que auto-anula jogadores como William Carvalho, Battaglia, Acunã e Bas Dost parecia uma equipa de futebol de 7 a jogar contra um papão. E até Jesus ou o seu anti-Cristo paralisaram com a paralisia da equipa.

A estória da arbitragem é outro capítulo. Daria pano para mangas.

* Texto escrito com a antiga ortografia