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Em busca da “arma secreta” no mercado de transferências (parte 1)

Ana Bispo Ramires

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Em janeiro, assistimos ao que poderíamos chamar de “abertura de época de caça” - ao melhor jogador, aquele que irá ajudar a equipa a subir de patamar e, idealmente, de posição na tabela classificativa.

Treinadores e clubes, após um primeiro “ensaio” do plano (na realidade, da equipa) que desenharam na pré-época, definem juntamente com os seus departamentos de análise de jogo quais poderão ser os candidatos ideais a integrar a equipa, com o intuito de colmatar défices que, por alguma razão, teimam em não ser superados, pelo menos de forma consolidada.

O “burburinho” é tanto que facilmente acaba por ter conteúdo suficiente para preencher as páginas dos jornais e os comentários dos programas da especialidade na televisão... durante o mês inteiro.

Esta é uma época onde, possivelmente, os departamentos de análise de jogo/performance assumem maior relevo, no que respeita à informação pertinente que geram e entregam aos decisores que, em última análise, e cruzando com a “saúde financeira” do clube, farão a escolha final.

Analisam-se, em pormenor, todos os dados comportamentais do atleta associados ao rendimento desportivo, na perspetiva de antecipar e prever os níveis de eficácia e a capacidade de resposta que um dado atleta poderá trazer com a sua contratação.

Contudo, paradoxalmente, também agora se inicia a época em que, potenciais “armas secretas” acabam por se transformar em imensos “flops”... que se pretendem igualmente “secretos”, para não ter que se “prestar contas” aos adeptos ou evidenciar fragilidade aos adversários (pelo menos, na capacidade de captação “daquele elemento certo”...).

Como explicar este tipo de fenómeno? Como explicar o facto da “escolha certa” tarde ou nunca evidenciar o seu nível de capacidades técnico-táticas?

Há por certo uma infinidade de razões (trata-se de um fenómeno multidimensional) que justifiquem este tipo de ocorrência e, certamente, a “história” que o suporta varia de clube para clube, consoante a cultura organizacional, o treinador e o próprio departamento de análise de jogo de cada um deles.

Gostaria de abordar, neste artigo, apenas duas (já suficientemente complexas):

A Equipa

Como o atleta é apresentado à equipa? Que expectativas a equipa tem sobre ele? Irá recebê-lo como uma “vantagem competitiva” para os jogos que se avizinham ou como um “elemento hostil” que irá destabilizar a equipa (porque vai concorrer com o lugar de algum colega fortemente enraizado no seio do grupo?)? Qual a fase de maturação que a equipa tem para receber um novo elemento? O que é preciso fazer para que a integração corra bem?

LLUIS GENE

Uma Equipa é um “organismo vivo” e dinâmico, tem IDENTIDADE PRÓPRIA, uma FASE DE MATURAÇÃO ESPECÍFICA e, como bem sabemos, se bem gerida e direcionada (por um Treinador com elevados níveis de liderança) é capaz de feitos extraordinários.

Contudo, são ainda muito poucos os clubes que trabalham especificamente a “identidade da equipa” (e não, não basta dizer que “somos o X, Y, X” – aí estamos a identificar-nos com o Clube, igualmente importante, mas não com a Equipa), fazendo-a progredir para níveis de maturação de excelência - os únicos que, em boa verdade, aumentam a probabilidade de desempenhos de excelência de forma consolidada e continuada.

Clubes e equipas técnicas atentas a este tipo de necessidade, sabem de antemão que a entrada de um novo elemento, por melhor que seja o seu “curriculum”, trará sempre alterações à dinâmica de equipa (como aliás se encontra documentado numa infinidade de estudos da área), alterações essas que deverão ser antecipadas e sobre as quais se deve intervir, por forma a promover um “match” perfeito entre equipa residente e “armas secretas” adquiridas.

Esta é, em última análise, uma RESPONSABILIDADE REAL de Clubes e Treinadores que, em caso de fracasso, raramente é questionada, mas que, INDISCUTIVELMENTE, é um dos PRINCIPAIS FATORES DE UMA ADAPTAÇÃO BEM OU MAL SUCEDIDA (e, aqui, o Atleta, pouco pode fazer).

Ainda que, muitas vezes, se “espere” que a “natureza das coisas”, o atleta e o “tempo” resolvam tudo isto.

O Atleta

Que Atleta muda de clube em janeiro? Que razões suportam a sua vontade de mudança? Porque não estava satisfeito no contexto anterior? Que expectativas traz? Que expectativas poderão vir a ser satisfeitas? Que tipo de pressão coloca em si próprio? Que suporte social tem ou traz consigo?

Jose Cruz/Sporting CP

De facto, colocadas de lado as suas capacidades técnico-táticas, que certamente estão corretamente avaliadas pelos departamentos de análise de jogo/performace, alguns dos FATORES EXTRAORDINARIAMENTE DETERMINANTES para a sua CAPACIDADE EM SER BEM SUCEDIDO, nada têm a ver com o “futebol” mas sim com as suas “Soft-Skills”.

Estamos pois, a falar nas suas capacidades de ADAPTAÇÃO, de MOTIVAÇÃO, de ser um TEAMPLAYER mas, ao mesmo tempo, assumir (implícita ou explicitamente), a RESPONSABILIDADE do “jogo” (para a linha atacante, pelo menos).

Por outras palavras, espera-se uma rápida integração (do próprio e da família) no meio socio-cultural onde o clube se insere, o que pode compreender coisas tão importantes como a língua, os hábitos e rotinas (disciplina), a cultura de equipa, mas também coisas tão “aparentemente” pouco significantes, mas de impacto extremo no desempenho, como a adaptação à gastronomia local (no fundo, saber escolher, do que lhe é colocado à disposição, os alimentos corretos – energia – que potenciarão o seu rendimento).

Espera-se também que se ligue rapidamente à equipa, que evidencie as suficientes competências sociais para rapidamente se “sentir em casa” e defender as cores do clube e, ainda, que se motive face ao erro e ao fracasso, que persista... mesmo quando ainda ninguém “puxa” por ele e, em boa verdade, até alguns não se importariam que fracassasse.

Espera-se.

Na realidade, “arma” nenhuma vingará, traduzindo todo o potencial em ações concretas de desempenho superior, se o tiver que fazer de forma isolada e desapoiada, deixando o sucesso (do atleta e do recrutamento) à mercê de um qualquer jogo de sorte ou azar.

O Futebol transforma-se, de dia para dia, numa ciência cada vez mais complexa onde o SUCESSO resulta de serem selecionados (recrutados) os elementos certos mas, acima de tudo, da atenção dada aos múltiplos pormenores que ajudam uma Equipa a ser isso mesmo: Equipa.

Este sim, é o “PRÓXIMO NÍVEL” do JOGO... onde só algumas Equipas competem.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)