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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Os casos duvidosos da 18ª jornada, clarificados ao pormenor por Duarte Gomes

O ex-árbitro Duarte Gomes esclarece as dúvidas relativamente aos casos da 18ª jornada da Liga portuguesa

Duarte Gomes

O Benfica venceu o Sporting de Braga por 3-1, na 18ª jornada da Liga 2017/18, com o jogo a ser arbitrado por Artur Soares Dias

JOS\303\211 COELHO

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Resumo da jornada

A vitória (diga-se que indiscutível) dos chamados "grandes" teve, como tem sempre, o mérito de diluir o ruído habitual sobre a atuação das equipas de arbitragem.

A jornada, nesse aspeto - o dos decibéis exponenciados - foi calma e sem histórias tristes para contar aos netos. Felizmente. Ainda assim, algumas partidas tiveram situações que merecem a nossa atenção, não pela análise pura e crua do "acertou ou errou, beneficiou ou prejudicou" , mas pelo que de pedagógico e esclarecedor podem oferecer a quem, como nós, aprecia futebol positivo.

No jogo da Pedreira, em Braga, ocorreram dois lances que merecem explicação detalhada: uma eventual carga de Paulinho sobre Jonas (com o brasileiro em posição de fora de jogo) e o início da jogada que culminou no terceiro golo dos encarnados.

Vamos ao primeiro.

As imagens mostraram que Jonas estava ligeiramente adiantado quando sofreu carga de Paulinho, na área do Braga. O árbitro assistente teve dúvidas e, bem, deixou seguir a jogada. Mas a pergunta aqui é só uma: nestes casos, pune-se o fora de jogo ou a falta do defesa, no caso com pontapé de penalti?

Olhemos para a lei: por um lado, ela diz que um jogador é penalizado quando toma parte ativa, interferindo com o jogo (ou seja, jogando ou tocando na bola) ou interferindo com o adversário. Ora, Jonas não jogou a bola nem interferiu com o adversário, que é como quem diz, não tapou o seu ângulo de visão, não disputou a bola com ele, não o distraiu, não impediu os seus movimentos, não parou à sua frente, não o inibiu, não o atrasou nem prejudicou a sua ação defensiva.

Mas esta época a lei adicionou uma clarificação (de um preceito que já existia), relativamente aos momentos em que existe na mesma jogada "falta e fora de jogo" , o que foi o caso. Nesse esclarecimento, prevê quer uma eventual infração do avançado em offside, quer a infração do defesa, que é aquela que ocorreu e aqui importa perceber.

E o que diz nesta matéria? Diz que quando um avançado, em fora de jogo, se movimente para a bola para a jogar mas antes sofra uma carga do adversário, deve assinalar-se essa infração. Diz também que se ele for carregado quando já jogou ou já tentou jogar a bola, pune-se o fora de jogo (aí considera-se que tomou parte ativa na jogada antes de sofrer falta).

Quando Jonas foi carregado, a bola ainda estava no ar, a cerca de 6, 7 metros do avançado brasileiro. Quer isso dizer que, no momento da infração, ele ainda não tinha jogado nem tentado jogar a bola. Na verdade, ela não estava a distância jogável. Ficou, por isso, pontapé de penálti por assinalar. Lance que, em campo, era de interpretação bem complexa.

Na outra situação, André Almeida fez falta evidente (na TV) sobre João Carlos Teixeira. Na sequência dessa jogada, o Benfica marcaria por intermédio de Raúl. Uma vez que estes são lances revistos pelo VAR, a decisão correta teria sido anular o golo do Benfica e assinalar pontapé livre direto favorável ao Sp. Braga. A evidência da imagem foi suficiente para que o videoárbitro tivesse sugerido a Artur Soares Dias a revisão do lance. Infelizmente não teve essa perceção.

Bas Dost marcou de penálti na vitória do Sporting sobre o Aves (3-0)

Bas Dost marcou de penálti na vitória do Sporting sobre o Aves (3-0)

PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY

Em Alvalade, o pontapé de penálti assinalado por falta de Vitor Gomes sobre Gelson foi evidente: o jogador do Aves tocou, com a perna, no "gémeo" do extremo leonino e ainda o carregou nas costas, com o braço esquerdo. Lance seguramente bem intencionado mas que foi, de facto, faltoso.

A aprendizagem aqui está relacionada com a não exibição do cartão amarelo: é que, sempre que um defesa cometa falta na sua área ao tentar jogar ou disputar a bola, já não é advertido (alteração desta época). Como bem se percebe aqui - comparando com o lance anterior, de Jonas - a definição de "tentar jogar a bola" só faz sentido se esta estiver a uma distância jogável de 2, 3 metros. Se estiver mais distante, não há tentativa de a jogar. Logicamente.

Outro momento importante nesta partida foi uma queda de Bas Dost na área do D. Aves. O holandês ficou muito queixoso do pescoço/costas, num lance que o Jorge Sousa (VAR nesse jogo) entendeu que devia ser revisto pelo árbitro, João Pinheiro. Nenhuma imagem esclareceu, na totalidade, que o avançado tinha sido carregado por Nildo Petrolina, mas a verdade é que o lance teve mesmo todo o desenho, todo o "cheiro" de penálti. O jogador do Aves movimentou-se em direção a Bas Dost e chocou com ele deliberadamente, projetando-o com força para o relvado.

O árbitro legitimou a sua não intervenção com base no que (não) viu a 100%, mas se tivesse colocado todos os outros sentidos ao serviço da decisão, teria intuído que aquela queda, com aquele choque e com a bola tão longe dali... só podia ter ocorrido com falta. Jorge Sousa leu bem o lance.

O Chaves venceu o Vitória de Guimarães por 4-3, na 18ª jornada da Liga 2017/18

O Chaves venceu o Vitória de Guimarães por 4-3, na 18ª jornada da Liga 2017/18

PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Bem a norte, destaque para uma excelente intervenção do VAR no jogo inaugural da jornada. Lance determinante para o D. Chaves, ocorrido no período de compensação, quando o jogo estava empatado a três. Tiago Martins não viu a infração mas houve mesmo mão de um defesa vimaranense na sua área. Pontapé de penálti bem assinalado e mais um potencial erro com influência (bem) corrigido pelo videoárbitro.

Aos poucos, os árbitros começam a assimilar processos relativamente a esta nova realidade. As dinâmicas e rotinas começam a melhorar. É uma etapa nova, totalmente diferente da que estavam habituados e isso pede alguma tolerância e boa vontade de toda a gente. É certo que os danos colaterais - as chamadas dores de crescimento - são fatura pesada a pagar, mas nunca se viu na história uma mudança radical de paradigma sem que isso implicasse convulsões. Tem havido erros sim, mas também muitos acertos. Se colocarmos o foco apenas nesses, a perspetiva muda. Assim que o homem adaptar-se, a máquina será imparável. Confiem nisso.