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A macabra história de Larry Nassar

Ana Bispo Ramires

Larry Nassar (ao centro) declarou-se culpado de abuso de menores

JEFF KOWALSKY/GETTY

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À partida, para quem ande um pouco mais desatento, parece que estamos a presenciar o desenrolar de mais um argumento de um episódio de uma daquelas séries policiais norte-americanas:

mais de 265 vítimas de abuso sexual, numa das modalidades mais emblemáticas dos EUA, ao longo de mais de duas décadas - abusos esses perpetrados por uma “figurinha aparentemente inofensiva” e, ao que indica, aparentemente muito respeitada na comunidade civil e científica (não são todos?).

Jornais, revistas, televisões... todos eles têm feito as mais diferentes considerações acerca de Nassar e do contexto onde tudo decorreu:

- Da exigência da modalidade, da idade destas jovens que iniciam (demasiado? Alguns questionam) cedo o seu processo de especialização, do carácter mais “fechado” da modalidade que “obriga” as atletas a frequentar um regime alternativo escolar para poderem dedicar mais tempo à modalidade (onde estão maioritariamente com colegas igualmente jovens e treinadores), do clima de “abuso” e de “silêncio” que impera na modalidade... inclusive (esta foi a melhor) que, futuramente, a modalidade terá que fazer uma escolha entre “atletas saudáveis ou medalhadas”, dado o caráter de exigência (tolerância à dor física e, acrescento eu, DOR EMOCIONAL), sacrifício, stress e ansiedade a que são sujeitas.

ESCOLHAS.

Há, contudo, em toda esta envolvente, algo de facto inquietante:

- É que, em boa verdade, ocorreram denúncias ao longo dos anos... as ATLETAS FALARAM, queixaram-se... mas, invariavelmente, um qualquer outro “adulto de referência”, acabou por fazê-las DESACREDITAR do SEU PRÓPRIO DISCERNIMENTO, destacando que estariam a confundir “abuso” com “práticas médicas” (?).

Escolhas, outra vez.

Elas, de facto, falaram... aliás, desde 1997, todo este processo poderia ter sido travado por 8 VEZES.

8 VEZES.

Se assumirmos que, só no decorrer do ano em que o FBI lançou a investigação (e no decorrer da mesma), se estima que houve mais de 40 abusos...

Bom, podemos imaginar quantas jovens poderiam ter sido poupadas a este predador.

Gabrielle Douglas, ginasta dos EUA

Gabrielle Douglas, ginasta dos EUA

Quinn Rooney/Getty

Desenganem-se por “cá”, se considerarem que este é mais um fenómeno “dos EUA” (lá longe) e, que, por terras lusas, este tipo de “eventos” não ocorre... então, se associarmos a este tipo de situações uma outra forma de VIOLAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA/JOVEM, que é o bullying (muitas vezes, potenciado pelos próprios adultos com “brincadeiras inofensivas” que se instalam no seio de um grupo, já sem a supervisão do mesmo), então AS ESTATÍSTICAS DISPARARÃO de certeza.

Importa, sem dúvida, que, mais do que nos preocuparmos em identificar os “psicopatas” (nem todos têm este diagnóstico... apesar de parecer que gostariam de o ter...) que perpetram este tipo de crimes (até porque, invariavelmente, são extraordinariamente hábeis a criar uma imagem socialmente inquestionável), ser de extrema importância procurar PERCEBER as RAZÕES porque O MEIO (onde supostamente estarão os “normais”), face a este tipo de eventos, se comporta com indiferença, submissão e incapacidade de questionamento sobre os factos... o que resulta, dramaticamente, na integração por parte dos jovens que, afinal, os “seus adultos de segurança”... não são de tanta segurança assim – o que os remete para o silêncio, face a novas investidas.

Em boa verdade, a QUESTÃO FRATURANTE não é como é que a sociedade produz um “animal” daqueles... isso, já sabemos que acontece e irá acontecer sempre... a questão que se impõe é COMO É QUE NÓS (todos nós: pais, tios, professores, treinadores, dirigentes...) adultos supostamente “saudáveis”, FALHÁMOS TÃO REDONDAMENTE NA PROTEÇÃO DOS NOSSOS JOVENS?

Por cá, em Portugal, para quem se movimenta no terreno do desporto há muitos anos, este tema não é novo nem desconhecido – aliás, basta perguntar a qualquer atleta se vivenciou ou presenciou algum comportamento “minimamente desadequado” onde viu a sua intimidade “ameaçada” e, garantidamente, a estatística será assustadora.

Há, ainda, um longo caminho a percorrer... mesmo muito longo e terá, certamente, que se iniciar por um longuíssimo PROCESSO DE PSICO-EDUCAÇÃO para pais, atletas, treinadores e dirigentes sobre coisas tão simples como o que são “comportamentos aceitáveis” ou não...

De facto, sem cair em extremismos desnecessários, e principalmente no contexto do desporto onde o corpo é uma “ferramenta” trabalhada pelo atleta e mais uma série de profissionais (treinadores, médicos, fisioterapeutas, osteopatas, massagistas...), é importante que haja uma clarificação nítida do que é ou não aceitável (para que o/a atleta o possa reconhecer de imediato) – só assim estaremos a CAPACITAR uma “potencial vítima” com as ferramentas necessárias para exercer a sua própria defesa em primeira instância (onde, muitas vezes, se encontra sozinho/a).

O desenvolvimento de um “protocolo” que os profissionais devem atuar quando estão a exercer a sua profissão (que obriga a “tocar” o atleta), também ajudará bastante – protegendo os próprios profissionais de eventuais “mal-entendidos”.

Há uns largos anos, em contexto de formação, um treinador de uma modalidade coletiva (num escalão júnior) comentava (inocentemente e jocoso) que havia um namorado de uma atleta que não gostava nada quando, após um lance bem sucedido (que resultava em ponto/golo), ele dava uma “palmadinha no rabo” à atleta.

Na altura, perguntei se também costumava dar “palmadinhas no rabo” aos rapazes. A resposta foi silêncio.

Em boa verdade, não considerei que houvesse qualquer tipo de intencionalidade, mas apenas, nunca ter parado para pensar e, o confronto com este tipo de paralelismo, num contexto com alguma informalidade, possibilitou que a pessoa renegociasse consigo própria o seu comportamento futuro.

Às vezes, é só isto que é preciso.

Mas, urge, de igual forma, que sejam desenvolvidos mecanismos/canais seguros (onde a criança/jovem possa sentir que vai ser, de facto, ouvida) que possam ser atuados em caso de suspeita e, também aqui, os atletas devem ser “educados” para saberem quando e como atuar os mesmos.

Estes poderão ser, realmente, dois primeiros (e importantes) passos de um caminho que, sabendo-se longo, importa começar a trilhar desde já.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)