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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O filme de Tarantini, a mão de Henrique e os 2m30s de João Capela (os casos da jornada, por Duarte Gomes)

Duarte Gomes, antigo árbitro, comentador da SIC Notícias e colaborador da Tribuna Expresso, escreve sobre os bons e maus momentos da arbitragem na jornada que encerrou na segunda-feira

Duarte Gomes

PAULO NOVAIS

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Os jogos desta jornada voltaram a evidenciar duas verdades que, à distância das emoções, todos já percebemos: a primeira é que a vídeo-tecnologia é absolutamente fundamental e tem que estar ao serviço do futebol. A segunda é que o seu manuseamento (por parte dos árbitros) requer treino continuado e filtro bem apertado.

É que, aos poucos, a prática parece dizer-nos quem demonstra menos e mais sensibilidade técnica para essa função específica. E como em todas as áreas de atividade, há que iniciar um processo de especialização, onde apenas os mais adaptados, os mais qualificados e os mais competentes devem ter lugar. Este é o momento certo para iniciar essa seleção.

A "carreira de VAR" é uma inevitabilidade do futuro próximo e todos perceberemos isso em breve.

No Dragão

FRANCISCO LEONG

Houve dois lances de análise quase microscópica: queda de Soares à entrada da área vilacondense e, já perto do final, derrube a Hernâni seguido de golo anulado a Soares (entretanto validado).

Na primeira situação, Soares e Tarantini disputaram a bola com os braços colocados um no outro e o avançado do FC Porto foi mais forte (lance no limite da legalidade), sendo depois rasteirado pelo capitão forasteiro. Carlos Xistra entendeu que a falta era apenas passível de advertência.

A sua leitura terá sido induzida pela rápida movimentação dos jogadores induzida pela rápida movimentação dos jogadores (mal interrompeu a partida já os defesas estavam na "dobra" , dando a sensação que o lance era apenas prometedor). Mas a verdade é que, no instante fotográfico da infração (que é o que se recomenda que os árbitros identifiquem), Soares estava mesmo isolado, de frente para a baliza, próximo dela e com clara possibilidade de marcar.

As imagens televisivas desse instantâneo são inequívocas: o lance era para cartão vermelho. Entende-se o erro de análise em campo, mas o VAR devia ter dado melhor colaboração ao seu colega. No outro lance, Xistra - eventualmente tapado pelo aglomerado de jogadores - não se apercebeu de carga, nas costas, de Marcelo sobre Hernâni.

A infração, em plena área do Rio Ave, era passível de pontapé de penálti. Na sequência do lance, Soares marcou mas o golo foi anulado por alegada posição irregular do brasileiro. Aí o árbitro esteve bem, pois só apitou depois da bola entrar, o que permitiu a vídeo-intervenção. A linha tecnológica mostrou que Soares estava em posição legal o que, felizmente, VAR e AVAR conse‐ guiram perceber, apesar de não terem acesso àquele recurso tecnológico. A posição de Marcelo, caído no solo para lá da linha da área de baliza, terá sido referência útil para que tomassem a melhor decisão.

Na Luz

NurPhoto

Tiago Martins viu bem rasteira despropositada de Rossi a Cervi. O lance, que estava quase perdido pela linha de baliza, foi bem avaliado. Mais tarde o árbitro de Lisboa não se apercebeu de infração evidente de Henrique, na sua área.

O defesa boavisteiro abordou a jogada de forma deficiente, esticando o seu braço direito em demasia. O contacto com a bola foi óbvio, em zona pouco natural para aquele movimento defensivo e devia ter sido punido com castigo máximo.

Estavam vários jogadores no campo de visão de Tiago Martins, o que o inibiu de tomar a melhor decisão, mas o VAR devia ter dado outro apoio.

O dérbi

Abel Ferreira foi jogador e treinador na estrutura do Sporting antes de regressar ao Sp. Braga, onde começou a dar nas vistas como jogador

Abel Ferreira foi jogador e treinador na estrutura do Sporting antes de regressar ao Sp. Braga, onde começou a dar nas vistas como jogador

MIGUEL RIOPA/Getty

O derby entre Vitória SC e Braga foi escaldante, com um ambiente nem sempre ordeiro e com várias incidências dentro e fora das quatro linhas. O lance mais determinante aconteceu nos minutos iniciais e culminou com a marcação de um pontapé de penálti (e com a expulsão de Wakaso). Tecnicamente a jogada foi de análise muito complicada.

Ficou claro que o defesa vitoriano começou a agarrar Wilson Eduardo ainda fora da área, não sendo certo que o tenho largado dentro. Ficámos com a ideia que o avançado bracarense terá prolongado ao máximo a queda para que esta ocorresse em zona "proibida" , mas a verdade é que ocorresse em zona "proibida" , mas a verdade é que pareceu perder o equilíbrio antes disso.

O árbitro foi perentório e, na dúvida, o VAR nao podia intervir. Mas se aí a leitura aceita-se, na opção disciplinar já discordamos: o videoárbitro devia ter dito a Bruno Paixão que aquela não era uma clara oportunidade de golo.

E temos a certeza que se o árbitro de Setúbal a tivesse revisto em campo (como fez Nuno Almeida, em lance de natureza técnica semelhante, em Moreira de Cónegos), tomaria seguramente a decisão de apenas exibir amarelo ao vitoriano.

Em Tondela

PAULO NOVAIS

Ontem, em Tondela, assistimos a um jogo muito difícil, marcado por decisões muito discutíveis e por um final muito conturbado. Sobre tudo isso, o poder da informação (e desinformação) encarregar-se-á de falar no presente, como tem feito e nas próximas semanas. Por isso, vamos a factos palpáveis e concretos: João Capela acertou e errou ao longo da partida.

Exemplos: Ricardo Costa, na sua área, agarrou o braço de Mathieu (lance apenas percetível nas imagens televisivas), William e Piccini usaram muito as mãos e o corpo para encurralar Murillo (se bem que desse lance a única certeza evidente foi não ter havido simulação), Coates tinha que ter visto cartão amarelo por carga não assinalada sobre Boyd (e obviamente por despir a camisola, aquando do segundo golo do Sporting) e William tinha que ter sido, no mínimo, advertido por falta duríssima sobre Bruno Monteiro, em que a única atenuante foi ter tocado na bola antes do contacto.

Também é justo reconhecer que não houve mão deliberada de Joãozinho após cruzamento de Gelson Martins, que Mathieu viu bem os dois amarelos e foi bem expulso, que Pedro Nuno foi bem advertido, que Tomané estava em jogo no lance do primeiro golo da partida e que muitas outras decisões foram adequadas.

O grande problema está mais do que identificado e quase dispensa explicações. O erro na aplicação do tempo de compensação. A frio, o raciocínio matemático é simples:

1. O jogo tem 90 minutos. O árbitro concedeu mais 4'.

2. Quando faltavam cerca de 20 segundos para o final desse período, houve interrupção para assistência médica.

3. Essa durou cerca de 2.30m.

4. Quando a partida foi reatada (e não tendo havido qualquer outro motivo passível de compensação), o apito final devia ter surgido 20 segundos depois, o apito final devia ter surgido 20 segundos depois, ou seja, precisamente o tempo que faltava antes da interrupção. Fosse ela de que tempo fosse.

5. O golo aconteceu fora desse período e esse erro na contagem do tempo acabou por ter consequência direta no resultado final do jogo. O que pode ter acontecido? O árbitro ter somado esses 2.30m da assistência médica após o recomeço (em vez de dar os segundos que faltavam, face ao que já se tinha jogado). Na minha opinião, erro de boa-fé mas com consequência infeliz no resultado final da partida.