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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Duarte Gomes discorda dela mas explica a regra (de 2004) que manda punir “a intenção nobre” de Gelson ao festejar

Em 1996, os jogadores passaram a ser advertidos quando tiravam a camisola para festejar. Depois, a regra foi extinta e voltámos a ver celebrações em tronco nu (ou com mensagens publicitárias). Finalmente, em 2004, ficou decidido: tirar a camisola é "comportamento antidesportivo". O ex-árbitro Duarte Gomes explica este e outros casos da 24ª jornada da Liga portuguesa

Duarte Gomes

O árbitro Tiago Martins devolve a camisola a Gelson Martins e... expulsa-o, com um segundo amarelo, frente ao Moreirense

António Cotrim/Lusa

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Benfica, Porto e Sporting disputam um verdadeiro campeonato a três, que atrai a atenção da imprensa e os olhares da esmagadora maioria das pessoas.

Apesar de por vezes não parecer, o campeonato tem outros jogos e outras equipas. A sua menor dimensão mediática, diferente poderio desportivo e número inferior de adeptos não retiram o brilho e o mérito do seu empenho, labor e dedicação.

Por exemplo, na jornada que terminou, o Boavista venceu o V. Setúbal por números que não deixam dúvidas; o Chaves beneficiou de uma excelente recomendação do VAR para vencer a partida com o Estoril; o Sp. Braga consolidou o estatuto de quarto melhor da presente época; o Marítimo regressou às viórias sobre um Vitória de rosto novo; o Belenenses derrotou o Feirense e o Rio Ave empatou na receção ao D. Aves.

Quanto aos jogos que envolveram os chamados "três grandes" , terminaram com vitórias esperadas dos teoricamente mais fortes, embora nem todas esmagadoras.

O FC Porto mostrou toda a sua boa forma, força e brilhantismo, vencendo fora de portas por resultado robusto, que não deixa margem para dúvidas a quem quer que seja. Marcano não parece ter feito falta sobre Fabrício no início da jogada do tento inaugural, tal como Otávio não sofreu falta de Ruben Fernandes, em lance em que ainda se pensou ter sido suspeito.

O golo de honra do Portimonense nasceu de falta de Otávio sobre um adversário. Apesar do jogador algarvio ter escorregado, o toque com a mão nas costas e com o pé "no pé", parece ter sido suficiente para provocar o desequilíbrio. Foi boa a decisão de Jorge Sousa, que, num jogo simples, fez bom trabalho.

Em Paços de Ferreira, jogo entre a equipa local e o Benfica complicadíssimo de dirigir, com toda a gente a dificultar ao máximo o trabalho de Fábio Veríssimo: adeptos a arremessarem objetos para o relvado, jogadores "pegados" por tudo e por nada e nervosismo excessivo nos dois bancos técnicos, cujos elementos (alguns) saltavam como molas a cada decisão e em cada jogada. Assim não!

No campo, o jovem árbitro de Leiria avaliou quase sempre bem quedas e eventuais mãos nas duas áreas, tendo cometido apenas um erro (mas grave): Gian rasteirou Rafa, em lance passível de pontapé de penálti. O defensor pacense foi imprudente e tocou, com a sua perna direita, na esquerda do jogador encarnado, derrubando-o. Lance apenas escrutinado nas repetições exaustivas da jogada.

Rúben Dias, central do Benfica

Rúben Dias, central do Benfica

Carlos Rodrigues

Nota ainda para várias ações antidesportivas cometidas por Rúben Dias e que passaram sem a devida punição disciplinar: uma com Rúben Micael (ambos deviam ter visto o cartão amarelo) e outras duas na área do Paços, com Assis: numa das vezes houve braços a mais na tentativa de se libertar da marcação; noutra, foi pior... houve pé na cara do adversário. De propósito? Sem querer? Ruben Dias saberá.

Tal como outros jovens de outras equipas, Rúben é um jogador de qualidade e com potencial tremendo. É importante que procure distanciar-se do rótulo de enfant terrible. Ele seguramente não merece essa perseguição, mas a verdade é que o povo não perdoa quando se trata de "carimbar" árbitros ou jogadores pelas suas opções em campo.

A expulsão de Gian, ao cair do pano, não merece contestação: o jogador atingiu a perna de Jonas com a sola da bota, em atitude violenta e desnecessária.

Do jogo de segunda-feira à noite em Alvalade nota para três momentos importantes: o golo bem anulado a Aouacheria, por ter dominado a bola com o braço esquerdo antes de rematar para o fundo da baliza de Rui Patrício. Excelente intervenção do VAR e muito bem Tiago Martins em ver a imagem junto ao relvado; segunda advertência mal efetuada a Petrovic, que não fez qualquer falta sobre o seu adversário: apesar da ilusão de infração (que todos tivemos ao ver o lance ao vivo), o defesa do Sporting foi injustamente expulso, num lance em que o VAR, mesmo vendo o erro, nada podia fazer.

Por último, o (segundo) amarelo bem exibido a Gelson Martins, por ter despido a camisola para celebrar o golo que marcou. O extremo deixou que a emoção tomasse conta da razão, que o altruísmo pessoal afetasse o seu profissionalismo, momentaneamente. Aplica-se aqui, por analogia, a mensagem deixada em relação a Rúben Dias: critique-se o gesto irrefletido do jogador, mas não se crucifique a intenção nobre do homem, sobretudo quando até foi ele a fazer a diferença no jogo de ontem.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A camisola interior de Gelson Martins continha uma mensagem/slogan. A lei não prevê que a passagem de mensagens para o exterior seja penalizada diretamente pelo árbitro, mas obriga-o (caso a veja) a mencionar esse facto no relatório, para análise posterior da entidade organizadora (Circular FIFA N. 847, de 12 de maio de 2003: decisão 1 da Lei 4).

Mas, já agora e sobre esta coisa de despir a camisola após o golo e levar amarelo, permitam-me que teste os vossos conhecimentos e memória:

- Quando é que esta história começou?

Vamos lá recuar um pouco:

1) Circular FIFA N. 579, de 23 janeiro de 1996 (há mais de 22 anos):
- Dispôs que todos todos os jogadores que despissem a camisola para celebrar um golo deviam passar a ser advertidos. Assim foi durante cinco épocas. Depois... marcha atrás.

2) Reunião anual do IFAB, a 10 de março de 2001:
- O IFAB decidiu moderar a premissa de 1996, passando a permitir que o jogador tirasse a camisola para festejar o golo, sendo que só seria advertido se tivesse gestos provocatórios ou a intenção de ridicularizar o adversário ou os seus adeptos (ou de incitar a essa ridicularização). Esta liberalização da sanção disciplinar durou três épocas. Entretanto...

3) Circular FIFA N. 907, de 14 de maio de 2004:
- Regresso da punição: todos os jogadores que dispam a camisola para celebrar um golo têm que ver o amarelo, porque esse gesto é considerado "desnecessário e excessivo". A base legal da advertência é comportamento antidesportivo.

Assim se mantém até aos dias de hoje. Podemos concordar ou discordar (e eu discordo), mas convém saber e nunca esquecer.