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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O empurrão antidesportivo de Coentrão ao socorrista e a troca de identidades na Luz (Duarte Gomes explica os casos da 25ª jornada)

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa os casos mais duvidosos da 25ª jornada da Liga, no Dragão, na Luz e noutros estádios do país

Duarte Gomes

MIGUEL RIOPA

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Clássico do Dragão

Ponto prévio: Artur Soares Dias é um árbitro de categoria, com muita apetência para a função e provas dadas, em Portugal e além-fronteiras.

Foi bem nomeado para o jogo da jornada. Soma vários dérbis e clássicos na carreira e tem uma eficácia de (boas) decisões elevadíssima.

Dito isto, era certo e sabido que a partida entre FC Porto e Sporting seria difícil de dirigir, dada a importância do jogo para ambas as equipas e a enorme emocionalidade que historicamente estes desafios acarretam.

O internacional do Porto esteve quase sempre bem e apenas num lance tomou decisão suscetível de merecer reparo.

Quanto ao resto, analisou bem duas bolas tiradas quase sobre a linha de golo da baliza defendida por Rui Patrício (uma, ainda na primeira parte, por Bryan Ruiz, e outra, já no segundo tempo, por Battaglia). Esteve igualmente muito seguro disciplinarmente, em jogo que foi de um modo geral correto: Bruno Fernandes, Acuña, Filipe e Herrera foram advertidos com justiça.

Coentrão escapou ao amarelo após um lance caricato que, por ter ocorrido fora do terreno de jogo e no meio de uma pequena confusão, terá escapado à equipa de arbitragem: o empurrão ao socorrista (que, ao reter deliberadamente a bola, excedeu as suas funções com enorme irresponsabilidade e foi bem expulso das imediações do terreno), foi tão escusado quanto antidesportivo. Um profissional experiente tem que ter outra serenidade em momentos de tensão e maior aperto.

Quanto à situação a que nos referíamos anteriormente, aconteceu na área dos azuis e brancos, entre Doumbia e Dalot e merece aqui uma análise tão fiel quanto possível.

Primeiro: o jovem defesa do FC Porto esticou a perna esquerda na tentativa inocente de cortar/desviar a bola mas falhou e acabou por tocar na perna do seu adversário, derrubando-o. Tecnicamente o lance era passível de pontapé de penálti.

Segundo: não obstante essa observação (diga-se, de atento escrutínio televisivo), a verdade é que Doumbia, muito experiente, procurou a falta e dramatizou a queda, após o contacto. O avançado do Sporting, com a posição ganha e de frente para a baliza de Casillas, preferiu esperar pelo contacto do que tentar finalizar o lance.

Terceiro: apesar dessa evidente “matreirice”, a verdade é que o foco tem que estar na causa e não na consequência. Houve mesmo rasteira, o que naturalmente legitimaria a sanção técnica.

São os típicos “penáltis de TV”, que aos olhos de quem sente, em campo, a dinâmica do jogo tem muitas vezes relutância em assinalar. Compreensivelmente. O problema, teórico, é que a maioria das infrações não depende de processos de intenção (e Dalot não quis cometer falta), penaliza também a imprudência e negligência.

Jogo da Luz

Gualter Fatia

A vitória do Benfica por números elevados poderia indiciar um jogo aparentemente sem casos ou com poucas situações de análise mais apertada, mas não foi bem assim.

A equipa de arbitragem, liderada por Hélder Malheiro e (muito bem) auxiliada pelo jovem António Nobre, mostrou em vários momentos a verdadeira potencialidade desta ferramenta, quando bem utilizada.

Três exemplos rápidos. O primeiro de uma boa decisão, em campo, do árbitro lisboeta: perto do intervalo, Pablo tentou jogar a bola mas chegou tarde e rasteirou Rafa, quando este tinha claras possibilidades de marcar. Hélder Malheiro, bem colocado, assinalou o castigo máximo mas não expulsou o defesa madeirense. O facto deste tentar disputar a bola atenuou a incidência disciplinar da infração (devido ao fim da tripla penalização). Amarelo bem exibido.

Os outros dois lances nasceram de intervenção oportuna do VAR, em jogadas inicialmente mal avaliadas. Valente (número 33) foi advertido erradamente, por infração negligente cometida por Bebeto (número 23). O número três da camisola de ambos terá iludido o árbitro, mas António Nobre estava atento e ao abrigo da premissa protocolar “troca de identidade disciplinar”, interveio, recomendando a alteração da sanção. Bem, muito bem.

Pouco depois, viria a fazer o mesmo quando Malheiro não se apercebeu da entrada violenta de Gamboa sobre Zivkovic. O vermelho era a única opção. A videointervenção repôs justiça e, nesta partida, somou pontos.

Visita rápida a outros palcos

No Estoril, Luís Godinho – jovem internacional a fazer boa época e a crescer em qualidade – teve muito trabalho e recorreu com frequência ao VAR. Essa opção, ultimamente cada vez mais comum nos nossos árbitros, foi benéfica em vários momentos de jogo: o golo anulado ao Estoril foi mesmo precedido de fora de jogo aquando do cruzamento para Kléber finalizar; o golo de Paulinho foi legal (o avançado veio bem de trás e os avançados em posição ilegal não tomaram parte ativa na jogada) e a posição inicial de Jefferson, quando o lateral fez assistência para mais um golo bracarense, foi bem validada. A única decisão questionável residiu numa entrada perigosa, de pé bem alto, de Kléber (atingiu adversário com a sola da bota nas costas/cabeça).

Em Tondela, o VAR cometeu erro pouco compreensível, não dando o melhor apoio ao seu colega de campo: o segundo golo do Tondela contra o Chaves, obtido já em tempo de compensação, foi precedido de uma falta clara e evidente, cuja imagem não deixou margem para qualquer dúvida. O lance foi de tal forma óbvio que o próprio atacante parece ter esboçado parar a jogada temendo a sua interrupção. Perante a evidência televisiva dessa ação (puxão de Tyler Boyd a Maras), a videointervenção era mais do que obrigatória.

Por último, no Bonfim, Semedo (do Vitória FC) viu com justiça o cartão amarelo. E viu-o por duas vezes em menos de dois minutos. Hugo Miguel, árbitro internacional de Lisboa, foi coerente e não tinha alternativa. Ambos os lances eram mesmo passíveis de advertência.