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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Duarte Gomes explica a relação entre árbitro e videoárbitro: quem decide o quê, como, porquê e quando

O ex-árbitro Duarte Gomes esclarece a ligação entre árbitro e videoárbitro durante um jogo, no que diz haver “um turbilhão de coisas novas”

Duarte Gomes

Carlos Xistra a rever uma jogada durante o Benfica-Vitória de Guimarães

Pedro Fiuza/Getty

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Este é mais um artigo sobre árbitros e videoárbitros.

O que me proponho hoje, aqui e agora, é (tentar) explicar ao caro leitor quem decide o quê, como, porquê e quando.

É que os 'quandos' também são importantes: quando é que os árbitros devem (ou não) consultar os écrans, quando é que devem (ou não) aceitar a recomendação do VAR, quando é que devem (ou não) manter a decisão inicial. Quando, quando, quando.

Demasiadas perguntas, muitas dúvidas, várias interrogações. Como sempre acontece em tudo o que é novidade impactante. Em alterações estruturantes num atividade importante.

Então vamos a isso, com a maior simplicidade e ligeireza possível...

1. Os árbitros tomam as decisões (de punir ou não punir determinados lances) com base na perceção que têm deles, à primeira. Até aqui tudo certo. Nada de novo.

2. Se o lance em questão for um dos quatro previstos no Protocolo, o VAR deve fazer sempre uma validação (em silêncio) daquela decisão. Se, na sua opinião, ela foi correta, não diz nada. Se, pelo contrário, entende que ela foi errada, informa o seu colega de campo.

3. O árbitro sabe que há sempre "revisão silenciosa" daquele tipo de lances, por isso nunca deve permitir que o jogo recomece (após a interrupção seguinte) sem ter do VAR o respetivo "ok".

4. Até há pouco tempo, as instruções dos Videoárbitros era para que houvesse rigor absoluto na regra do "erro claro e evidente". Ou seja, só deviam informar o árbitro que um daqueles quatro lances poderia estar mal decidido se as imagens o comprovassem de forma óbvia e inequívoca.

Há umas jornadas para cá, a prática mostrou que havia demasiada inflexibilidade nessa intervenção. Os VAR passaram então a recomendar a alteração (ou o visionamento) de determinado lance desde que, na sua opinião, pudesse haver erro de análise/avaliação do árbitro, em campo.

5. É por esse motivo que, ultimamente, temos visto os árbitros a recorrerem mais vezes às imagens que estão junto ao relvado.

6. O princípio mantém-se, no que diz respeito à opção de ver o lance ou de aceitar, de imediato, a indicação do VAR: se o erro for claro, objetivo, factual... o árbitro deve evitar perder tempo em consultar os écrans: aceita logo a indicação do colega.

Se, por outro lado, o alegado erro for relativo a lance mais subjetivo (onde, por exemplo, esteja em causa a intensidade de um contacto ou a dúvida de uma mão deliberada ou não), o protocolo sugere que o árbitro reveja, ele próprio, o lance.

7. É aqui que moramos, neste momento, em matéria de vídeo-intervenção, ou seja:

- O árbitro decide no relvado;
- O VAR tem "opinião" que foi cometido um erro e informa-o;
- O árbitro aceita logo a indicação se esta for de lance claro e evidente (por exemplo, agressão óbvia nas suas costas ou penálti absolutamente indiscutível);
- O árbitro consulta a imagem se se tratar de jogada de interpretação ou menos objetiva.

8. No fim... a decisão é sempre só do árbitro que está no relvado.

O Chaves venceu o Vitória de Guimarães por 4-3, na 18ª jornada da Liga 2017/18

O Chaves venceu o Vitória de Guimarães por 4-3, na 18ª jornada da Liga 2017/18

PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Ele é o chefe de equipa em todos os momentos do jogo. E o VAR, seja ele quem for, tenha a categoria ou estatuto que tiver... é, naquela partida, apenas mais um dos seus assistentes.

9. Quando o árbitro consulta o écran e decide alterar a sua decisão, é porque viu imagens suficientes para considerar que cometeu um erro claro e evidente. Em tese.

Se não a alterar, das duas uma: ou entende que a sua primeira leitura estava correta... ou entende que as imagens que viu não foram suficientes para comprovar ter existido o tal "erro claro e evidente". Aí, mantém a decisão inicial. Em tese.

Feito o resumo possível daqueles que são os procedimentos formais pré-estabelecidos nesta matéria, deixo para o fim a parte mais difícil de explicar: o lado humano da coisa.

E é este, tantas vezes este, que justifica alguns dos erros de análise a que temos assistido ao longo desta época.

Percebam a mensagem sem ver nela uma tentativa de justificar enganos ou de defender o indefensável. É a minha convicção plena do que conheço, do que vivi e do que tenho assistido e analisado:

- Em campo, os árbitros (tal como os jogadores) estão em permanente stress. Stress físico (cansaço) e stress psicológico (ter que analisar a toda a hora e ter que decidir bem a todo o momento).

Quando tomam uma decisão, querem muito que ela esteja certa. Muito mesmo!

Vêem o lance numa fração de segundos e interiorizam a sua primeira leitura como verdade absoluta. Mais do que aquilo que todos vemos nas imagens (onde a visão é o único sentido a ter em conta), eles ouvem pancadas, lêem reações, observam expressões, sentem o lance com toda a sua experiência e com todos os seus sentidos.

Quando alguém lhes diz "cometeste um erro e tens que o corrigir", todo aquele stress, todas aquelas emoções... entram em tilt.

É como se o Tico dissesse ao Teco que ele tinha feito tudo mal. E o Teco, claro... não gosta.

É contranatura.

É algo com o qual nunca tiveram que lidar - a sua autoridade sempre foi absoluta e irrefutável - e que de repente surge como uma nova verdade mas em segunda mão.

Esta realidade colide de frente com toda a sua formatação. Com anos e anos a decidir com base na imagem dinâmica do jogo jogado. Tudo isto abana a razão. Sacode a emoção. Confunde a perceção.

Para ajudar à festa, falta pesar ainda o valente coro de assobios, a orquestra de jogadores a dar música e a pressão tremenda de todo um mundo a querer perceber se há golo ou não, se era penálti ou não.

O árbitro João Capela

O árbitro João Capela

NurPhoto

E no meio desse turbilhão de coisas novas, os árbitros - sempre mascarados de homens serenos, podem optar por uma de três soluções:

- Ver a imagem, constatar o erro e corrigir a decisão inicial (ou então mantê-la, se não houver evidência de lapso). Este é o cenário perfeito, que repõe a verdade desportiva.

- Ver a imagem e mesmo que ela mostre claramente algo diferente do que julgaram inicialmente, manter como certa a primeira decisão porque aquilo que estão a ver é "a sua verdade" e não a verdade que todo o mundo vê claramente.

Em psicologia, chama-se a isto entrar em negação (às vezes, os árbitros precisam de distanciar-se para finalmente reconhecerem que avaliaram mal um lance);

- Ver a imagem que não prova que erraram ou até mostra que acertaram à primeira, mas a insistência ou convicção do VAR é tal que acabam por mudar a decisão, sem base legal para o fazer. Afinal de contas, o videoárbitro está sentado, sem stress, com várias televisões à frente e tem todas as condições para ver melhor do que ele.

Aí cometem o erro de decidir não com base no que vêem mas com base no que ouvem. Confiam na perceção do colega e não na sua.

Se juntarmos a estes processos puramente psicológicos, falhas pontuais da tecnologia (áudio menos percetível, imagens menos claras, ângulos pouco favorecidos, zooms menos nítidos, etc), talvez percebamos porque se diz que este é um processo muito mais longo e demorado do que todos nós imaginávamos.

Os árbitros estão tecnicamente bem preparados para a tecnologia. São bem acompanhados e têm apoio da estrutura a todos os níveis.

O seu maior inimigo, nesta fase de aprendizagem e de alteração radical de procedimentos e conceitos... são eles próprios. A sua humanidade. A sua natureza terrena.

Trabalhando isso, mantendo o resto e otimizando a tecnologia, a ferramenta tem tudo para ser absolutamente fantástica... e o homem terá tudo para a manusear com excelência.