Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Resgatar a ligação aos animais de estimação: um exercício de antropomorfismo ou de reumanização?

Ana Bispo Ramires

Max Mumby/Indigo

Partilhar

Nos últimos tempos tem surgido informação nos diferentes canais de comunicação que merece alguma reflexão no que respeita este tema.

Dos avanços legislativos referentes à penalização dos maus-tratos ou à presença de animais em espaços públicos (restaurantes) que, desde logo, fez surgir uma vaga de fervorosa celebração ou contestação (junto dos defensores ou opositores mais fundamentalistas); às notícias do abandono de mais de 40 mil animais em 2017 (sendo eutanasiados cerca de metade); ou às manifestações de apoio espontâneo (muito raras anteriormente) em situações em que um animal se encontra em risco na via pública (muito recentemente, por duas ocasiões, um numero alargado de condutores parou de circular enquanto um animal não era resgatado e colocado em segurança).

De uma forma mais ou menos frequente, o tema tem estado presente no nosso quotidiano - por boas e menos boas razões.

De facto, a causa animal tem cada vez mais defensores (poucos ainda, para as necessidades que tem). mas, tal como todas as outras causas de solidariedade, só vê justificada a sua existência porque, na realidade, como indivíduos, muitos de nós falhamos, no que respeita ao sentido comunitário vigente (em todas as suas vertentes – direcionada para crianças, idosos, animais, precaridade e tantas outras que poderiam ser enumeradas).

Mas não, este não pretende ser um artigo de censura... muito pelo contrário, pretende ser um artigo de ALERTA, pois, na realidade, não estamos a falhar com eles (animais), ESTAMOS A FALHAR CONNOSCO PRÓPRIOS e com as gerações que se avizinham (e que, curiosamente, serão os prestadores de cuidados quando a nossa geração envelhecer).

Senão, vejamos.

Em 2014, a curta metragem animada "The Present", dirigida e co-escrita por Jacob Frey e co-escrita com Markus Kranzler, ganhou 60 prémios de vários festivais de cinema e ganhou aclamação da crítica dos especialistas.

De uma forma muito intuitiva, e tocando uma enormidade de temas distintos que poderiam ocupar uma imensidão de artigos (como, por exemplo, o "treino" em comportamentos aditivos que os nossos jovens fazem, via jogos e redes sociais - e sua implicação na destruição de qualquer capacidade empática, com claras repercussões numa série de áreas, nomeadamente, na intensificação de comportamentos de alienação, agressividade e isolamento social), esta curta-metragem ilustra como um jovem inicia o seu processo de restruturação de auto-estima, através da ligação a um ser vivo.

Quem foi, afinal, resgatado?

De facto, existem já uma imensidão de estudos que reportam que o SUPORTE SOCIAL É UM PILAR CRÍTICO PARA O BEM-ESTAR FÍSICO E PSICOLÓGICO de cada um de nós, traduzindo-se numa maior centração em nós próprios, como indivíduos e na nossa vida.

Estudos mais recentes identificam que o relacionamento com um animal complementa esta nossa experiência social (não "competindo", sequer, com a mesma - por outras palavras, numa vida equilibrada é suposto balancearmos a presença de amigos, pessoas significativas e animais).

Neste âmbito, não só se encontra cientificamente comprovado que a coexistência com um animal resulta numa eficaz alavanca para lidarmos eficientemente com eventos de vida stressantes, mas também, que a mesma tem efeitos significativos, tais como:

- consolidação de auto-estima;

- redução da presença de fenómenos afetivos, como depressão e ansiedade;

- redução da sensação de isolamento e solidão;

- menor perceção de doença física e consequente menor visita a médicos;

- estilo de vida mais saudável (melhor qualidade cardíaca);

- percpção subjetiva de felicidade mais elevada.

(National Center for Health research, USA 2015)

Por tudo isto, por uma razão de mais saúde e mais qualidade de afetos, das nossas crianças aos nossos seniores, passando por nós próprios, a integração de um animal no nosso quotidiano traduz-se, a médio/longo prazo, numa imensidão de benefícios e ganhos que contribuem decisivamente para elevação do nosso bem-estar.

Então, qual a razão de tanto abandono?

Pelo desafio que trazem aos limites da nossa paciência ou tolerância ao erro (quando roem ou estragam alguma coisa, quase sempre por inconsistência das regras estabelecidas pelos donos), a nossa incapacidade em nos comprometermos emocionalmente com alguma coisa a médio/longo prazo, por não sabermos lidar com a nossa própria frustração, sensação de incompetência e ausência de “resultados” a curto-prazo (ex: o controlo dos esfíncteres ser adquirido “de um dia para o outro”, não respeitando sequer, questões de maturação biológica), entre outras.

Acima de tudo, por uma profunda ausência de consciência de que, ao "desistirmos" deles estamos, na realidade, a DESISTIR DE NÓS PRÓPRIOS... como pessoas e como modelos para as gerações que nos observam.

É que, de facto, a integração (responsável) de um animal em contexto familiar traduz-se, invariavelmente, num exercício de construção de responsabilidade, cooperação (entre todos os elementos do agregado), empatia e afetos que, só por si, se traduz NUMA ENORME OPORTUNIDADE DE TREINO DE (imprescindíveis) COMPETÊNCIAS DE VIDA.