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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Os “desempenhos globalmente positivos” dos árbitros na 29ª jornada da Liga, analisados por Duarte Gomes

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa as prestações dos árbitros na 29ª jornada da Liga, na qual houve alguns casos duvidosos, no Bonfim, no Dragão e em Alvalade

Duarte Gomes

Luís Godinho apitou o Vitória de Setúbal-Benfica

NurPhoto

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Depois de uma pausa sabática, regressamos hoje ao ópio do povo, que é como quem diz... analisamos de seguida algumas das decisões dos árbitros nos jogos dos três eternos candidatos ao título.

Apesar do campeonato profissional contar com nove jogos por jornada, esta crónica jamais sobreviveria se apenas se referisse às arbitragens das seis partidas onde não estiveram Porto, Sporting e Benfica.

Não deixa de ser curioso que aqueles que tanto criticam o protagonismo dado pela imprensa aos três grandes sejam exatamente os mesmos que lhes dão audiências em permanência, consumindo avidamente tudo o que lhes diga respeito (e ignorando tudo o resto). Afinal a culpa é de quem? De quem vende o produto... ou de quem o compra?

Mas como o povo é quem mais ordena, façamos-lhe a vontade e olhemos então para as arbitragens dos jogos do Bonfim, Dragão e Alvalade.

Luis Godinho, Nuno Almeida e Bruno Esteves - por essa ordem - tiveram desempenhos globalmente positivos. Os três primeiros classificados da Liga venceram as suas partidas e quando assim é, o ruído exterior não atinge mínimos preocupantes para a imagem da competição.

As arbitragens foram na mesma linha: decisões técnicas quase sempre corretas, personalidade forte, boa presença física e demasiada permissividade disciplinar.

Em Setúbal, Luis Godinho - árbitro em crescendo e com enorme potencial - dirigiu jogo com várias certezas e uma enorme dúvida. Mas vamos por partes.

Capítulo disciplinar: Fejsa, Wallyson e Arnold tiveram abordagens negligentes e escaparam ao amarelo. Pior apenas esteve Rúben Dias, que conseguiu terminar o jogo sem ser expulso. Depois de ter sido advertido com justiça, o central encarnado teve duas entradas sucessivas (aos 74' e 76') sobre André Pereira, sendo que no mínimo a segunda justificava nova cartolina amarela.

Tecnicamente: Rúben Dias sofreu carga de André Pereira antes de agarrar a camisola daquele (falta atacante antes de ser penálti); Salvio foi mesmo puxado, no ombro, pela mão direita de Luis Filipe. A dramatização da queda "a duas velocidades" não omitiu a sua causa primeira, que foi a infração do defesa vitoriano; e apenas não ficou claro - porque o operador entendeu não dar qualquer repetição do lance - uma jogada muito rápida na área encarnada (22' da 1ª parte) em que Semedo caiu após disputa de bola com Zivkovic. Apesar de só termos percecionado uma imagem corrida e horas depois do apito final, ficámos com dúvidas sobre a legalidade da intervenção do extremo encarnado.

MIGUEL RIOPA/GETTY

No Dragão, Nuno Almeida, árbitro experiente e com qualidade, esteve bem tecnicamente mas generoso disciplinarmente: o penálti de Tissone sobre Ricardo Pereira foi indiscutível e não houve mão deliberada de Diego Galo, após cabeceamento do lateral azul e branco.

De resto, Herrera devia ter sido advertido pelo mesmo motivo que Rodrigo acabou por ser mais tarde (falta profissional, a travar saída para contra-ataque); Soares empurrou ostensivamente um adversário quando a bola estava muito longe de ser disputada (antes o avançado brasileiro já tinha pisado, com negligência, o calcanhar de Ponck); Braga viu bem o amarelo por entrada duríssima sobre Sérgio Oliveira; Nildo devia ter sido advertido após derrubar Hernâni em lance promissor; e Derley carregou Filipe, pontapeou a bola para longe, protestou com o árbitro algarvio... e escapou à advertência.

Ter a autoridade colocada em causa é uma das poucas situações de jogo em que um árbitro não pode gerir nem facilitar.

NurPhoto

Em Alvalade, atuação algo intermitente de um árbitro experiente e habitualmente seguríssimo.

Acuna cortou jogada prometedora e escapou ao amarelo (falta sobre Xavier); Bas Dost marcou nas alturas num lance em que colocou a mão no ombro de Filipe Ferreira: percebe-se e aceita-se a amplitude da interpretação de Bruno Esteves; Assis e Coates entraram em contacto mútuo (na área do Paços), em lance bem analisado pelo juiz de Setúbal; Miguel Vieira escapou a amarelo obrigatório após entrada duríssima sobre Battaglia; Bruno Fernandes deixou-se cair após sentir o contacto legal de Assis; golo invalidado a Bas Dost com dezenas de pontos de interrogação: a enorme dificuldade de interpretação daquele instantâneo justifica que se aceite como boa a decisão do árbitro assistente, sendo certo que em lance de dúvida (como foi aquele)... a indicação é para não punir; por último, Assis terá tocado, com o joelho direito, na perna esquerda de Palhinha e terá sido isso que levou o jovem do Sporting a tropeçar em si próprio. Visto à lupa, pareceu mesmo penálti.

E pronto. É isto.

Fica o escrutínio escrito, minucioso, quase maldoso, calibrado pelo que se viu e reviu (exaustivamente) nas várias imagens e repetições televisivas. Tal como o povo gosta porque é assim que o povo perceciona os jogos.

Dentro dessa caixa mágica que teoriza um jogo que na realidade é bem diferente, com intensidades distintas, dinâmicas aceitáveis e choques compreensíveis.

Só sabe disso quem já pisou um relvado.