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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O golo erradamente anulado ao Estoril (pelo VAR) e outros lances duvidosos da 31ª jornada da Liga analisados por Duarte Gomes

O ex-árbitro Duarte Gomes esclarece os lances mais polémicos no Estoril-Benfica, no Sporting-Boavista e no FC Porto-Vitória de Setúbal

Duarte Gomes

O Estoril-Benfica acabou com uma vitória para os visitantes (1-2)

Gualter Fatia/Getty

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A última jornada trouxe os habituais lances de arbitragem que aqui procuramos desconstruir e, sempre que possível, enquadrar e explicar.

Socorremo-nos habitualmente dos jogos dos chamados três grandes, por serem os mais visíveis e aqueles que arrastam o maior número de adeptos. Também aqueles que estão sujeitos a um maior escrutínio.

No António Coimbra da Mota, no Estoril, a arbitragem de Hugo Miguel cometeu alguns lapsos que as imagens televisivas evidenciaram. Um dos mais evidentes terá sido a tolerância disciplinar para com Ailton, defesa estorilista, que cometeu várias infrações no primeiro tempo - três delas passíveis de cartão amarelo - mas que só por uma vez foi advertido.

É justo que se diga, no entanto, que o critério largo do internacional de Lisboa foi uniforme e equitativo, já que Rúben Dias e Fejsa também fizeram faltas negligentes que justificavam a sanção disciplinar.

Ainda assim, no primeiro tempo, o erro mais evidente terá sido cometido, por omissão, pelo VAR: Ailton, ao tentar disputar a bola com Raul, atingiu com o cotovelo o rosto daquele, provocando a sua queda e posterior lesão. A violência da pancada deixou o avançado mexicano a sangrar do sobrolho. Lance claro e evidente na área do Estoril, passível de pontapé de penálti e vermelho direto por conduta violenta.

Na 2ª parte, nota para outras duas situações. Uma queda de um jogador do Estoril após contacto com Fejsa (na área encarnada), em lance quanto a nós bem decidido. Os choques "lado a lado" fazem parte da tentativa de dois jogadores ganharem a posse de bola em corrida e são comuns. Devem ser permitidos até ao seu limite máximo, a menos que configurem clara infração. Nestas situações, há sempre interesse do avançado em "cair fácil", porque sabe que o benefício é grande (pode ser assinalado pontapé de penálti a seu favor). A jogada - que aconteceu ali como aconteceu noutros palcos, em semanas anteriores - foi bem analisada. Se os árbitros não tiverem, para este tipo de lances, esta amplitude de critério, correm o risco de ter que punir todos os contactos nas áreas. Não é o que se deseja nem espera de um desporto que permite fisicalidade.

O outro momento foi o golo anulado ao Estoril. Quanto a nós, erradamente. O avançado canarinho estava bem adiantado face à defesa encarnada mas pareceu estar em linha com a bola. Mesmo que o tronco estivesse ligeiramente adiantado face àquela, o árbitro assistente e o VAR jamais poderiam anular o lance, por tratar-se de uma jogada de dúvida legítima. Fez bem Ricardo Santos ao não punir em campo e fez mal o Videoárbitro em alterar a decisão inicial sem a certeza inequívoca que tinha sido cometido um erro. O amarelo dado a Allano (despiu a camisola) manteve-se, porque os comportamentos antidesportivos não são anulados quando a jogada é retificada.

Gualter Fatia/Getty

Em Alvalade, o leiriense Fábio Verissimo dirigiu um jogo fácil mas com menos segurança do que é habitual. O pontapé de penálti cometido por Robson foi por demais evidente (braço direito bem esticado na horizontal, totalmente desenquadrado da posição normal para o seu movimento defensivo) mas só foi sinalizado pelo VAR.

O amarelo entretanto (bem exibido) a Bryan Ruiz devia ter sido anulado. Ao contrário do que aconteceu com Allano no Estoril/Benfica, aqui o avançado do Sporting rasteirou o seu adversário apenas para cortar ataque prometedor. Nao foi nem negligência nem atitude antidesportiva. Neste caso concreto, o protocolo exige que se invalide a ação disciplinar.

Num momento anterior, Bas Dost - na área adversária - tentou disputar a bola com Rossi, havendo contacto entre ambos. Mais um igual a tantos outros, que se aceita pela movimentação e intensidade que ambos colocaram no lance.

MIGUEL RIOPA/Getty

Aconteceu exatamente o mesmo nos minutos iniciais do jogo entre FC Porto e Vitória FC: Soares caiu na área sadina, perante a presença física de Vasco Fernandes mas sem que o defesa sadino tivesse cometido falta para penálti. Esteve bem João Pinheiro em desvalorizar o contacto.

Num jogo entusiasmante e com muitos golos, o jovem internacional de Braga esteve bem, apesar de um ou outro equívoco técnico e disciplinar. Manteve critério largo e uniforme durante toda a partida e para ambas as equipas. A segunda parte teve menos intensidade e mais contactos. Nos minutos finais - onde há mais cansaço e menos lucidez - Maxi Pereira (sobre Bonilha) e Arnold (sobre Alex Telles) foram advertidos com justiça.

Estamos na reta final do campeonato, em que tudo se decide. Espera-se contenção e civismo de quem joga e muita concentração e empenho de quem arbitra.