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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Os “penáltis de TV” e as falhas do(s) videoárbitro(s) na 32ª jornada da Liga, segundo Duarte Gomes

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa as prestações dos árbitros na 32ª jornada da Liga portuguesa 2017/18

Duarte Gomes

Nuno Almeida apitou o Benfica-Tondela, da 32ª jornada da Liga 2017/18

Gualter Fatia/Getty

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O balanço desta jornada tentará centrar-se menos nos lances em si e mais na lição (ou lições) que se pode retirar de cada um deles.

Por muito que este "trabalho" (o de comentar lances de forma técnica e distante) possa ser apelativo para quem quer apenas ouvir a opinião alheia, a verdade é que para mim só faz sentido se sobre cada análise houver uma ilação. Algo de pedagógico, de positivo que se possa retirar dali:

"O que levou ao erro? Como podia ser evitado? O lance foi claro ou cinzento? Porque se diz que há situações em que se aceita a leitura do árbitro? O que diz a lei? Que instruções têm os árbitros? O que devia ter sido feito para evitar o lapso? A falha foi grave ou compreensível?" And so on... and so on...

Nesta perspetiva, o jogo da Luz foi interessante.

Raúl sofreu penálti (rasteira imprudente de Jorge Fernandes) antes de Pizzi marcar. Lance difícil de ver em campo e sem certezas absolutas para a video-intervenção (que acabaria por ser inócua, visto que a mesma jogada terminou em golo).

Depois, as ações de Cervi e Rúben Dias. Na minha opinião - sempre com recurso às imagens - ambas para cartão vermelho.

O argentino teve conduta violenta para com J. Fernandes. Pé bem armado, que atingiu, de forma excessiva, toda a perna e por fim, também o pé do defesa do Tondela. Lance que em campo pode não ter parecido tão grave (entendo a leitura do árbitro, que apenas deu amarelo), mas que o VAR tinha toda a obrigação de retificar, face à clareza da imagem que vimos.

Já Rúben Dias cometeu falta clara sobre Tomané, quando o avançado estava isolado, em direção à baliza, relativamente perto da área e com fortes possibilidades de marcar. Falhou o árbitro e o seu assistente mas falhou, sobretudo, o videoárbitro, que tinha obrigação de atuar face ao lance, quanto a mim claro, para expulsão.

Pelo meio, golo anulado ao Tondela (aceita-se a leitura de pé em riste) e o tal "penálti de TV" por assinalar sobre Raúl: na verdade, Ricardo Costa quis tudo menos jogar a bola. Saltou para cima do mexicano, acertando-lhe com a anca nas costas e com o ombro no pescoço. Importante referir que, em campo, o lance pareceu apenas de choque casual. De contacto normal. No rigor do escrutínio via tv... penálti.

São este tipo de jogadas que definem bem a diferença entre as decisões que são aceitáveis em campo e aquelas que tecnicamente são esmiuçadas pelas imagens.

Neste momento há dois tipos de jogos: o que se joga no relvado e o que se vê na televisão. É importante que olhemos para os dois com essa noção clara, para que não robotizemos um espetáculo que permite contactos, intensidades e choques. Na dúvida, perguntem sempre a vocês próprios:

- "Face às circunstâncias, que tipo de decisão é que o futebol espera que se tome, neste lance"?

NurPhoto/Getty

Em Portimão, lance curioso entre dois Fernandes. O Rúben, capitão dos algarvios, fez tackle legal para cortar a bola e foi surpreendido pela finta para trás, do Bruno. Tocou na bola com a ponta dos dedos, mas sem gesto deliberado. O braço estava no chão para apoiar da queda, não para cometer infração.

Mais tarde, Rafa Soares colocou o braço direito no esquerdo de Bas Dost e pareceu puxá-lo. Outro penálti de TV. No campo ninguém percebeu se a queda do holandês foi motivada por aquele contacto ou se apenas se desequilibrou, por estar a correr de costas. Na televisão, o braço estava lá, houve nexo de causalidade (toque e queda), logo legitimidade legal para sancionar com castigo máximo.

Repito a pergunta: "Que tipo de decisão é que o futebol esperava que se tomasse, naquelas circunstâncias?".

Na Madeira, dois lances bem interessantes: o da expulsão de Amir e, já perto do fim, o amarelo que afinal foi vermelho a Rúben Ferreira.

HELDER SANTOS/Getty

No primeiro, concordo em absoluto com a decisão de Xistra: a bola tocou no cotovelo direito do avançado brasileiro sem que este fizesse gesto deliberado nesse sentido. O jogador estava em corrida, no momento desse toque tinha os olhos no GR do Marítimo e estava a encolher-se, face à dureza previsível da entrada de Amir.

Não jogou a bola de forma estratégica e ostensiva. Ato contínuo, foi carregado, de forma grosseira e a pés juntos, pelo guardião madeirense. Lance, só por si, para vermelho direto. Mesmo que Xistra tivesse considerado a mão de Soares intencional, a expulsão mantinha-se sempre. O que mudaria seria apenas o sentido do pontapé livre (passaria a ser favorável ao Marítimo).

Já no lance de R. Ferreira... opinão muito clara: a Lei 12 diz que, para haver cartão vermelho por corte de clara oportunidade de golo, têm que ser cumpridos vários requisitos. O primeiro é que o árbitro considere a distância entre o local da infração e a baliza adversária, mas não fala "em metros". Não quantifica. Fica ao critério de quem avalia. Rica prenda envenenada.

Neste caso particular, sou da opinião que estamos perante um "lance-limite". É justo dizer que Paciência podia claramente fazer golo? É. Por isso, o vermelho seria bem exibido.

Mas seria ou não justo deduzir igualmente que, a várias dezenas de metros da baliza, podia não ser tão claro assim que marcasse golo? Sim, seria. Por isso o amarelo também caberia na equação.

A única certeza - para mim, inequívoca - é que este não era um lance passível de video-intervenção. Porquê? Porque qualquer que fosse a decisão tomada em campo (amarelo ou vermelho), ela jamais seria absolutamente inequívoca.

Como sabemos, o VAR só pode atuar quando há evidência inabalável de erro claro do árbitro. Ali garantidamente não houve.

Pede-se coerência neste aspeto, para que cá fora todos possamos perceber que o recurso ao VAR ou obedece ao rigor escrupuloso do protocolo ou escolhe o caminho oposto. O do meio é que não.

Duas notas finais:

1 - Excelente trabalho do VAR em Belém. Esgaio fez mesmo falta sobre Persson e o golo de Paulinho não podia valer;

2 - Em Vila do Conde, Guedes sentiu um ligeiríssimo toque (fortuito) do GR do D. Chaves e caiu, um metro depois, com aparato. O árbitro estava legalmente legitimado para considerar o lance faltoso (como considerou), mas pela terceira vez nesta crónica, fica a desafio: vejam bem esse lance e digam-me... que tipo de decisão esperava o futebol nessa jogada? Penálti... ou simulação?

Temos que abandonar a ideia de que o enganado é o malandro e o enganador apenas o profissional que faz o seu trabalho.