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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

A verdade desportiva que se apregoa é de uma maldade estratégica que reflete o pior que há na mente humana (Duarte Gomes explica porquê)

O ex-árbitro Duarte Gomes alerta os adeptos para o que diz ser “a era do vale tudo para branquear erros próprios” e ressalva que, no final, com mais ou menos erros, “o melhor é sempre, sempre o campeão”

Duarte Gomes

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Não é de hoje nem de ontem. A questão da verdade desportiva, algo que qualquer pessoa justa, sensata e de bem sempre defendeu e defenderá, é um tema estruturante no desporto em geral e no futebol em particular. É o seu elemento base, o fator crucial, o garante de que, no final, deve apenas e só vencer o melhor. Aquele que mereceu e que melhor se adaptou às vicissitudes de uma competição.

No entanto, há uns anos a esta parte, essa discussão - repito, muito nobre e premente - passou a centrar-se apenas na questão da arbitragem. Ou seja, o discurso vigente é de que os erros dos árbitros determinam em exclusivo a verdade de uma partida, de uma prova, de todo um campeonato.

Essa mensagem, pisada e repisada vezes sem conta, tem sido de tal forma incisiva que as “pessoas” parecem conformadas com ela, com essa verdade pré-fabricada que é, obviamente, uma mentira bem elaborada.

Ponto prévio: os árbitros são um dos atores principais do jogo. Fazem parte integrante do espetáculo que se joga lá em baixo, no relvado. Todas as suas decisões - nomeadamente aquelas que podem ter influência direta ou indireta no resultado - podem naturalmente ter impacto (direto ou indireto) na verdade desportiva. Claro que sim! Eles são, de facto, uma das variáveis a considerar na elaboração desse raciocínio, sempre subjetivo e pouco palpável.

Mas daí a dizer que são os únicos que a determinam é de uma desonestidade intelectual e sem paralelo. E as coisas são tão claras, tão óbvias, que o que choca mesmo é a forma como verdadeiros rebanhos de adeptos (e não só) compram essa charada como se de uma ciência exata se tratasse.

O árbitro Tiago Martins devolve a camisola a Gelson Martins e... expulsa-o, com um segundo amarelo, frente ao Moreirense

O árbitro Tiago Martins devolve a camisola a Gelson Martins e... expulsa-o, com um segundo amarelo, frente ao Moreirense

António Cotrim/Lusa

Tal como as equipas de arbitragem, também os jogadores e os treinadores são protagonistas do jogo. Estão lá, à flor da relva, no centro de todas as decisões. Além deles, também os dirigentes, de uma maneira diferente, são peça determinante deste puzzle a que chamamos futebol.

Todos - todos sem exceção - dão o seu contributo para a verdade do jogo. O erro do jogador que falha o penálti não é maior nem menor do que o do árbitro que não o assinala. O erro do guarda-redes que é mal batido não é diferente do erro do árbitro assistente, que anula um por fora de jogo que não existe. O erro do avançado que falha o golo de baliza aberta não é melhor nem pior do que o do árbitro que não viu uma agressão.

O mesmo se aplica ao erro no passe, ao amarelo (que é o segundo) ou ao vermelho desnecessário.

O mesmo se aplica também à substituição tardia ou feita no momento errado, à má abordagem tática, às más opções para o onze ou à má liderança.

O mesmo se aplica, ainda que indiretamente, às más contratações, aos ordenados em atraso ou à má relação entre quem manda e quem joga.

Tudo isso influi no rendimento. E tudo isso afeta, de uma maneira ou outra, a tal verdade do jogo.

O futebol não é, de facto, uma ciência exata. É dirigido, jogado e arbitrado por pessoas que, em campo, são a soma e o reflexo das suas personalidades, das suas emoções e motivações. A soma e o reflexo da sua capacidade, competência e experiência.

Uma equipa motivada, bem treinada e superiormente dirigida, se tiver muita qualidade, ganha. Ganha sempre. Porque, no fim, o melhor é sempre, sempre o campeão.

A verdade desportiva que hoje se apregoa (o clube X tinha mais cinco pontos se não fossem aqueles três penáltis por assinalar ou o clube Y teria mais oito se aqueles quatro jogadores não tivessem sido expulsos ou se o golo não fosse anulado) é de uma maldade estratégica que reflete o pior que há na mente humana. A sua inclinação para pôr no ombro de terceiros parte considerável da sua responsabilidade. Senão isso, a sua enorme incapacidade em ver as coisas tal como elas são de verdade.

A minha tia Maria, se não tivesse nascido mulher, seria meu tio. E a minha avó Judite, se cacarejasse, era galinha.

Há coisas que não se compreendem.

Não pela forma como são ditas e repetidas (estamos na era do vale tudo para branquear erros próprios e fugir às responsabilidades pessoais), mas sobretudo porque há multidões que a engolem, de garfo e prato, convencidas que aquilo é mesmo assim. É uma espécie de hipnose coletiva que, por incrível que pareça, funciona.

Nesta coisa do poder comunicacional sobre massas, o futebol não anda muito longe daqueles líderes de seitas que vemos nas notícias, um pouco por todo o lado. Só não sabemos se os discípulos estão dispostos a imolar-se caso venha a “ordem superior”, mas nunca se sabe...

Enquanto o “adepto” não sair dessa redoma e não evoluir para o pensamento próprio, enquanto não souber olhar para este fenómeno com a distância e serenidade que ele exige, esta “verdade desportiva” será sempre aquela que melhor vende e mais convém.

A rivalidade transformou-se em ódio e esse atira estas pérolas para o povo sentir menos. É que dói de forma muito diferente esta coisa boa de canalizarmos a raiva, tristeza e frustração para cima de alguém. Ó se dói...