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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Faltou uma expulsão na Luz, mas em geral as coisas correram bem, muito bem na última jornada da Liga (e Duarte Gomes explica porquê)

Antigo árbitro dá nota positiva a todas as arbitragem da derradeira ronda de uma temporada atípica marcada "pela introdução da tecnologia, uma ferramenta de excelência, que tem tudo - mas mesmo tudo - para ajudar o futebol a ser um jogo mais justo e verdadeiro", sublinha o ex-juiz

Duarte Gomes

Carlos Rodrigues/Getty

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Fim das contas.

A época terminou. Dentro do relvado, que é o que verdadeiramente importa, a "luta" foi intensa, renhida e por vezes, acalorada. O certo é que jamais ultrapassou limites.

Todos os intervenientes diretos deste espetáculo cumpriram a sua missão com empenho e profissionalismo, muitas vezes indiferentes à poluição sonora e distrações exteriores tantas vezes levantada por quem vive do futebol mas não ama verdadeiramente este jogo.

Foram nove meses consecutivos de competições nacionais e internacionais, que sujeitaram jogadores, árbitros, técnicos e restante staff a uma entrega e desgaste desmesurados.

Como em todas as outras épocas desportivas, o fim da competição revelou o campeão e vice-campeão, as equipas apuradas para a UEFA, as promovidas e despromovidas.

E é muito bom poder afirmar que, na última jornada, as coisas correram bem, muito bem para as equipas de arbitragem. Era importante que assim fosse.

O pior que pode acontecer é atribuir-se aos árbitros e às suas decisões a culpa do que acontece na última jornada, mesmo sabendo racionalmente que essa foi apenas uma etapa no meio de uma longa maratona.

Na Luz, Fábio Veríssimo esteve globalmente seguro num jogo disputado com elevação e correção. Decidiu bem todos os lances ocorridos no interior das duas áreas: desvalorizou pequenas quedas provocadas por pequenos (e naturais) contactos entre avançado e defesa e assinalou aquela que foi a infração mais evidente e ostensiva. Alfa Semedo bem procurou esconder os braços atrás das costas mas foi traído, no último segundo, por um gesto deliberado que o levou a cortar a trajetória da bola cruzada por Grimaldo. O lance foi mesmo passível de castigo máximo mas sem qualquer sanção disciplinar, como ali mandam as regras. É que usar as mãos para impedir cruzamentos para as áreas (onde habitualmente moram vários jogadores das duas equipas) não é considerado corte de ataque prometedor.

Na minha opinião, o único erro de análise do jovem juiz de Leiria foi de ordem disciplinar. Luisão derrubou o venezuelano Peña, quando este - já depois de aguentar carga inicial de Rúben Dias - seguia em zona frontal, isolado e em direção à baliza encarnada. Se reparmos no instante fotográfico da infração (que é o momento que conta para análise), constatamos que, face ao seu posicionamento e velocidade, o avançado do Moreirense tinha claras possibilidades de marcar golo. O lance era passível de cartão vermelho direto, não apenas de amarelo.

GREGORIO CUNHA/EPA

Na Madeira, o renovado Estádio dos Barreiros foi palco de outro jogo decisivo para as contas finais.

Jorge Sousa esteve seguríssimo e nem precisou de recorrer aos cartões para dirigir um jogo intenso e emotivo mas disputado com enorme correção.

Apesar de uma ou outra falha disciplinares - assumida por um critério largo mas uniforme para as duas equipas -, o experiente internacional do Porto manteve o jogo sempre controlado e foi coerente do primeiro ao último minuto.

O anti-jogo do Marítimo, visível a espaços - sobretudo na etapa complementar - podia ter merecido mais tempo de compensação no final (Jorge Sousa deu apenas 5m de descontos), mas o certo é que a partida só terminou bem depois do minuto 96. Nada a dizer por aí.

Na véspera, em Guimarães, o jogo era de festa e consagração para o merecido campeão nacional. Vitória SC e FC Porto despediram-se da época 2017/18 com a vontade de querer terminar em grande e com sensação de dever cumprido.

Falar das incidências técnicas e disciplinares dessa partida seria tirar a glória ao vencedor e o mérito guerreiro da equipa vitoriana... mas é justo referir que o jogo correu muito bem a João Capela.

Duas palavras especiais: uma para Moreno, que terminou uma longa e bonita carreira enquanto futebolista profissional e outra para Nuno Roque, árbitro assistente com vinte e oito anos dedicados à arbitragem, que fechou em Guimarães um ciclo dedicado à arbitragem.

Mas ontem foi também dia de outras decisões importantes, noutros palcos do país.

Em Setúbal, Vila da Feira, Portimão e Vila do Conde jogava-se mais, muito mais do que uma mera partida de futebol. Os estádios encheram para acompanhar as emoções finais de uma época que, para algumas equipas, só se decidiria no derradeiro dos jogos.

Artur Soares Dias, Rui Costa, Luis Godinho e Tiago Martins - árbitros experientes e categorizados - tiveram atuações de enorme qualidade em jogos que exigiam concentração máxima e muita, muita serenidade.

A época fechou bem, no que diz respeito a decisões estruturantes.

Foi um ano atípico, marcado pela introdução da tecnologia, uma ferramenta de excelência, que tem tudo - mas mesmo tudo - para ajudar o futebol a ser um jogo mais justo e verdadeiro. Assim o homem que a conduz aprenda a dirigi-la sem medo, com coragem, independência e qualidade.