Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

O pisão em Gelson condicionou o jogador? Não. Mas podia ter sido punido (por Duarte Gomes)

Duarte Gomes analisa a prestação da arbitragem na final da Taça de Portugal, um jogo atípico, com condicionantes diversas - e com um bom desempenho global

Duarte Gomes

Gualter Fatia

Partilhar

A Taça de Portugal é, quase sempre, sinónimo de festa. Aquele que é habitualmente o último jogo oficial da época tem história e tradição.

No domingo, no Estádio do Jamor, Desp. Aves e Sporting encontraram-se numa final inédita. Relvado imaculado, organização de excelência e bancadas cheias. Estava tudo lá.

Também para o internacional Tiago Martins esta foi a primeira grande final da carreira. O árbitro de Lisboa, auxiliado "em sala" pelo também internacional Artur Soares Dias, teve uma vasta equipa a acompanhá-lo: para além dos seus dois habituais assistentes, contou ainda com o apoio de um 4.º árbitro, de um árbitro assistente de reserva e de dois jovens estagiários, que assim viram premiada a sua entrega e dedicação em (pleno) início de carreira.

Depois de uma semana muito triste, com acontecimentos que mancharam irremediavelmente a imagem do futebol e do desporto português, esta crónica parece perder relevância. As questões puramente técnicas, que aqui habitualmente analisamos e explicamos, são hoje muito pequeninas face à dimensão do que se viveu nos últimos tempos.

No entanto, esta é também a nossa obrigação e o nosso dever: olhar para a questão da arbitragem, identificar os lances mais discutíveis, emitir opinião mas mais importante, procurar esclarecer o leitor sobre algumas das decisões tomadas.

Na partida de domingo, Tiago Martins assinou prestação globalmente boa: movimentou-se sempre bem, acompanhou de perto as incidências, manteve relacionamento equilibrado e sensato com os jogadores e foi coerente no critério que utilizou.

A opção de deixar jogar até ao limite foi corajosa e beneficiou a fluidez de jogo (como os adeptos tanto gostam e pedem) mas teve riscos. Tem sempre, aliás. No caso, os maiores terão sido o assumir que pequenas infrações podiam ficar por assinalar... e a possibilidade de não serem exibidos cartões em situações que potencialmente os podiam justificar.

Na primeira parte, Tissone teve duas entradas mais agressivas sobre Bruno Fernandes. Ambas podiam pressupor outra opção disciplinar, mas o juiz lisboeta entendeu usar a pedagogia como forma de segurar os ímpetos do jogador avense. Foi coerente pouco depois, quando fez exatamente o mesmo a Ristovski (que teve entrada dura, por trás, sobre um adversário).

Guedes marcou em lance legal e, pouco depois, foi assistido dentro de campo. O jogo teve parado cerca de dois minutos numa situação que a lei obriga que se resolva fora das quatro linhas.

Com o jogo sempre em zona de risco (pela tal estratégia de intervir o menos possivel), a primeira advertência acabou por ser justa e saíu no momento certo: Amilton entrou com tudo sobre Coentrão e cortou saída rápida deste para contra-ataque. Não havia gestão possível.

O intervalo trouxe descanso físico aos jogadores mas intensificou a sua ansiedade. Todos sentiam que a atribuição de um título importante estava a apenas quarenta e cinco minutos de distância.

As entradas mais duras sucederam-se e a intolerância aumentou. Naturalmente.

Ponck e Vítor Gomes viram bem o amarelo, por faltas negligentes. Depois, Baldé e Acuña tiveram atitude antidesportiva um em relação ao outro e foram advertidos com justiça. O mesmo aconteceu a Nildo, quando este deliberadamente retardou o recomeço de jogo (afastou a bola para longe).

No entanto, aquele que entendemos ser o lance mais determinante do jogo aconteceu momentos antes do segundo golo do Desportivo das Aves. No fase inicial da jogada, Vítor Gomes ganhou a posse de bola a Gélson Martins, pisando com o seu pé direito o esquerdo do extremo do Sporting.

Este é um dos tais momentos - um de tantos que vimos está época - em que o escrutínio televisivo parece ir num sentido e todo o desenho prático da jogada... noutro.

É verdade que esse pisão não condicionou, em nada, a movimentação de Gélson, que prosseguiu a jogada com toda a naturalidade.

É também verdade que o jovem jogador do Sporting não caiu nem esboçou qualquer reação, dando a entender publicamente que o toque que sofreu pode não ter sido suficiente para o perturbar.

É igualmente verdade que o árbitro utilizou, em lances parecidos e ao longo de toda a partida, critério semelhante: absteve-se de punir.

Mas o que é inequívoco é que o pisão (ainda que ligeiro) existiu. Embora se perceba que, face a todos aqueles sinais, Tiago Martins tenha desvalorizado, é justo afirmar que, teoricamente, a falta podia ter sido punida.

Esta jogada representa, aliás, um dos maiores perigos da tecnologia ao serviço do futebol: o de tornar a análise televisiva tão minuciosa que quase nos esquecemos que, em campo, a intensidade e dinâmica de certos contactos são sentidos e percecionados por todos de maneira completamente diferente.

É importante que se construa a ponte entre estas duas visões, sob pena dela fomentar ainda mais a crítica desajustada (ao sabor dos olhos de cada um).

Nessa matéria... árbitros, comentadores e adeptos têm um longo caminho a percorrer.

Num jogo intenso e com emoção até ao apito final, esta foi a única nota a registar numa arbitragem coerente.

Nota final - Tiro o meu chapéu ao enorme profissionalismo dos atletas do Sporting e de toda a sua equipa técnica. Um verdadeiro exemplo para todos nós.