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Duarte Gomes escreve sobre a violência no futebol: “Só custa começar a varrer. O resto é pura poesia”

O ex-árbitro e comentador desportivo recorda o episódio de Alcochete para lançar um desafio

Duarte Gomes

Bas Dost ficou neste estado após ter sido agredido na Academia de Alcochete

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Se qualquer pessoa sensata mandasse, se o pudesse fazer despida de burocracias regulamentares, de impedimentos legais ou de constrangimentos pessoais, o futebol em Portugal seria, seguramente, um lugar diferente.

Como em tudo o que é apaixonante, mediático e importante, não é preciso inventar nada. O mérito mesmo é ter a coragem de importar modelos de sucesso e implementá-los. Adaptá-los à nossa realidade. Aplicá-los com independência e sem subserviência. Com rigor e sem medo.

Olhemos para o exemplo inglês.

Na década de oitenta, as tragédias de Heysel Park, primeiro e Hillsborough depois, atiraram a credibilidade do futebol britânico para a sarjeta. Fruto de dezenas de mortes evitáveis, a UEFA impediu as equipas inglesas de participarem nas suas competições.

Aproveitando uma questionável estratégia política, a Sra Thatcher - ainda hoje mal amada naquelas bandas - pediu a Lord Taylor que propusesse medidas que erradicassem a violência nos estádios. Assim nasceu o famoso "Relatório Taylor".

De entre mais de quarenta ideias apresentadas, umas menos outras mais exequíveis (a criação do BI do adepto só falhou porque, na altura, a tecnologia era primitiva), saíram as bases daquela que foi a maior mudança de paradigma do futebol em Inglaterra.

Governo e futebol decidiram por mãos à obra... e aos bolsos. Convencidos que aquele não seria um gasto exorbitante mas um investimento inevitável, mexeram em tudo. Tudo mesmo.

Nos estádios, todos os lugares passaram a ser sentados. Acabaram os fossos e gradeamentos, foi proibida a venda de álcool, os acessos foram facilitados e as saídas sinalizadas. Introduziram-se stewards (bem preparados), e recorreu-se menos à polícia, cuja presença física criava imagem de repressão. Passou a haver revista exaustiva à entrada e, sobretudo, iniciou-se algo crucial na época, que foi a vídeo-monitorização de todos os adeptos.

É certo que houve custos, que os bilhetes dispararam e que a capacidade dos estádios diminuiu, mas esses foram danos colaterais de um bem maior.

Criou-se a Premier League e com ela, profissionalizou-se um jogo que tinha, até então, demasiados tiques de amador.
As ações de sensibilização aumentaram e as campanhas para o fairplay dispararam. Maciçamente.

Aos poucos, os clubes foram percebendo que, todos juntos, valiam muito mais do que cada um por si. Curiosamente, foram os "grandes" os primeiros a encaixar essa ideia.

O profissionalismo trouxe acréscimo de qualidade, o que seduziu um número crescente de patrocinadores. Jogadores dos quatro cantos do globo sentiram-se gradualmente atraídos, tal como os operadores televisivos, que competiram duramente pelos direitos de transmissão.
Em poucos anos, o futebol negro, banido e pré-falido tornou-se numa referência mundial.

Ciente dessa evolução, as legislações desportiva e criminal adaptaram-se e passaram a punir, de forma absolutamente exemplar, quem fosse acusado de condutas ilícitas: os regulamentos tornaram-se implacáveis com agentes desportivos e clubes que prevaricassem, que ultrapassassem limites e a lei passou a perseguir o hooliganismo, sem dó nem piedade.

Muitos "adeptos" foram banidos de vez e outros tiveram que se apresentar na esquadra da zona de residência à hora que jogava a sua equipa. Outros foram obrigados a entregar o passaporte 5 dias antes da sua equipa jogar no estrangeiro. Quem falhasse, tinha bom remédio: era preso na hora. Sem "ses" nem "mas".

Ainda hoje é assim.

As câmaras que existem no interior dos estádios permitem identificar (facialmente e facilmente) potenciais arruaceiros e esses deixam de poder entrar em recintos desportivos. Lá dentro e antes de cada jogo, inspeciona-se tudo, de forma exaustiva. Cadeira a cadeira, bancada a bancada. Não há nada que possa ser lá deixado antes do apito inicial.

À porta, fica tudo o que é considerado perigoso. Não entram tochas, petardos nem qualquer outro artifício pirotécnico. Não entram garrafas, isqueiros, nem bolas de golfe dissumuladas nas zonas genitais de rapazes... e raparigas. Há testes de alcoolemia sempre que se justifique e selecão criteriosa dos locais onde são distribuídos adeptos de uma e de outra equipa.

Há um agente de autoridade afeto a cada clube profissional, responsável por identificar adeptos potencialmente perigosos e atuar sobre eles.

Nos estádios da Premier League, não há vedações. Muitos dos adeptos, que esgotam as bancadas, sentam-se junto aos bancos técnicos (literalmente colados a eles), onde estão ativos que valem milhões e milhões de libras. Nunca aconteceu nada.

Outros estão apenas a um, dois metros do relvado. E não entram lá para dentro. Nunca entram. Nem atiram objetos. Nem se portam mal. Nem ameaçam jogadores. Nem perturbam o árbitro assistente. Nem se batem. Porque será?

De facto, está tudo inventado mesmo.

A simbiose de medidas preventivas, com fortes campanhas de sensibilização e, acima de tudo, com a criação de um enquadramento regulamentar e legal rigorosos, é a única receita capaz de levar a bom porto o futebol em Portugal.

Se houver envolvimento e trabalho de equipa, há resultados.

A atual sensação de impunidade atingiu patamares patológicos. Hoje todos dizem (e parecem fazer) o que querem, quando e como querem, porque podem. Não parece haver forma de travar a falta de ética e as alegadas práticas criminosas que parecem multiplicar-se ao segundo e florescer ao minuto. Cada dia que passa, é um dia de suspense, que parece aguardar por notícias trágicas de coisas que se faz ou diz fazer.

Está tudo feio. Demasiado feio.

E a co-responsabilidade de quem pode mudar o rumo dos acontecimentos aumenta. Na verdade, não é mais criminoso o que faz do que aquele que, podendo evitar, deixa fazer. São crimes diferentes, mas são crimes.

A FPF - que muito tem lutado no sentido de tentar mudar o rumo dos acontecimentos -, a Liga Portugal e porventura, os poderes político e judicial (que mostram agora claros sinais de intolerância), têm neste defeso oportunidade de ouro para fazerem o que fizeram os nossos amigos ingleses... há quase trinta anos!

Apliquem, com celeridade e firmeza possíveis, a legislação em vigor. Apertem a malha da que virá depois e mostrem ao povo que quem manda, pode. E quem pode, consegue.

Percebam que, neste momento, estamos todos do vosso lado.

Do lado do futebol que bane os malandros, os imorais e os chico-espertos. Do lado do futebol que é seguro, que é emocionante e que enche os nossos corações com esperança e emoção.

Já vos disse... só custa começar a varrer. O resto é pura poesia.