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O Mundial de todas as provas

Ana Bispo Ramires

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Em plena campanha para o Mundial, encontram-se reunidas todas as condições para testar as capacidades psico-emocionais da nossa Seleção... isto porque, naturalmente, as competências desportivas ficaram mais do que comprovadas com o apuramento para esta fase final.

Competições como um Campeonato da Europa ou Campeonato do Mundo, partilham de um conjunto de fatores de potencial stress que, outro tipo de competições não possui.

Este tipo de fatores, decorrente da gestão por parte do Selecionador e da sua equipa técnica), poderão resultar numa alavanca para performances de excelência ou, quando não “acautelados”, numa rampa para o “caos”.

Vejamos alguns exemplos:

- Frequência e sensação de “oportunidade a não perder” – tratando-se de provas cujo, “palco final” ocorre de 4 em 4 anos, esta etapa da competição configura-se como o cenário ideal para que se observem fenómenos de natureza emocional de forma extremada – seja pela exibição de desempenhos de excelência, seja pela exibição de performances caóticas – uma vez que, nova oportunidade só surgirá (se surgir) daí a 4 anos;

- Desejabilidade – espera-se que, neste tipo de palcos, se observe o “topo da elite” de cada nação: fazer parte desta “família” é algo naturalmente desejado, seja por uma questão de prestígio (com natural repercussão em termos de contratos) ou de propósito pessoal – por esta razão, muitas vezes os atletas aumentam os níveis de pressão interna (híper-exigência) que podem, por si só, boicotar um bom desempenho;

- Registo de isolamento Vs. proximidade – ainda que as estruturas que suportam os atletas e restante staff, tenham já claras preocupações no que respeita a diminuir este tipo de circunstância (permitindo, por exemplo, que pontualmente, os atletas possam estar com as suas famílias), o facto é que terão que permanecer , por um período mais prolongado, em contexto de maior isolamento (familiar) e de maior proximidade com colegas cujo estilo de vida (ex: adormecer mais tarde), pode claramente perturbar a natural rotina de descanso dos atletas;

- Timimg da Competição – tradicionalmente, este tipo de competição ocorre num período da época onde, pelo estatuto que os atletas têm, de certeza realizaram um elevadíssimo número de jogos pelos seus clubes, razão pela qual é expectável que venham com sinais de cansaço e fadiga física e psico-emocional que devem ser alvo de intervenção, no sentido de diminuir o seu impacto na performance dos mesmos.

- Staff e Família – curiosamente este é um tema pouco abordado mas, indicam-nos os estudos que, muito frequentemente, a própria estrutura que acompanha os atletas (treinadores, equipas médicas e outras equipas de suporte) e as suas famílias, acabam por se comportar como importante fator de stress na vida dos atletas. Este, não é um facto que se “estranhe”, na medida em que sendo igualmente “pessoas” e tendo a sua própria “performance” associada a criação das condições ideias para que os atletas possam evidenciar o seu maior valor, também elas são terreno fértil para a manifestação (ocasional ou sistemática) de fenómenos de natureza ansiogénica que, naturalmente, impactarão os atletas (nem que seja por contaminação).

EMMANUEL DUNAND

A este cenário, e dada a (lamentável) conjetura atual, poderíamos ainda acrescentar:

- O cenário de insegurança internacional, resultante de atividade terrorista que, tendencialmente, escolhe grandes palcos para afirmar a seua “presença” e poder – existindo já, claríssimas ameaças no que respeita a este mundial;

- O cenário interno da nossa seleção, onde um conjunto de atletas foi vítima de uma violenta agressão nas instalações do próprio clube, com todas as decorrências e compromissos de performance e qualidade de vida que poderão, a curtíssimo, médio ou longo prazo, resultar daí.

Naturalmente que, toda a estrutura que suporta a Seleção, também ela se encontra devidamente creditada para ultrapassar todo o tipo de possíveis dificuldades que possam surgir – em boa verdade, o sucesso no último Campeonato da Europa não pode ser atribuído meramente aos atletas.

De facto, desempenhos desportivos de excelência dificilmente serão alcançados se, toda a estrutura de suporte (dirigentes, equipa técnica, médica, fisiologistas, cozinheiros, técnicos de equipamento, entre tantos outros) não estiver, ela própria, comprometida com a “entrega” de um desempenho de excelência (top performance) e, apesar de quase “invisíveis” para o grande público, a sua “marca” está claramente na última conquista.

Neste enquadramento, se quiséssemos enunciar algumas estratégias de sucesso, poderíamos enunciar (de um lote infindável que, naturalmente, deve ser equacionado de acordo com as necessidades específicas identificadas), a título de exemplo:

- Criação de um enquadramento e setting, onde Equipa Técnica e Atletas possam estar focados apenas no que controlam => os comportamentos que precisam exibir para aumentar a taxa de sucesso;

- Criação de um contexto onde a participação, compromisso e envolvimento positivo de todos os (infelizmente) “invisíveis” (mas determinantes para a reunião de condições necessárias para o sucesso) possa ser reconhecido (existem variadíssimas formas – dependerá do propósito);

- Ajudar Atletas (e, idealmente, restante comitiva) a criar uma “rede de suporte” que, na sua ausência (por se encontrarem deslocados no estrangeiro), serão a primeira linha de apoio às suas famílias e ente-queridos (aumentar a sua perceção de controlo sob a proteção que conseguem prover às famílias, diminuindo a sensação de poderem estar “em falta”);

- Fazer um levantamento de todos os possíveis cenários de crise (situações que possam comprometer o desempenho do Atleta ou da Equipa), dos mais prováveis aos mais improváveis, criando linhas de resposta rápida, que permitam ao Atleta/Equipa voltar rapidamente ao seu normal funcionamento;

- Discutir e implementar rotinas que potenciem a qualidade do sono, o descanso, a recuperação física e energética/emocional após cada jogo, por forma a que os Atletas as integrem no dia a dia e se possam apresentar no seu “ponto ótimo” no momento a seguir;

- Em caso de fragilidade emocional (caso se observem episódios desta natureza), ajudar a pessoa em questão a: 1) se motivo for externo, encontrar algum interlocutor da sua confiança que possa, mediamente instruções previamente acordadas, atuar por si e 2) ajudar a encontrar objetivos a curto prazo (encadeados de forma sucedânea), focados na tarefa imediata e na importância do seu papel na missão do grupo, por forma a desenvolver um foco no “aqui e agora”, centrado no compromisso (afeto positivo) com a “sua tribo” (equipa).

Por último, e não menos importante (certamente, já sob atenção de todo o departamento médico da Seleção), como já discutido num artigo da Tribuna Expresso, dada a natureza do episódio de Alcochete poder ser um fator determinante na instalação de quadros de ansiedade aguda, ter uma especial atenção a pequenos indicadores que possam indiciar precocemente este tipo de risco para, de forma atempada, prover o suporte necessário às pessoas em questão (que poderão, ter vivenciado ou não o evento – uma característica pouco conhecida mas documentada cientificamente, neste tipo de eventos).