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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

A fragilidade emocional do árbitro do Portugal-Irão (que acertou no lance de Ronaldo mas errou no de Cédric, diz Duarte Gomes)

Duarte Gomes avalia a prestação do árbitro Enrique Cáceres no Portugal-Irão (1-1)

Duarte Gomes

Amin Mohammad Jamali

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Muita intensidade, emoções ao rubro e incerteza máxima até ao apito final. Eis a crónica resumida do jogo de ontem, em Saransk. Podia ser diferente? Podia. Mas não seria a mesma coisa... e a alma lusitana já não acha piada a saborear alegrias sem sofrimento. Eu sei que vocês sabem do que estou a falar.

O Portugal-Irão, último jogo da fase de grupos e decisivo nas contas das duas (perdão, três) equipas, teve todos os condimentos que têm as partidas dramáticas. Naturalmente.

No meio de muitos suores frios, adrenalina intermitente e taquicardia descontrolada, uma equipa de arbitragem, liderada por um paraguaio.

Enrique Cáceres, 44 anos, veterano em jogos calientes (Copa dos Libertadores e afins) e que ontem realizou a sua segunda partida neste (e num) Mundial. Provavelmente a última. Ou talvez não.

O filme do jogo pode contar-se em duas versões distintas: longamente, se dissecarmos, ao pormenor, as mil e uma peripécias a que assistimos nas quatro linhas... ou em short version, resumindo ao máximo as incidências maiores da partida.

Por questões de poupança (nos carateres) e por cortesia à vossa bondosa tolerância, opto pela segunda.

Árbitro com qualidade que ontem não fez um bom trabalho. Porquê? Porque, mais do que acertar ou errar aqui ou ali (quem nunca errou?), pareceu sucumbir, lenta mas gradualmente, à inacreditavel pressão feita, em permanência, quer por jogadores iranianos, quer pelo seu banco técnico.

A partir de certa fase do jogo, cada decisão, cada intervenção, cada apitadela, parecia gerar um verdadeiro brain storm. Todos rodeavam, opinavam, contestavam, gritavam e seguiam o árbitro paraguaio por todo o lado. Faziam-no como se essa opção pudesse fazer mudar o rumo da decisão tomada. O que é certo é que, aqui e ali, a estratégia parece ter funcionado.

É por isso que dizemos que o juiz sul-americano foi cedendo à pressão, evidenciando aí alguma falta de autoridade, que não pode nem deve acontecer a este nível. Os jogadores sentem e isso é a morte do artista. Ou, no caso, do árbitro.

Chantagem emocional (e teorias de vitimização) à parte, convém destacar nesta novela surreal um outro nome: Massimiliano Irrati, a opção mais credível (aos olhos da FIFA), para a função de VAR: o juiz internacional italiano, um dos treze com esta missão específica, já atuou em sete partidas nesta prova, entre as quais o jogo de abertura e o célebre Portugal-Espanha.

Sim. O tal do miminho do Diego Costa em Pepe.

Quanto aos lances macro do jogo de ontem... pontapé de penálti bem assinalado, por rasteira evidente (e pareceu-nos que desnecessária) de Ezatolahhi sobre Ronaldo.

O árbitro, pertíssimo da jogada e muito bem colocado, terá pensado haver teatralização do capitão português e nada assinalou. Valeu aqui a pronta intervenção do videoárbitro italiano.

Depois Cédric chocou, lateralmente, com Azmoun, em plena área portuguesa. Lance de contacto (ainda permitido no futebol), mas sem qualquer infração. Boa análise do juiz paraguaio.

Mais tarde, Quaresma deixou o sangue latino ferver demasiado e derrubou Ezatolahhi, com clara negligência. Viu e bem o cartão amarelo. Na sua memória recente, estaria falta anterior cometida por aquele, que não fora assinalada. Numa partida tão quente, ninguém leva a mal uma pequena vendetta...

Mais tarde, foi a vez de Shojaei sentir o corpo de William e atirar-se para o chão, a ver se caía um penálti divino. Para desespero de Carlos Queiroz (respeito máximo pelas emoções que estes jogos têm nas equipas técnicas), a verdade é que não houve infração. O jogador iraniano sentiu o contacto e tentou tirar benefício disso. Nova boa decisão de Enrique Cáceres.

À passagem do minuto 80, Ronaldo forçou a passagem perante um iraniano que tudo fez para o obstruir sem bola jogável e, numa atitude excessivamente impetuosa, atingiu-o com o braço, na zona do ombro/cara.

Maja Hitij - FIFA

Lance antidesportivo, passível de cartão amarelo. O VAR entendeu haver matéria para cartão vermelho direto e, com base nesse argumento protocolar, chamou o árbitro para rever a imagem. Muito bem este o juiz do Paraguai em apenas advertir o capitão português.

Não houve conduta violenta. Não houve agressão. Não houve tentativa de magoar, bater ou lesionar.

O uso dos cotovelos é quase sempre perigoso e passível de expulsão, mas é preciso que exista a tal intensidade, a tal malícia e força/velocidade de movimento que o justifique.

Isso são coisas que se sentem, percebem, intuem. Um jogador que quer magoar outro cerra dentes e punhos, "puxa a culatra" bem atrás, faz movimento claro, ostensivo, intencional. O desenho de uma agressão, para quem tem sensibilidade para o jogo, é quase sempre nítido. Demasiado nítido.

Não foi isso que aconteceu ali. Nós sabemos e, seguramente que mais a frio e com outra distância, o técnico do Irão também saberá.

Mas a cereja no topo do bolo - no caso, bem azeda e estragada - estava guardada para o ultimo minuto. Ora digam lá se a coisa não foi mais ou menos assim:

- Lance na área de Portugal. Cédric Soares, mais baixo do que o seu oponente, saltou com este na tentativa de cortar a bola. O avançado iraniano, mais alto, forte e possante, colocou o seu braço esquerdo sobre o ombro direito do lateral português (esta até damos de barato) e cabeceou, de baixo para cima, contra o braço esquerdo daquele. Remate na queima e com violência.

Os dois braços do defesa de Portugal estavam abertos sim, não para ganhar vantagem com volumetria ilegal, mas porque esse é o movimento natural de quem salta. Chama-se impulsão.

No momento em que a bola foi contra o braço de Cédric (e não o contrário, nunca o contrário), o jogador português estava colado ao seu adversário, de olhos bem fechados e nem percebeu bem do que aconteceu.

O árbitro viu bem e o VAR avaliou mal. Pior mesmo foi Cáceres, pressionadíssimo por uma equipa e por um banco que nunca lhe deram tréguas, olhar para uma imagem que "todos os manuais" sugerem não ser para punição... e decidir diferente.

Cedeu aí e mostrou fragilidade emocional que, a este nível, não costuma ter perdão.

Portugal não brilhou mas passou. Podia ser diferente...mas não seria a mesma coisa.