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A fórmula do sucesso: replicar o Euro 2016

Ana Bispo Ramires

Cristiano Ronaldo, capitão português

Stanislav Krasilnikov/Getty

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Diz-nos Csíkszentmihályi que as melhores performances ocorrem sob a influência de um estado emocional (Flow) que poderia ser caracterizado por "estar completamente focado numa dada atividade per si. O ego dilui-se, só a ação importa. O tempo voa. Toda a ação, movimento e pensamento seguem inevitavelmente dos anteriores, como se se tratasse de uma peça de jazz. O atleta está completamente envolvido, expressando as suas capacidades no máximo disfrutando, simultaneamente, e em igual intensidade, de cada ação”.

Recorrentemente, o estado de flow encontra-se associado às melhores performances dos atletas – seja pelo relato direto destes ou pela investigação produzida, este facto encontra-se sobejamente documentado na literatura científica especializada, nas ultimas décadas.

De posse desta informação, o desafio que, desde sempre, se impôs tem a ver como é que os atletas, de forma voluntária e inconsciente, conseguiriam ativar este estado emocional que potenciaria a exibição de desempenhos de excelência.

FLOW de EQUIPA?

Se este é um desafio complexo para um atleta - porque implica ganhos crescentes de auto-consciência e auto-regulação, unicamente alcançáveis através de planos de treino de competências psico-emocionais específicas – imagine-se, a dificuldade que será, colocar toda uma equipa num estado emocional ótimo para a performance.

Assim, de repente, e não querendo fazer um exercício exaustivo, implica que o “maestro”, consiga criar as condições específicas para que: 1) ele próprio; 2) a sua equipa técnica; e, pelo menos, 3) os seus Atletas, consigam estar o mais próximo possível desta espécie de “estado de graça”.

De facto, em alta performance, a analogia mais justa será mesmo a de um Maestro que tem a seu cargo fazer com que toda uma “comitiva” (treinadores, equipa médica, dirigentes e outro staff) funcione numa harmonia quase perfeita... sem a mais parca presença de qualquer tipo de “desafino”.

E esta é, uma tarefa infindável, onde todas as variáveis (e seus impactos) devem ser equacionadas(os).

A fórmula do Euro 2016

Os heróis portugueses no relvado do Stade de France depois de conquistarem o Euro-2016

Os heróis portugueses no relvado do Stade de France depois de conquistarem o Euro-2016

getty

Há precisamente dois anos presenciámos um conjunto de fatores, no mínimo, interessantes:

1. Uma seleção fortemente criticada pelos seus adeptos dada a “pouca qualidade das suas exibições e a sua ineficiência do ponto de vista quantitativo;

2. Uma seleção reconhecidamente caracterizada por se traduzir numa fórmula 1+10 (sendo que este um carregaria a responsabilidade de tudo e mais alguma coisa)

Como resultado, e reportando meramente à final, constatámos um “Maestro” que soube afinar toda a “orquestra” e:

1. Um “1” que se lesionou + 10 que, muito possivelmente e da única forma possível, diluíram a responsabilidade do primeiro entre cada um dos elementos, envolvendo-se com maior intensidade em cada ação (fenómeno este, de resto, mais do que validado na área de investigação) e, consequentemente, elevando o nível de performance individual e da equipa;

2. Um guarda-redes claramente em estado de flow, assegurando um conjunto de defesas que viria, inevitavelmente, a criar um registo de ainda maior confiança nos colegas;

3. Um quase “desconhecido” que, num momento de clara inspiração (flow) viria a resolver o resultado a favor de Portugal;

4. E, por último, como resultado desta experiência, uma nação anteriormente crítica comemorou os agora Campeões Europeus que, merecidamente, viram o seu estatuto reconhecido (o qual, diga-se de passagem, no que respeita às suas competências, seria o mesmíssimo... ainda que não tivessem ganho absolutamente nada).

E agora?

Jan Kruger/Getty

Em boa verdade, algumas partes da “história” se estão a repetir, senão vejamos:

1. A fórmula 1+10 instalou-se desde o primeiro jogo - aqui, graças à capacidade de um atleta entrar em Flow, manifesta através de uma exibição de excelência (o que seria justo mas...) como se se tratasse de uma modalidade individual, removendo de imediato a capacidade de identificar as importantes ações desenvolvidas pela restante equipa e, consequentemente, a responsabilidade da mesma (o que, não é de todo interessante);

2. As primeiras críticas referentes à qualidade ou quantidade do futebol já se fazem sentir (porque uns não acertam na bola e deveriam acertar, porque outros não correm, porque alguns merecem porque rescindiram com o seu clube, enfim... mais umas quantas razões de natureza questionável);

3. Corremos o risco de ter o tal “1” indisponível para algum dos jogos de “mata-mata” que agora se avizinham, por uma possível “lesão” resultante da acumulação de amarelos...

4. E, até já tivemos um defesa que mais parecia um guarda-redes e um “golpe de génio” que nos garantiram a passagem aos oitavos de final...

Assim sendo, e deste ponto de vista, à partida seria plausível acreditar que, num cenário diferente e até com uma equipa diferente (dez campeões europeus estão ausentes), algumas das anteriores circunstâncias de sucesso estão a dar o “ar da sua graça” e, de novo, a acompanhar o percurso da nossa seleção.

Bom augúrio?

De forma planeada (por ação do treinador) ou por mera reorganização espontânea da equipa (que, não nos podemos esquecer, comporta atletas de competências e recursos elevados), o facto é que observámos em 2016:

* Um claro movimento de coesão de equipa, face às críticas exteriores, possivelmente alavancado pela forte convicção do Selecionador de que a equipa permaneceria até à final – este tipo de ação, por si só, certamente ativou um ainda maior compromisso individual e de equipa, face à confiança (e risco ao assumir essa postura de forma pública), assumidos pelo Selecionador;

* Uma gigantesca capacidade de assumir, individualmente, um compromisso de equipa e, consequentemente, uma manifesta capacidade de sacrifício e superação;

Agora, e uma vez mais, encontra-se nas mãos do “maestro” (e na sua capacidade de entrar ele próprio em flow) a criação de uma nova “harmonia” que possibilite a elevação da performance da equipa para patamares de excelência.

Agora, a decisão não passa pela qualidade técnica dos jogadores, do desenho tático planeado ou, até da vontade (que, em excesso, se transforma em pressão auto-induzida) mas sim, da capacidade de se ENTREGAR(em) a CADA MOMENTO do JOGO, de forma DESAFIADA e sempre, sempre... com uma imensa capacidade em comemorar cada sucesso e se superar em cada adversidade.