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FC Porto: Estes romanos são loucos - e são poucos

O FC Porto ganhou por 3-0 à Roma que teve não um mas dois ataques de estupidez por De Rossi e Palmieri, que foram expulsos após entradas duras sobre Maxi e Corona. O triunfo justo vale a entrada na Liga dos Campeões

Pedro Candeias

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Paolo Bruno

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Juro que não queria começar por uma piada que remete para o Astérix e para os romanos (e aquilo que o Astérix acha dos romanos) porque esta já foi usada não uma, nem duas, nem três, mas muitas vezes, em número suficiente para que se tenha tornado um cliché da bola. Aliás, para ser honesto, eu achava que ia começar com uma curta viagem no tempo, a um passado próximo que me parecia distante, juntando-lhe um trocadilho numa hashtag modernaça que agora tanto se usa.

Era esta: #JáFomosPorto.

E começava assim:
Eu sou do tempo em que o capitão do Porto era um português com muitos anos de casa, caído num caldeirão de portismo na meninice, pronto a passar o misticismo do clube aos outros que lhe seguiam.

Nesse tempo, o Porto também não comprava jogadores belgas desconhecidos, mas sul-americanos desconhecidos que se tornavam conhecidos por fazerem golos nas Antas (e, depois, no Dragão). E, destes, podia falar do Jardel e do Falcao e do Jackson - mas nunca poderia estar a falar do Depoitre que, ainda por cima, foi comprado sem poder jogar nesta eliminatória da Liga dos Campeões.

Ainda naquele tempo, o Porto era o que surripiava os futebolistas aos rivais debaixo dos narizes destes, com mais milhão, menos milhão, umas regalias aqui, outras acolá, agindo como quem não queria a coisa - mas queria e muito, e quando a queria, tinha-a.

E era esse querer, que era poder, que transformava o Porto num clube onde - dizia-se e eu concordo - um treinador menos competente podia ganhar troféus. Acontecesse o que acontecesse, nesse tempo, a culpa era do mister e nunca da estrutura, uma palavra pomposa que se reinventou para a bola - mais ou menos como o "aparelho", nos partidos políticos.

FILIPPO MONTEFORTE

Portanto, estava eu aparelhado para tudo isto, para criticar uma equipa que era bem mais fraca do que outra e que por isso iria perder com esta um jogo, uma eliminatória e o direito a abichar €14 milhões (€2 milhões por passar, €12 por entrar na Champions), quando aquilo que eu não esperava aconteceu: o Nuno Espírito Santo, que não tem culpa de ter um plantel curto, jovem e com poucas soluções, tinha razão.

Tinha razão quando repetia as palavras compromisso, corporativismo, cooperativismo nas conferências de imprensa, porque este Porto, à falta de melhor, é uma equipa e não 1+1+1+1+1+1+1+1+1+1+1. Isso explica que tenha pisado o relvado sem medo em Roma, contra a Roma que gastou €110 milhões e que tem futebolistas como Salah, Dzeko, Nainggolan, Strootman e De Rossi.

O Porto, do Otávio, do Felipe, do Corona, do André Silva e do André André, entrou com personalidade, aquela personalidade de que o Ronaldo fala, pronto para bater o pé aos italianos: dominou no meio-campo, com o Otávio metido mais por dentro e o Corona aberto à direita, a trocar a bola desse por onde desse, no meio daqueles grandalhões de penteados excêntricos, como o Paredes ou o Nainggolan.

Chegou ao golo por Felipe, que é muito bom de cabeça pelo ar quando não anda de cabeça no ar, e pôs-se em vantagem na eliminatória, num jogo que estava a ser morno e lento, talvez porque assim as equipas o queriam, talvez pelos 30º que não ajudam às correrias. Depois, esperou, encolheu-se um bocadinho, apenas o quanto baste, tentando controlar aquele espaço entre a defesa e o Casillas a que se chama profundidade, e a coisa estava assim-assim até que De Rossi pespegou a chuteira na perna de Maxi Pereira - e foi expulso. A partir daí, nada seria como dantes. E não iria ficar por ali.

O lance estúpido do capitão romano obrigou Spalletti a tirar Paredes e a pôr Palmieri que acabou por sair porque fez mais a Corona do que De Rossi fizera a Maxi Pereira. Aos 50 minutos, com 1-0 e 11 contra 9, o Porto tinha o sonho à mão e fechou o punho para não o perder. Seguiu-se o 2-0, por Layún, e o 3-0, por Corona, e um triunfo que ficará para a história como a enésima variação do tema do David e do Golias. Ou dos pequenos gauleses e dos grandes romanos.