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Antero fartou-se do (outro) Pinto da Costa

Na origem da queda lenta de Antero Henrique no reino do ‘dragão’ está Alexandre, o filho pródigo de Pinto da Costa, que depois das pazes com o pai tem crescido em influência no clube, onde não detém qualquer cargo

Isabel Paulo e Pedro Santos Guerreiro

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ricardo castelo/lusa

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O poderoso administrador e diretor-geral da SAD do FC Porto ameaçou uma, ameaçou duas, e à terceira vez pôs a demissão por escrito, renunciando a todos os cargos que exercia no clube que serviu durante 26 anos. A saída foi consumada esta semana, mas não surpreendeu os mais próximos de Antero Henrique.

Há um acumular de razões que levaram ao afastamento, mas na origem há um só assunto: a má relação entre Antero Henrique (e a sua linha de poder) e Alexandre Pinto da Costa (e a sua linha de poder). O presidente Jorge Nuno Pinto da Costa tentou manter vivas as duas fações, o que deixou de conseguir agora. Durante anos, a lealdade (e gratidão) do administrador da SAD ao seu presidente manteve-o na estrutura. Sucessivamente desautorizado nos negócios e nas escolhas para a equipa, Antero advertiu Pinto da Costa de que estava de abalada logo no final de maio, inconformado com a aposta em Nuno Espírito Santo para suceder a José Peseiro no ruinoso banco portista desde Lopetegui.

Em janeiro, Pinto da Costa preferiu a experiência de Peseiro para colocar ordem na casa em derrapagem, solução que Antero digeriu a contragosto, dada a inflexibilidade do Olympiacos em libertar Marco Silva. Findo o campeonato, Antero perdeu a paciência, quando viu o dossiê treinador passar-lhe ao lado e ser conduzido por Jorge Mendes, com a bênção de Pinto da Costa e do filho Alexandre, que advogou as pazes com Mendes, empresário caído em desgraça junto do líder do FC Porto por causa do fiasco Adrián López. Fontes contactadas pelo Expresso garantem que Antero chegou a apalavrar com Marco Silva a sua contratação pelo FC Porto. “O Antero nunca se conformou que nem tivessem tentado contratar o Marco, que como se viu deixou o Olympiacos e que estava disposto a vir para o FC Porto”, refere fonte afeta ao clube.

Foi mais um prego numa relação desgastada pela crescente influência de Alexandre na compra e venda de jogadores, agravada pela partilha da mesa das cobiçadas comissões. Amigos e cúmplices de longa data, aliança cimentada nos anos de brasa do ‘Apito Dourado’, Pinto da Costa demoveu Antero de abandonar o barco, encalhado no terceiro lugar da Liga. Segundo o Expresso apurou, o até há pouco homem forte do futebol portista colocou em definitivo o lugar à disposição do presidente em vésperas do jogo do FC Porto com a AS Roma, altura em que estoirou o caso do avançado belga Laurent Depoitre, inibido de jogar o playoff de qualificação para a Champions por já ter atuado nas eliminatórias da Liga Europa pelo Gent.

A capitulação

A saída de Antero significa a sua derrota e a vitória de Alexandre. Mas significa também um modelo diferente de liderança, porque Antero preferia uma estrutura profissional contra um modelo mais centralizador de Alexandre. Neste modelo, o filho de Pinto da Costa é “unha com carne” com Pedro Pinho, e ambos são muito próximos de Nélio Lucas, rosto do controverso fundo de investimento Doyen Sports. Já Antero era mais próximo de Jorge Mendes, bem como de outros empresários. O facto de Antero já estar “desligado” do FC Porto nas últimas semanas ajuda a compreender os poucos negócios que o clube do Dragão logrou fechar na época de transferências que terminou esta semana.

Resta saber em que posição fica o presidente, que tem estado cada vez mais isolado. Mesmo a histórica relação com Joaquim Oliveira esfriou este ano, depois de o FC Porto ter preferido fechar contrato de direitos televisivos com a MEO, ao mesmo tempo que negociava com a NOS. Na negociação com a NOS estava envolvido Antero, com a MEO estava Alexandre. O presidente apoiou o filho. O problema não é menor, tendo em conta a situação desportiva e financeira do clube, que está há três anos sem ganhar a Liga e acumula uma dívida elevada, detendo por inteiro o passe de poucos jogadores valiosos, o que inibe lucros em vendas futuras.

O imperdoável erro Depoitre

Apanhado de surpresa pelo seu nº 2, que apresentou a demissão como “irrevogável”, Pinto da Costa ainda resistiu, mas depois limitou-se a pedir-lhe tempo para gerir a substituição. “Depoitre, além de questionável como reforço, teve na inscrição um erro de palmatória de Antero, que gerou contestação na SAD e ajudou a fação aliada a Alexandre a cavar a saída dele”, explica um ex-dirigente portista, crítico de algumas opções do administrador demissionário mas mais ainda da crescente influência de Alexandre, sócio da agência de jogadores Energy Soccer e amigo de Nélio Lucas. Apesar da cortina de ferro vigente na SAD, o prenúncio da saída do fiel escudeiro do líder portista transpirou para os bastidores, mas questionado sobre o assunto no final do jogo em casa com a Roma Pinto da Costa respondeu de pronto que “era uma não notícia”. Apesar de negar o que era dado como adquirido, o presidente já estava em contacto com Luís Gonçalves, dirigente do FC Porto no final dos anos 80, nomeado vice-presidente quando ainda Antero dava os primeiros passos nas Antas. Responsável pelo departamento de scouting do Shakhtar Donetsk, o engenheiro que trocou a eletrotécnica pelo futebol deixou o FC Porto em finais da década de 2000, atraído por um salário chorudo na Ucrânia.

Ao que o Expresso apurou, o divórcio de Antero é amigável e a fórmula “por razões pessoais” apresentada na quinta-feira à CMVM foi preparada para não beliscar o dirigente, que deixa o clube em queda mas com um currículo de êxitos, sendo o mais recente a conquista da Liga Europa. A contestação nas redes sociais dos últimos dias cresceu à medida que o FC Porto se enterrava no mercado de verão, que fechou com menos de €10 milhões em caixa e uma única venda (Maicon), em contraste gritante com o poder de fogo de outrora e operações anuais acima dos €100 milhões. Um poder agora perdido para os rivais da Segunda Circular. A machadada final num mercado para esquecer foi a operação falhada de Brahimi, uma das poucas joias que podiam render uns milhões nos cofres a vermelho. Detido em partes iguais pela SAD e pela Doyen Sports, de Nélio Lucas, amigo de Alexandre e Pedro Pinho, sócios da Energy Soccer, cada parte esticou a corda em miragem das comissões, desentendimento que levou Everton e Galatasaray a desistir do internacional argelino.

Resta saber se Antero terá a tentação de regressar pela porta grande ao clube onde o rival Alexandre ganha espaço. Fontes próximas do clube garantem que pelo menos para já Antero está fora de jogo, sendo previsível que siga para o departamento de futebol de um clube europeu, depois de ter recebido abordagens do Chelsea e do PSG em anos transatos. “Mesmo que tente a cadeira de sonho, nunca irá concorrer contra Pinto da Costa, por quem nutre uma enorme dívida de gratidão.” Ontem, Antero deixou o Porto em viagem de férias com a família.

Os destinos cruzados de Antero e Luís

Antero Henrique, braço-direito de Pinto da Costa desde os anos de brasa do ‘Apito Dourado’, cruzou-se com Luís Gonçalves nas Antas quando era ainda menino e moço, há longos 26 anos. Antero, que trocou a Vinhais natal pelo Porto para completar o ensino secundário, debutou como tarefeiro da revista “Dragões”, dirigida então pelo seu agora sucessor na administração da SAD portista e no poderoso cargo de diretor-geral do futebol. Aos 63 anos, Luís Gonçalves, antigo vice-presidente do FC Porto e engenheiro eletrotécnico de profissão, a exercer as funções de diretor de scouting no Shakhtar Donetsk desde 2011, deixa a Ucrânia para regressar ao clube onde nos anos 90 dirigiu as camadas jovens, ao lado de Joaquim Pinheiro, irmão de Reinaldo Teles, o antecessor de Antero no comando do cobiçado departamento. Ainda na publicação do clube, Antero e Luís Gonçalves incompatibilizaram-se “por questões menores”, segundo fonte do clube, relação que se terá esfriado à medida que o transmontano subiu a pulso no universo azul e branco até se tornar no nº 2 do clube. A vida dá muitas voltas.

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